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Portugal fora da lista verde do Reino Unido

"Quando uma notícia põe um país de joelhos está tudo dito", alerta João Duque

04 jun, 2021 - 21:00 • Sérgio Costa

Em 2019, o melhor ano para o setor do turismo antes da crise, Portugal uma receita total turística de 18,4 mil milhões de euros. "É muito bom", diz João Duque, mas "quase 18% tiveram origem em turistas do Reino Unido". Ou seja, "por cada cinco euros que os turistas gastam em Portugal, um euro vem do Reino Unido".

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Em declarações à Renascença, o economista João Duque considera que o sobressalto gerado pela decisão britânica de retirar Portugal da lista verde de destinos deve ser encarado como oportunidade para diversificar mercados no turismo mas, sobretudo "para se fazer apelo ao investimento e canalizá-lo para outras áreas" com rentabilidade rápida e de elevado valor acrescentado.

O melhor exemplo, diz, é o setor do calçado que, "nos últimos 20 anos ajustou-se e criou uma imagem no mundo que hoje leva a que os estrangeiros procurem os sapatos portugueses pela sua qualidade mas, também, pelo seu design e, nalguns casos, também pela sua marca".

Devemos diversificar mercados no turismo, ou diversificar a economia para não dependermos assim tanto do turismo?

O ideal é fazer as duas coisas. Em primeiro lugar, aumentar o peso dos outros setores, mas através do crescimento desses setores, porque não queremos diminuir a oferta.

Não se tratando disso, o que se trata é de crescer em setores com valor acrescentado elevado por unidade de local de trabalho criado. É fundamental termos isso em mente: criar trabalho novo mas com valor acrescentado por unidade de posto de trabalho elevado ou unidade de capital, mas, por outro lado, diversificar as origens, aumentando as outras origens.

Portugal, em 2019, o nosso melhor ano do turismo antes da crise, tivemos uma receita total turística de 18,4 mil milhões de euros, o que é muito bom, mas, destes 18,4 mil milhões, quase 18% têm origem em turistas do Reino Unido, o que é muito significativo, quase um em cinco.

Cada cinco euros que os turistas gastam em Portugal, um euro vem do Reino Unido.

Em termos de camas e de dormidas, o Reino Unido também representa 19% da quota de mercado em termos de dormidas.

Ou seja, todo este drama com a decisão do Reino Unido de retirar Portugal da lista verde decorre de duas razões: pouca diversificação do setor do turismo - que é o mais importante para a economia portuguesa - e, também, de uma economia pouco diversificada, porque vivemos quase exclusivamente do turismo.

Exatamente. O turismo direto tem um peso estimado de 8% do PIB, mas o indireto anda à volta dos 14%. Por isso, o turismo significa muito.

Esta é uma boa oportunidade para repensar a economia portuguesa?

Sim, é uma boa oportunidade para se fazer apelo ao investimento e canalizá-lo para outras áreas.

Olhemos para o nosso Plano de Recuperação e Resiliência (PRR): não se vê propriamente uma estratégia focada nas empresas e no investimento reprodutivo direto.

Então, mesmo com o PRR, estamos a perder essa oportunidade?

Claramente. E nós vamos ver quantos são os países que nos próximos quatro a cinco anos nos vão ultrapassar em termos daquilo que é uma unidade de medida comum, que é o PIB per capita em paridade de poder de compra.

Nos últimos anos temos sido sucessivamente ultrapassados por mais um país, nomeadamente os do Leste.

Com este PRR espero que não sejamos ultrapassados pela Grécia, seríamos, finalmente, a lanterna vermelha da Europa.

Encontra algum setor em que Portugal poderia ou deveria apostar, para além do turismo?

Para não cairmos no erro do turismo, diria que devemos apostar em vários setores com valor acrescentado por unidade de trabalho incorporado elevado. Esse é que deve ser o nosso foco.

Podemos fazê-lo nas áreas mais tradicionais, por exemplo, ao nível do calçado.

No calçado, abandonamos uma estratégia de crescimento à custa do preço barato e de valor acrescentado baixo, porque somos incapazes de competir com a xanata chinesa. Se fossemos por esse caminho, destruíamos o setor. O que aconteceu é que, nos últimos 20 anos, o setor ajustou-se, readaptou-se e criou uma imagem no mundo que hoje leva a que os estrangeiros procurem os sapatos portugueses pela sua qualidade mas, também, pelo seu design e, nalguns casos, também pela sua marca.

E isso é fundamental, porque é na marca que as pessoas percebem que o sapato tem valor. Ou seja, é no imaterial que está grande parte do valor acrescentado. Essa é a estratégia que deve ser procurada.

Não devemos concentrar tudo num setor, e temos tido exemplos muito interessantes dos nossos unicórnios, aquelas empresas como a Farfetch e outras que têm procurado, em setores de atividade diferentes, mais na área da economia digital, um percurso que tem sido notável.

Mas não havendo essa aposta, este caso com o Reino Unido vem demonstrar as debilidades da economia portuguesa, quando temos apenas um setor privilegiado.

Veja só, uma notícia põe-nos a tremer e põe-nos de joelhos. E quando uma notícia deixa um país a tremer está tudo dito sobre qual é a resiliência sobre a economia portuguesa e do país. Temos que mudar, e mudar rapidamente.

Comentários
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  • Ivo Pestana
    05 jun, 2021 ram 15:14
    A nossa economia não pode estar dependente do Reino Unido. É redutor .
  • Cidadao
    05 jun, 2021 Lisboa 10:09
    Aqui está em poucos mas claras palavras, tudo o que é preciso dizer. Turismo sim. Mas diversificado e virado para mercados alternativos. Investir na diversificação da Economia apostando nos pontos fortes além do Turismo, e com valor acrescentado, não é com pouco ou nenhum valor acrescentado e a pagar salário mínimo ou nem isso.

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