Tempo
|
José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
A+ / A-

Napoleão: populismo e providencialismo

28 abr, 2021 • Opinião de José Miguel Sardica


Napoleão foi um dos primeiros grandes populistas da nossa era. Era do povo, vinha do povo e, lá nos píncaros, sempre cultivou o seu especial talento para arrastar os povos consigo.

A 5 de maio de 1821 – fará na próxima semana 200 anos exatos – desapareceu do mundo dos vivos uma das figuras mais singulares da história da humanidade: Napoleão Bonaparte. A sua vida e a sua obra são a delícia de todos os biógrafos e qualquer biografia dele arrisca ser uma empresa para uma vida inteira e, se bem feita, um best-seller entre franceses e em todo o mundo.

Italiano pelo sangue, francês por pouco (a sua Córsega natal foi incorporada no Estado bourbónico em 1768, apenas um ano antes de ele nascer), Napoleão seguiu a carreira militar e talvez nunca tivesse passado de um soldadinho corso, de sotaque estranho, aspeto pobre, cabelo desalinhado e impetuosidade pouco recomendável, se a sua vida tivesse decorrido no Antigo Regime. A Revolução Francesa, contudo, criou um mundo novo, de “carrières ouvertes aux talents” (como ele se gabaria). Mergulhada num vórtice de instabilidade e radicalismo na sua busca platónica pela melhor liberdade e pela maior igualdade, a França viu sucederem-se regimes e líderes efémeros e engrossar o cerco dos seus inimigos. Num país exangue depois do terror jacobino, o Diretório (1795-1799) precisou do génio militar de Bonaparte para escorar as conquistas da revolução e a sua primeira geografia internacionalizada na Península Italiana, na Suíça, nos Países Baixos ou no Egipto. Gabado como o novo César ou o novo Alexandre, Napoleão alçou-se facilmente ao poder, com o golpe político do “18 de Brumário” (9 de novembro de 1799). A França estava cansada de uma década de agitação; a França precisava do seu salvador, do seu Messias, do seu condutor – precisava de paz e de estabilidade. O vácuo gerou aquele que o preencheria.

Em menos de uma década, o soldadinho corso chegou a 1.º cônsul (1800), de seguida cônsul vitalício (1802), finalmente imperador (1804). E depois, durante mais onze anos, até Waterloo (1815), por detrás do imperador Napoleão, o grande organizador, o grande legislador, o grande “amalgamador”, palpitou sempre o génio do general Bonaparte e do seu grande sonho de uma Europa de povos libertados dos seus Antigos Regimes e construtores de um futuro francocêntrico à escola continental. A sua megalomania terá sido a sua perdição. Mas quando, em 1815, rendido aos ingleses, foi desterrado para a longínqua ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde viveu os últimos anos da sua rocambolesca vida, a aventura napoleónica tinha transformado irreversivelmente a Europa.

Napoleão foi um dos primeiros grandes populistas da nossa era. Era do povo, vinha do povo e, lá nos píncaros, sempre cultivou o seu especial talento para arrastar os povos consigo. E na orfandade súbita dos que tinham perdido velhas referências ou, embriagados, procuravam novas, aquele francês, que fez a Europa tremer perante a grande França e a sua “Grande Armée”, tornou-se a encarnação do providencialismo político contemporâneo. A sua aura, bem como uma secreta admiração ou inconfessada nostalgia de um tempo “grande”, ficaram. Depois dele, todos os condutores da França contemporânea quiseram ver-se no espelho do “bonapartismo” – de Napoleão III (seu sobrinho) a Macron, passando por Thiers, Maurras, Poincaré, Clemenceau, Pétain, De Gaulle, Giscard d’Estaing, Mitterrand, Chirac, etc.

O presidente da França não é só um presidente, porque a França, para o bom francês, não é só o seu país, mas uma utopia de grandeza política, histórica, no limite civilizacional. No fim das contas, foi de Napoleão que veio, e em Napoleão sempre se alimentará, aquilo que Charles de Gaulle um dia cunhou como “une certaine idée de la France”. Existirá ela ainda?

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.