Tempo
|

A pandemia e as suas lições - a visão da Igreja portuguesa

Bispo de Lamego. "As pessoas sentem-se abandonadas”

26 mai, 2021 - 07:00 • Henrique Cunha

Em entrevista à Renascença, D. António Couto considera que a pandemia acentuou o sentimento de abandono e aconselha os governantes a visitarem o território para melhor perceberem as reais necessidades da população.

A+ / A-

O bispo de Lamego diz que na sua diocese “as pessoas sentem-se abandonadas” e que “nunca foram tratadas com carinho pela política”. D. António Couto faz questão de esclarecer que “não fala da política autárquica”, mas “das grandes medidas que as autarquias não conseguem tomar e que devem ser da responsabilidade nacional".

"É aí que as pessoas se sentem abandonadas”, sublinha.

Em entrevista à Renascença, D. António Couto afirma que o poder central "decide de costas voltadas" para as populações do interior e defende como "fundamental" investir nas vias de comunicação, porque "no espaço da nossa diocese de Lamego, é tudo estradas de curva e contracurva, tudo com limite de velocidade de 50”.

"Tenho que dizer que aqui se viveu e ainda se vive hoje uma heroicidade acima da média"

O bispo de Lamego parte desta constatação para recordar que o Plano Rodoviário Nacional continua por cumprir. D. António Couto refere que “a A24 é a única via rápida que atravessa um bocadinho da diocese, pois o resto é tudo curvas e contracurvas que demoram imenso tempo para serem percorridas”

“Eu demoro duas horas para ir a Foz Côa, demoro duas horas para ir ao sul de Cinfães”, desabafa D. António, para quem “isto hoje já não devia ser possível”.

O bispo nota um certo conformismo às pessoas que “já estão habituadas, porque nunca foram tratadas com carinho pela política". Até iriam estranhar “se agora viesse alguém dizer 'nós vamos aqui tratar do vosso problema e vamos aqui abrir umas estradas'”.

A ausência de investimento em infraestruturas é também prejudicial para quem está disposto a investir na região. "Mesmo que alguém queira investir, e não faltam locais para o fazer, terá sempre uma imensa dificuldade para o escoamento dos produtos e isso, na verdade, cria imensos problemas”.

O bispo entende que “toda a forma de administração nacional deveria ser alterada, pois não é possível que uma parte substancial do território do nosso país - chamado de baixa densidade populacional, mas que é a fatia maior do território esteja como está”.

“Penso que no mundo de hoje não é possível manter-se essa situação, até porque é fácil de ver que se vão fechando as aldeiazinhas umas atrás das outras. Daqui a 10 ou 20 anos, se nada for, entretanto, feito, teremos aqui um matagal, teremos aqui os fogos que tomarão facilmente conta disto”, afirma o prelado.

D. António Couto lembra as “excelentes condições para o trabalho agrícola” e o facto de, por exemplo, se produzirem na região “três quartos da maçã do nosso país, para considerar impensável que “não se continue a ver estas realidades”.

“Aqui ainda não se passa fome”

Apesar de dizer que Lamego é "uma área abandonada”, o bispo enfatiza que existe na região “muito chão fértil e as pessoas trocam coisas umas com as outras, pelo que diria que aqui não se passa fome, ainda não se passa fome”.

"Foi muito bonito ver que as pessoas se entreajudavam de forma muito bela”

D. António Couto assinala o facto de as pessoas serem muito generosas. Conhece-se casos de dificuldade em “pagar a conta da luz, da água ou dos medicamentos” e “a Cáritas atende até 30 pessoas por mês” com esse tipo de necessidade, mas vai sendo possível “resolver as situações que vão sendo colocadas ao nível das valências caritativas e sociais".

"Isto não quer dizer que não possam vir a ser um problema no futuro”, adverte.

“É pecado grave” não apoiar instituições

Em Lamego, “quase todos os lares de idosos tiveram problemas graves ao longo desta pandemia” e D. António Couto lembra que houve situações em que “foi preciso recorrer a voluntários de fora" que constituíram uma "bela surpresa".

"Tivemos muitos jovens a aparecerem para substituírem os funcionários que trabalhavam nos lares e que ficaram infetados”, recorda.

“Foi muito bonito ver que as pessoas se entreajudavam de forma muito bela”, relata o bispo, ao mesmo tempo que deixa o alerta: “Mas essas instituições estão imensamente carecidas, lutam com imensas dificuldades diárias”.

O prelado diz que ai “estão autênticos heróis que praticamente dedicam 24 horas por dia a esta causa, para tratar as populações mais carenciadas e envelhecidas” e refere que, entre eles, se fazem também notar alguns padres que “também se dedicam 24 horas a esse tipo de trabalho”.

"É evidente que essas instituições têm de ser apoiadas desde fora, é pecado grave se não o fizerem, porque deixam esta gente a lutar com as suas forças, que não são muitas, contra uma série de moinhos de vento que não é possível resolver”, reforça.

Conselho aos políticos: "Passem por aqui”

D. António Couto aconselha os políticos a deslocarem-se a Lamego, "a passarem por aqui e a contactarem as pessoas”.

"Não é em Lisboa, não é nos gabinetes que se vão fazer as medidas de que as pessoas precisam”, argumenta. "Não custa nada fazer um papel e idealizar-se uma solução, mas isso é uma coisa fria”, enfatiza.

“Penso que é absolutamente determinante que os políticos nacionais passem por aqui e verifiquem com os seus olhos e sentimentos qual é o sentimento das pessoas e também os sentimentos da beleza desta terra. Se não sentirem isso, pensam que isto é uma folha de papel que facilmente se rasga e deixa para o caixote do lixo”, sublinha.

“Não se pode tratar as pessoas à distância e por decreto”, reforça.

"Se calhar vamos sair a coxear desta luta, mas vamos sair direitos e mais purificados”

Lição n.º 1: “As pessoas estão a entender melhor qual o rosto de Deus”

Lembra que neste tempo de pandemia "houve pessoas que questionaram Deus, que lutaram com Deus”.

O bispo de Lamego diz que ele próprio. "Numa das primeiras notas pastorais, a propósito desta pandemia, disse que nós tínhamos pouco espaço para rezar, mas tínhamos muito tempo. Isto é ganhei tempo e perdi espaço. Perdi espaço porque não podia ir ter com as pessoas, mas ganhei tempo.

"Trata-se, aqui, na minha oração, na nossa oração, de uma luta”, diz, explicando que “São Paulo, na 'Carta aos Romanos' diz precisamente isso: 'lutai comigo na oração'”.

"As pessoas entenderam que se trata de uma luta com Deus, o tal Deus que não é um princípio nem é uma ideia abstrata, mas é um Deus que tem paixão e tem compaixão."

D. António, que é especialista em assuntos bíblicos, trata-se de “uma luta com Deus, mais ou menos à maneira de Jacob, no capítulo 32 do livro dos Génesis, que lutou com Deus e ficou coxo”.

“Se calhar vamos sair a coxear desta luta, mas vamos sair direitos e mais purificados, com certeza. Jacob lutou, ficou coxo e percebeu que Deus não era um boneco”, reforça.

O bispo acredita que “as pessoas estão a entender melhor qual é o rosto de Deus, que é Deus com rosto com quem nós lidamos” e que “nesse aspeto, ganhamos bastante”.

Para D. António Couto, a luta tem-se feito de muitas maneiras: “Através dos meios telemáticos, através da escrita, através de todos os meios possíveis fomos chegando às pessoas e as pessoas também foram chegando a nós e, assim, nós não nos perdemos."

"Os dois grandes períodos de confinamento não irão ter reflexos ao nível da prática religiosa”

D. António destaca que, a este nível, “o grande trabalho dos nossos políticos locais foi importante. O grande trabalho dos nossos párocos que também estão no terreno foi determinante. O grande trabalho das associações que estão ligadas à Igreja e não só também foi determinante”.

“Eu tenho que dizer que aqui se viveu e ainda se vive hoje uma heroicidade acima da média e só tenho um bocadinho de pena de, há já algum tempo, não poder ir à cadeia visitar os nossos presos, como também lamento não poder entrar em muito lares, assim como nos hospitais”, mas “há situações que nos criam dificuldades e penso que já todos percebemos que tem de ser assim para já”.

Lição n.º 2: Que modelo de sociedade estamos a criar?

Sobre o futuro, o bispo apresenta-se algo pessimista e diz ter “algumas dúvidas”, sobretudo quando vê que “em termos de compromisso, o que aparece são compromissos de bolso".

"As pessoas, hoje em dia, não se comprometem”, precisa D. António, refeindo-se, por exemplo, “aos matrimónios e a toda a essa maneira que nós temos de lidar uns com outros”.

“Quando nós derretemos, por assim dizer, tudo aquilo que é a heteronomia, derretemos Deus, derretemos a providência, derretemos as tradições, que é aquilo que me liga à minha mãe, ao meu pai, aos meus avós, às gerações que me precedem. E, quando eu corto o cordão umbilical e começo do zero, não sei que mundo virá aí”, reforça.

O prelado afirma que “é preciso olhar para este mundo com proximidade com as pessoas, nomeadamente com as jovens gerações”, porque senão, a sociedade pode estar a criar “menos pessoas e mais objetos com três dimensões; isto é, uma pessoa é um objeto com três dimensões com cumprimento, largura e altura e não tem mais nada. Não tem sentimentos, não tem alma, não tem amor e deixamos-lhe, simplesmente, três dimensões: comprimento, largura e altura. Depois, dá para meter no caixão e meter no buraco no cemitério”.

"Estamos numa sociedade que, provavelmente, perderá 40 por cento da mão-de-obra, do trabalho habitual e, daqui a vinte anos, serão os robôs que vão fazer este trabalho, será a inteligência artificial a funcionar”, antevê.

"Além de todos esses robôs que virão, já estamos aqui a criar outros que são os seres humanos”, lamenta

“Nós nunca podemos perder o rosto, nem a fisionomia, nem a alma, nem a tradição, o amor, a paz a alegria, a esperança, os pés, as mãos, as entranhas, nós não podemos perder nunca isso”, proclama.

Para D. António Couto, “esta sociedade arrisca-se a tornar-se uma coisa absolutamente neutra e abstrata”, o que "é uma pena, é um empobrecimento muito grande".

"Se esta sociedade não se for capaz de se ver a si mesma ao espelho e não começar a construir-se de outra maneira, não quero arriscar prognósticos, mas tenho muitas dúvidas sobre se, efetivamente, o evoluir da situação não nos vá levar a produzir robôs”, sublinha.

O pessimismo do bispo de Lamego estende-se à Europa, porque D. António Couto não deposita particular esperança na denominada “bazuca europeia” e diz que “o PRR pode cair no saco roto do esquecimento”.

O bispo reconhece a importância de se “lançarem e ideias e de se programar”, mas adianta que a realidade nos confronta com “o esquecimento rápido dos planos traçados”.

D. António Couto diz que vivemos “um mundo de picos, em que, enquanto estamos entretidos com esse pico, dá a sensação de que estamos a fazer muita coisa”, mas, depois, “rapidamente esses picos caem”.

"O PRR pode cair no saco roto do esquecimento”

Para reforçar a sua ideia, o bispo dá o exemplo do combate à pobreza e “dos princípios traçados no ano 2000 para se acabar com a pobreza extrema em 20 anos”. “Alguém se lembra disso, alguém fez alguma coisa? Nada”, responde o prelado.

Seguindo esta linha de raciocínio, D. António afirma que "a luta contra a pobreza praticamente não deu um passo em frente e caiu num saco roto, o saco roto do esquecimento e, por isso, tenho também bastantes duvidas já sobre tudo isso que se vai programando a esses níveis do PRR ou outros níveis”.

Para o bispo seria muito importante “juntarmos desde já mãos e mentes para trabalharmos todos esses aspetos, porque, se não o fizermos, daqui a oito dias, as coisas já estão a desaparecer e daqui a um ano já não há nada”.

Lição n.º 3: “A humanidade é uma família”

Para o bispo de Lamego, "a grande lição" a tirar deste tempo de crise sanitária "é que a humanidade é uma família".

"Já não é uma diocese, já não é uma paroquia, já não é uma cidade, mas é a humanidade que é uma família”, reforça D. António Couto, sustentando que é preciso que todos “acalentem os melhores sentimentos como família e possam transmiti-los uns aos outros para que a nossa humanidade esteja quente e calorosa”.

É necessário que haja "princípios bons, em termos de cultura, em termos de tradições, em termos de alimentação, em termos de dignidade”, pois “pouco importa que nós aqui em Portugal lutemos contra pandemia se tivermos muitos outros países ou continentes completamente imersos na pandemia”.

"Todos temos que ter outro tipo de relacionamento e de paixão”, defende, porque "não posso tratar de mim e saber que na Índia há tanta gente a morrer daquela maneira, ão pode acontecer”.

"Somos uma família e temos de estar atentos uns aos outros, para que nunca um irmão que sofre passe ao meu lado e eu não o veja e, hoje em dia, 'ao meu lado' não é aqui, não é aqui a um metro de mim, é na India, é na América Latina, na África, na Ásia e em tantos outros lados."

Lição n.º 4: As marcas da pandemia

O bispo sublinha que só dessa forma seremos capazes de vencer algumas das marcas que a pandemia nos trouxe, como por exemplo “o distanciamento a que as pessoas foram obrigadas”.

“Penso que o distanciamento nos levou a pensar formas diferentes de viver. E penso que não fez aumentar a solidão, pois acredito que somos capazes de manter um relacionamento interessante, de grande amizade, mesmo quando não posso aproximar-me e isso vê-se na festa que fazemos, mesmo de máscara, quando temos oportunidade de estar perto de alguém."

D. António Couto acredita que “os dois grandes períodos de confinamento não irão ter reflexos ao nível da prática religiosa”. O bispo afirma que “isso já se vê nesta retoma, porque já há um fluxo mais consistente nas idas à Igreja”.

“Daquilo que eu ouço não se nota que as pessoas tenham voltado as costas. Neste espaço do nosso interior, talvez porque a nossa gente já é bastante idosa, as pessoas procuram ir à Igreja, não têm medo, estão lá”, remata.

"Vivemos um mundo de picos, em que, enquanto estamos entretidos com esse pico, dá a sensação de que estamos a fazer muita coisa"

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+