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A história do português que arrisca prisão perpétua no Luxemburgo. Ana foi assassinada e queimada

11 jan, 2021 - 17:00 • João Carlos Malta

É esta terça-feira, quatro anos depois do crime macabro que tirou a vida a uma portuguesa de 25 anos, que se fica a saber se o ex-companheiro é considerado culpado. Marco sempre jurou inocência. A família da vítima pede justiça. O caso chocou a vasta comunidade portuguesa no Luxemburgo.

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Tudo começou com uma história de amor, que durou dois anos, da qual resultou um bebé. No entanto, a relação foi sempre tudo menos pacífica. As discussões eram recorrentes, e os relatos de ameaças de Marco a Ana são anteriores ao desfecho fatal que havia de decorrer em 2017. A relação do casal terminou um ano antes, mas as desavenças motivadas pelo guarda do filho fizeram com que a turbulência entre os dois permanecesse.

A 15 de Janeiro de 2017, Ana Catarina Lopes foi dada como desaparecida. O alerta foi dado pela mãe.

Na noite anterior, Ana tinha enviado uma SMS à mãe a avisar que, antes de ir para casa, iria comer algo a um restaurante ‘fast-food’, na capital do Luxemburgo. Foi o seu último sinal de vida, a partir daí não voltou a estar contactável. Tinha 25 anos.

Soube-se mais tarde que terá sido esfaqueada, e transportada de carro cerca de 30 quilómetros até uma zona de terra batida e arvoredo, junto à fronteira, em Roussy-le-Village, França. Aí o carro foi queimado e o corpo da vítima carbonizado. Só viria a ser encontrada dois dias depois, pela polícia local.

Só os testes de ADN confirmaram ser o corpo de Ana.

Após o seu desaparecimento, um saco de ‘fast-food’ e vestígios de sangue foram encontrados perto da casa da família, em Bonnevoie, localidade do sul do ducado, o que leva a que as autoridades acreditem que a jovem terá sido ferida naquele lugar. As suspeitas são de que terá sido esfaqueada nas costas.

Tendo em conta a relação pautada por ameaças e agressões, a Polícia desde cedo centrou a investigação em Marco Silva, um homem de 32 anos, natural de Seia, tal como a vítima.

A família de Ana comunicou isso mesmo às autoridades e suspeitou desde o início do ex-companheiro, que já a teria ameaçado várias vezes. A vítima durante a relação, garante a TVI, já tinha apresentado várias queixas contra o ex-companheiro.

Sempre jurou inocência

Marco, que trabalhava na oficina do pai, foi interrogado várias vezes pela polícia, mas negou sempre o envolvimento. A brigada de homicídios luxemburguesa deteve-o seis meses mais tarde, no mês de junho de 2017.

O julgamento começou há quase um ano, em março de 2020. O Ministério Público (MP) não tem dúvidas de quem foi o autor do crime. Acusam Marco de matar Ana e incendiar o carro, e por isso querem que ele passe o resto da vida atrás das grades.

Segundo o jornal de língua portuguesa do Luxemburgo "Contacto" − face às provas demonstradas pelos peritos, que analisaram o que restou do carro, que o alegado assassino incendiou a viatura com a vítima no interior e às incongruências que saltaram à vista nos depoimentos das testemunhas − o MP pediu prisão perpétua por considerar que o homicídio da jovem de 25 anos foi "deliberadamente planeado".

Um dos momentos mais marcantes do julgamento, que foi suspenso devido às regras sanitárias relacionadas com Covid-19, foi quando o procurador do caso alegou que Marco Silva matou a ex-companheira três vezes. A primeira quando lhe tirou efetivamente a vida, a segunda quando deitou fogo ao carro e a terceira quando tentou denegrir a imagem de Ana Catarina. "Ele simplesmente não quer deixar-lhe nada", concluiu.

De facto, para se defender das acusações, Marco, depois de rotular a companheira como uma “rapariga cinco estrelas” pela qual se apaixonou, acusou-a de consumir drogas e de estar envolvida no tráfico de estupefacientes. Por isso, o homicídio, segundo ele, resultaria desses negócios.

O jornal "Contato" revela ainda que Marco acusou inclusivamente as amigas de Ana Catarina de "andarem na mesma vida", apesar da maioria das testemunhas chamadas ao tribunal terem afirmado que a jovem tinha deixado de usar drogas quando soube da gravidez, cerca de dois anos antes do crime.

Mas o acusado e a sua família, que sempre o defendeu, continuaram a sustentar a mesma tese. Garantem que Ana teria um esconderijo para guardar os estupefacientes perto da fronteira franco-luxemburguesa e que o verdadeiro autor do crime só poderá ser alguém relacionado com essa atividade.

O acusado garantiu que a vítima lhe terá confessado que estaria a viver dias complicados e temeria pela sua vida. Nem o juiz nem o Ministério Público deram qualquer credibilidade a esta versão.

A tese da defesa

Mas o caso não é assim tão linear e de fácil resolução. A defesa pensa que não há provas suficientemente fortes para ligar Marco ao crime. Apesar das certezas dos acusadores, e recorrendo ao mesmo jornal de língua portuguesa, é descrito que não há vestígios evidentes de ADN do principal suspeito no local do crime.

Assim, além do sangue da vítima, os investigadores encontraram poucos elementos. Um saco de fast-food e várias braçadeiras de plástico foram os únicos objetos recolhidos do interior do veículo, um BMW preto.

O único ADN identificado não pertence a Marco Silva, mas sim ao de um conhecido de Ana Catarina com quem teria estado na noite anterior.

O jornal "Contato" noticiou que, segundo um dos peritos que foi arrolado como testemunha no processo, os vestígios encontrados podem ser explicados por uma transferência indireta - através da mão da vítima - já que ambos teriam estado juntos um quarto de hora antes de Ana Lopes ter sido agredida.

E se é verdade que as autoridades detetaram o ADN de um terceiro elemento, nunca conseguiram demonstrar que Marco Silva esteve no local do crime, à hora estimada do homicídio.

As provas incriminatórias dos investigadores, são fitas adesivas e braçadeiras de plástico semelhantes às que estavam no carro da vítima encontradas numa oficina de um familiar de Marco.

Ana foi descoberta no próprio carro, e subsistem dúvidas de como é que Marco teria regressado a casa depois de alegadamente ter cometido o crime.

O jovem de 32 anos nunca se deu como culpado. Aliás, antes de detenção, numa entrevista, ao jornal “Bom Dia”, um outro periódico em língua portuguesa publicado no Luxemburgo, Marco Silva contou pormenores da sua relação com a vítima de 25 anos, que acabou em conflito.

"Ela era capaz de tudo. Noitadas, mexia com muita coisa, com drogas. E quem está nesse meio não lhe acontece coisas boas", disse.

"Separámo-nos em novembro, ela sempre preferiu os amigos. Eu fiz tudo por ela. Foi o amor. Agora só espero que encontrem os culpados para termos paz", defendeu-se.

Nessa entrevista, Marco jurou inocência. “Não tenho nada a ver com o que aconteceu com a Ana. Nada. Zero. As pessoas que me conhecem sabem que sou incapaz de uma coisa dessas. Isso ultrapassa a minha pessoa”.

Ao mesmo jornal, descreveu a relação conturbada com Ana e a forma como a guarda do filho menor, hoje com cinco anos, fez com que a tensão entre o casal aumentasse. Marco acusa a ex-companheira de o ter afastado do filho.

Várias versões

Após ser detido e já em tribunal, os media locais dizem que Marco foi apresentando várias versões do crime às autoridades.

Dois dias depois das autoridades francesas terem encontrado os restos mortais de Ana, ele alegou que tinha viajado para a Alemanha. Agora, garante que estaria ocupado a passear um dos três cães da família.

De acordo com o seu último depoimento, na noite de 15 para 16 de janeiro de 2017, quando Ana Catarina foi raptada por volta da 1h00 em Bonnevoie, Marco só se ausentou de casa por duas vezes.

Para provar a sua versão dos factos, assegura nessa noite, foi captado pelas câmaras de segurança do café onde a ex-companheira também foi vista.

"Na câmara CCTV, fui visto a passar pelo Pepper's Cafe às 22h48, depois vi um filme de 123 minutos com a minha irmã, ao mesmo tempo que a minha mãe ligava. À 1:17 da manhã, a minha mãe telefonou-me, provavelmente só para apagar a televisão. Mas de qualquer forma, não tinha o telefone comigo", garantiu ao tribunal.

Os dados de geolocalização apontam para que o telemóvel do arguido estava a 300 metros da sua casa, esquecido no carro que ali ficou durante toda a noite.

O juiz levantou dúvidas de como é que, saindo duas vezes de casa, o arguido nunca se lembrou de ir buscar o telefone.

Outros crimes

O crime, pela sua brutalidade, deixou a comunidade portuguesa no Luxemburgo em estado de choque.

Marco que está detido há mais de três anos, no Centro Penitenciário de Schrassig, Luxemburgo, é acusado num processo anterior à morte de Ana por agressões e injúrias à Polícia.

É acusado de “ter passado com o carro por cima do pé de um polícia e de ter ferido um segundo agente ao abrir a porta do carro, de forma violenta”. O português, que está em prisão preventiva desde junho de 2017, responde também por injúrias à polícia, acusação que também é feita ao pai e ao irmão.

Entretanto, a namorada que se seguir a Ana revelou que Marco Silva a ameaça com mensagens. Numa das SMS a que o jornal Contato teve acesso, o acusado terá escrito à namorada. “Tu quando segues a tua cabeça só sai merda, a merda toda que aconteceu por não me ouvires. Tu és uma psicopata. Tu é que merecias o que aconteceu à Ana. Tu não percebes o que fizeste. Tu não percebes o que me fizeste. Fazeres-me isto agora, onde estou”.

O português, de 32 anos, conhece esta terça-feira a sentença que o pode condenar a prisão perpétua.

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  • Anónimo
    11 jan, 2021 Lisboa 19:33
    Eu sou contra a prisão perpétua mas com escumalha desta abria uma excepção...
  • GRAÇA PEREIRA
    11 jan, 2021 PEDRAS PRETAS 17:25
    SE REALMENTE A JUSTIÇA FUNCIONA EM LUXEMBURGO, O QUE ME PARECE QUE SIM, A PRISÃO PERPÉTUA AO ASSASSINO É A VERDADEIRA. O DITO MARIDO COM UMA FOTO MUITO DUVIDOSA, DESPROVIDA DE QUALQUER CONFIANÇA OU SEGURANÇA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! EU NÃO QUERIA ESTAR NO LUGAR DESTA SENHORA NEM 1 HORA!!!!!!!!!!!!!!!! FAÇA-SE JUSTIÇA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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