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João Ferreira do Amaral
Opinião de João Ferreira do Amaral
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​A propósito das vacinas e da União Europeia

12 fev, 2021 • Opinião de João Ferreira do Amaral


Quanto mais tempos adiarmos a vacinação de uma parte maioritária da população, tanto mais difícil se tornará uma recuperação económica plena.

O problema do atraso de fornecimento aos países da União Europeia das vacinas contra a Covid-19 é em primeiro lugar, obviamente um problema sanitário: mais pessoas irão adoecer por não terem sido vacinadas a tempo. Mas é também um problema económico (e portanto, em última análise, social) porque quanto mais tempos adiarmos a vacinação de uma parte maioritária da população, tanto mais difícil se tornará uma recuperação económica plena.

Não há dúvida, como aqui já defendi, que a atribuição da responsabilidade pelo fornecimento à Comissão Europeia fez todo o sentido e é até um bom exemplo do tipo de decisões que há vantagem para os Estados-membros em atribuírem às instituições europeias.

Mas a verdade é que essas instituições europeias não têm sabido até hoje dar conta do recado, com consequências que são já irreversíveis. Por um lado, como a própria Presidente da Comissão reconheceu, demorou-se demasiado tempo em autorizar a aplicação das vacinas num contexto – junto eu – em que um atraso de uma semana ou quinze dias parece uma eternidade. Por outro lado, com o afã próprio da propaganda das instituições da União Europeia – em que são exímias - criaram-se expectativas de fornecimentos que rapidamente se verificaram não serem realistas e que a Comissão, mais preocupada com a propaganda, não se esforçou em tempo útil para as tornar mais realistas.

Esperemos que as lições sejam aprendidas pela Comissão. Mas há uma que à partida não foi - e isso é preocupante. A Presidente da Comissão ao reconhecer que tinha falhado fez o que é costume por parte da Comissão: exigir mais poderes, agora na área da saúde.

Espero que os Estados respondam com um rotundo “não!”. Esta ideia que, quando as instituições comunitárias não funcionam bem o que é preciso é reforçar os seus poderes, embora absurda, tem feito o seu caminho com péssimos resultados e está na origem da decadência do projecto europeu. Cabe agora aos estados demonstrarem que eles, sim, já aprenderam a lição.

Comentários
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  • Cidadao
    14 fev, 2021 Lisboa 12:51
    Alguns erros da UE neste caso das vacinas: contratos da treta baseados na premissa de "fazerem o melhor possível" mas sem definir clausulas de proteção caso as quantidades acordadas não fossem cumpridas; demora inexplicável na aprovação das vacinas quando outros Países já as tinham aprovado e usado sem problemas; milhares de milhões de euros em dinheiros públicos entregues às farmacêuticas para subsidiar investigação e elaboração de vacinas, sem acautelar a co-propriedade das patentes, e depois, uma grande falta de coragem política em, face à ultrapassagem por outros Países que graças a isso, terão a população vacinada mais cedo e mais cedo sairão da crise, uma falta de coragem em quebrar as patentes (e até há legislação que justifique isso em caso de emergência sanitária como a que vivemos) e começar a produzir as vacinas em larga escala por todos os laboratórios europeus com capacidade para isso. E há muitos!
  • Jose Carlos Fonseca
    12 fev, 2021 Maia 12:55
    O barato sai caro. Na ânsia de poupar dinheiro a UE vai ter as vacinas mais tarde. Mais tarde, implica recuperação económica mais lenta. Mais lentidão implica os estados abrirem os cordões à bolsa para subsidios. Vamos comparar as recuperações dos RU e EUA e comparar com UE.
  • António Carlos Lopes
    12 fev, 2021 Lisboa 11:22
    Oxalá as instituições europeias sejam reforçadas, só assim é que conseguimos andar para a frente. Sozinhos não fazemos nada, estagnamos e os populistas agradecem.