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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Padrinho

30 abr, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Um cristão deve estar preparado para lutar contra o seu próprio país e contra a sua própria família, correndo o risco de ser considerado apátrida e traidor do seu próprio sangue.

Durante as insónias do confinamento revi dezenas de filmes que não via há anos. Foi bom reconfirmar um velho adágio: um grande filme renasce a cada visionamento; há sempre camadas por descobrir. Por exemplo, revi pela sétima ou oitava, ou terá sido a décima oitava?, a saga “Padrinho” e reparei num pormenor que me tinha escapado até agora: o confronto entre o universal e o relativo.

Sonny Corleone, o irmão mais velho, lidera a crítica que a família lança à primeira decisão de Michael Corleone: alistar-se nos marines após Pearl Harbour (é a primeira decisão mas só surge no final do Padrinho II). Sonny perde as estribeiras perante a decisão do irmão, porque não compreende a ideia de pátria, só compreende a ideia de família. Conceber uma pátria implica um grau de universalidade acima da nossa biologia, da nossa tribo. Implica conceber um sistema de valores que não é decidido pelo nosso sangue, mas sim por uma ética universal; implica sair da prisão da imanência. Michael concebe essa universalidade e comunhão com desconhecidos, concebe a América como pátria e não apenas como refúgio que dá jeito à família. É por isso tão trágico vermos, no final, Michael Corleone no papel de godfather familiar e mafioso.

No Padrinho III, o confronto entre o universal e o relativo reaparece na voz de Connie, a irmã mais nova de Michael. Quando Michael revela que se confessou com um padre ou cardeal completamente desconhecido da família, seguindo um mandamento universal e até impessoal, Connie diz-lhe que isso não faz sentido, pois a família tem padres e bispos amigos que podem recolher a confissão de Michael. De novo, um membro da família é incapaz de conceber o universal; neste caso, nem sequer concebe a Igreja e o conceito de “católico”, que, recorde-se, quer dizer universal.

Ao longo do Evangelho, Jesus é claro na guerrilha que lança ao relativo em nome do universal. Seguindo a herança bíblica, alerta para os perigos dos tribalismos e, sobretudo, Jesus diz-nos que um cristão deve saber que haverá alturas em que terá de criticar e até negar a sua própria família se quiser permanecer fiel à verdade. Ou seja, um cristão deve estar preparado para lutar contra o seu próprio país e contra a sua própria família, correndo o risco de ser considerado apátrida e traidor do seu próprio sangue.

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