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Água Glaciar premiada "a melhor do mundo" desapareceu. O que se passou?

04 mai, 2021 - 07:55 • Liliana Carona

Arrecadou prémios da melhor empresa do setor e da melhor água do mundo, mas em 2019 fechou portas em Manteigas. A Glaciar Valley, detentora da marca de 'Água Glaciar', deixou 14 funcionários sem indemnizações e ainda à espera da reabertura...

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Ainda são visíveis nas páginas digitais da empresa as fotografias dos títulos e prémios da 'Água Glaciar': PME EXELENCIA 2001 e 2002, PME LIDER 2007, 2008, 2009, 2010, 2011.

Em 2010, a Glaciar ganhou a medalha de ouro no mais prestigiado e antigo concurso de qualidade alimentar do mundo, o Monde Selection, na Alemanha. E em 2011 sai medalhada na International Taste and Quality Institute, em Bruxelas, a sua mais elevada distinção, além de, no mesmo ano, ter conquistado a Grand Gold Medal no Monde Selection 2011, em Bruxelas. E em 2013, no ITQI - Internacional Taste and Quality Institute, em Bruxelas, distinção de uma das três melhores águas do mundo.

No vale glaciar de Manteigas, a 1.400 metros de altitude, a água oriunda de um fenómeno geológico, e, portanto, sem nitratos ou nitritos, era engarrafada no seu estado natural, exportada para mais de 20 países, até a empresa Glaciar Valley fechar portas em 2019, depois de mais de quase quatro décadas a laborar.

Hoje, as ervas daninhas apoderam-se do edifício, na Zona Industrial da Lapa, que em tempos acolhia duas linhas de enchimento, litro e meio, meio litro, 0,33, e 5 litros, e onde nos primórdios trabalhavam 60 colaboradores, 24 horas, sete dias por semana.

Albino Monteiro, 65 anos, foi ali diretor de produção durante 20 anos, até ao dia 11 de setembro de 2019, na empresa que engarrafava a melhor água do mundo. Ainda acredita na reabertura.

“Os 14 trabalhadores, incluindo eu, ficaram sem receber ordenado, subsídio de Natal, há colegas a quem ficaram a dever 15 a 50 mil euros e eu, no meu caso, são 53 mil euros, fomos despedidos sem justa causa, não tivemos os 60 dias de pré-aviso”, revela, adiantando que recorreram ao Tribunal do Trabalho.

No entanto, Albino queria era que a empresa reabrisse. “Isto tem capacidade para andar, está pronta para reabrir, seriam apenas necessários dois a três meses para manutenção da maquinaria”, garante.

Mas porque fechou portas “a melhor do mundo”?

Recentemente, foi anunciado um leilão eletrónico para a venda da massa insolvente da Glaciar, a decorrer até ao dia 22 de abril passado, para venda das instalações e dos bens da Glaciar Valley, sedeada em Manteigas, na Zona Industrial da Lapa, por um conjunto pelo valor global de 1.076.370,00 euros, mas o mesmo não chegou acontecer.

Apesar de a Renascença não ter conseguido falar com o ex-CEO da empresa, Albino Monteiro, ex-diretor de produção, procura clarificar o motivo para a não concretização do leilão.

“O problema é que agora temos dois gestores industriais, um da Glaciar Indústria e outro da Glaciar Valley, a última empresa proprietária. Era para ir a leilão este mês, mas não se entendem quanto à propriedade. Não compreendo que os gestores judiciais não cheguem a acordo, para vender isto o mais rapidamente possível e acautelar os postos de trabalho e sabe como é a justiça em Portugal. O tribunal tem de decidir a quem é que pertence a empresa”, esclarece.

Antes do desentendimento quanto à propriedade das instalações e bens, houve ainda outro imbróglio que Albino considera ter sido “desnecessário”.

“Houve falta de vontade política. A Câmara interpôs uma ação em tribunal a respeito da propriedade da fonte Paulo Luís Martins (fonte de captação da 'Água Glaciar'), depois os Baldios de São Pedro foram a tribunal dizer que a água pertencia aos Baldios, e ficou declarado em tribunal que a água pertencia à Câmara de Manteigas”, explica Albino.

“Entretanto, a Câmara teve autorização para fechar as condutas que abasteciam a empresa e o Pingo Doce apercebendo-se dessa situação, enviou-nos uma carta no dia 26 de junho de 2019, a dizer que cessavam o contrato connosco, porque não podíamos explorar água que não era nossa, e nós tivemos que fechar”, lamenta.

Contactada pela Renascença e sem querer prestar declarações gravadas, fonte da autarquia de Manteigas garante que estará por dias o anúncio no Diário da República, do concurso público para concessão de exploração para engarrafamento da água da fonte Paulo Luís Martins, onde se enchiam as garrafas da melhor do mundo.

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