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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

“Joker”: os equívocos sobre o mal e a doença mental

28 mai, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Não me entendam mal: quando faço uma crítica negativa ao “Joker”, como a que se segue, não estou a colocar em causa a interpretação de Joaquin Phoenix, que me parece lendária. O problema é mesmo a premissa do filme, que me parece errada e até perigosa: o mal não pode ser uma escolha livre e consciente; o mal só pode nascer ou de uma doença mental e/ou de um desgaste provocado pela pobreza. Lamento, mas esta concepção de natureza humana é perigosa.

O Joker é um símbolo de um mal misterioso e terrível, o que coloca um problema à cultura moderna e pós-moderna. Porquê? Porque a modernidade e a pós-modernidade estão em luta com a ideia de livre arbítrio, com a ideia de que o homem é livre para fazer as suas escolhas; estão sobretudo em luta com a ideia de que, no vasto leque dessas escolhas, está o mal. Milton, Shakespeare e Santo Agostinho, entre outros, deixaram-nos retratos precisos do mal enquanto escolha livre e consciente. Um homem não precisa ser doente mental ou pobre para fazer escolhas erradas e entrar no caminho da violência. Ora, “Joker” faz o inverso. A personagem de Phoenix, Arthur, tem uma doença mental. A partir daqui, a premissa já é um problema, porque cria uma ideia confortável (e errada): só uma doença mental não tratada pode gerar um homem tão violento como o Joker. Este é um erro grosseiro que procura salvar a maioria neurotípica da verdade: o mal violento pode ser escolhido por qualquer pessoa, neuro-típica ou neuro-atípica. Aliás, convém até esclarecer que, estatisticamente, as pessoas com doenças ou condições mentais não são os grandes agressores, são as grandes vítimas da violência. Fruto da grande ignorância sobre a doença mental, costuma ser logo a primeira causa apontada nos tiroteios americanos ou demais dramas, quando a realidade é oposta; as pessoas com doença mental tendem a sofrer muito mais nas mãos das pessoas “normais”.

Isto liga-se ao segundo problema, a ideia de que só a pobreza pode gerar o caldo de brutalidade que leva à criação de um serial killer. Leiam a este respeito o livro de Andrew Solomon chamado “Um crime da solidão” (Quetzal). Ele explica e desmonta o grande mito da violência americana. Diz-se muitas vezes que os miúdos que pegam em armas e matam dezenas de colegas nas escolas são uma de duas coisas ou as duas coisas em conjunto: têm problemas mentais ou são muito pobres e vêm de lares violentos. Não é assim. Boa parte destes garotos teve sempre um percurso neurotípico e, acima de tudo, vem de famílias de classe média normal, sem violência, sem pobreza e até sem acesso fácil e cultural às armas.

O mal é muito mais misterioso do que “Joker” dá a entender. Acima de tudo, o mal é uma escolha do nosso livre arbítrio – e que está nas mãos de todos nós.

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