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Reportagem

Peregrinos de volta ao Caminho de Santiago

09 jun, 2021 - 08:33 • Olímpia Mairos

Depois de um ano de interrupção devido à pandemia da Covid-19, os grupos de peregrinos estão de regresso ao Caminho de Santiago.

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De mochila às costas, um grupo de 12 amigos de Castelo Branco, com idades entre os 30 e os 60 anos, está por estes dias a fazer o Caminho Interior de Santiago. O sonho já vem de há dois anos e começou a ser palmilhado entre a Régua e Chaves.

Em 2020, devido à pandemia, não foi possível dar continuidade à aventura que é retomada, agora, entre Chaves e Ourense, por etapas. Depois vão regressar para retomar o caminho até ao destino final: Santiago de Compostela. Querem concluí-lo ainda em ano jacobeu que foi prolongado até 2022.

Paula Marques, de 52 anos, enfermeira, conta à Renascença que já fez o caminho por duas vezes, mas nunca tinha feito este - o do Interior - e não esconde a alegria por estar a concretizar o sonho, “depois de um ano tão difícil”.

“Como somos do interior, decidimos fazer este caminho que não é tão explorado”, explica.

Habitual peregrina também dos caminhos de Fátima, Paula considera que “quem faz o caminho a pé até Fátima, também o deveria fazer, pelo menos uma vez na vida, até Santiago”.

“Além de ter a parte espiritual, tem outras coisas que vimos buscar, o que encontramos, as pessoas com quem nos cruzamos e nos fazem crescer, o convívio, a introspeção pessoal”, explica a peregrina, sublinhando que “não são os peregrinos que fazem o caminho, mas sim o caminho que faz os peregrinos”.

À caminhada física, junta-se, assim, segundo a peregrina, uma viagem espiritual e de autoconhecimento.

“Vimos aqui buscar indulgências para o ano inteiro, para podermos ter na nossa vida pessoal e profissional e social, para podermos desfrutar o resto do ano”, acrescenta Paula Marques.

“É o caminho que nos faz”

Também Anselmo Cunha, dirigente do Ministério da Agricultura, se encontra a percorrer o caminho e explica à Renascença que dentro do grupo cada um tem a sua motivação.

“É o caminho que nos faz. Tanto pode ser religioso, como simplesmente ver a paisagem, como necessidade de introspeção. Não há um motivo para ir a Santiago, mas há todos os motivos”, conclui o peregrino.

Jaime Matos, de 53 anos, enfermeiro, esperava, há dois anos, por esta oportunidade.

“A impossibilidade de fazer o caminho estava a deixar-nos um amargo e uma ansiedade e quando houve esta oportunidade, agarramos com sacrifício da família, das férias, mas com a libertação para chegarmos”, conta.

Para este peregrino, trata-se de “uma experiência única”, porque entende que o caminho faz a pessoa “do ponto de vista pessoal, do ponto de vista social e também do ponto de vista profissional”.

“Tendo em conta que foi um ano muito complicado que passamos, e parece que está outra vez a aumentar o número de casos, também precisávamos de um bocadinho de libertação pessoal”, observa.

Caminho é superado com a ajuda de todos

Segundo Jaime Matos, o caminho de Santiago “serve também para nos libertarmos um pouco, por vários motivos. Primeiro, porque vimos num grupo de amigos de há muitos anos, os amigos de sempre, somos companheiros e quando nos metemos neste caminho vimos também uns pelos outros”.

“Do ponto de vista profissional, serve também para libertar um bocadinho a tensão e ganhar novas energias para o caminho que há de vir à nossa frente que esperamos curto, mas que vai ser duro”, acrescenta.

O peregrino de Castelo Branco assinala ainda a importância de palmilhar o caminho em grupo.

“Aqui não há mais velho nem mais novo, ninguém vai à frente ou atrás, vimos todos juntos. Claro que cada um tem as suas dificuldades, mas o caminho é superado pela ajuda de todos, as dificuldades de uns juntam-se e são amenizadas pela força que o grupo tem”, assinala.

Na mochila, Paulo e os companheiros levam apenas o que consideram essencial, “as roupas e aquilo que faz falta para sobreviver durante a semana”.

“A nossa casa vai aqui, um bocadinho, e depois é acompanhada pelos nossos amigos que fazem o resto”, graceja o peregrino.

Os Caminhos de Santiago, que atravessam Portugal de Sul para Norte, são seguidos pelos peregrinos há séculos e têm como destino a Catedral de Santiago de Compostela, em Espanha.

Em 2021 celebra-se o Ano Jacobeu ou Ano Jubilar, que é celebrado quando a festividade do Apóstolo Santiago, que ocorre no dia 25 de julho, coincide com um domingo. Espanha já assegurou que o jacobeu irá prolongar-se até 2022, devido às restrições impostas pela pandemia.

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