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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Trabalhar em casa

04 jan, 2021 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Não é uma novidade o trabalho profissional em casa, que aumentou muito com a Covid-19. Provavelmente, manter-se-á, em boa parte, depois da pandemia. Mas as novas tecnologias, se facilitam o trabalho no domicílio, não garantem a autonomia nem a privacidade dos que trabalham em casa. Há que estar atento.

A pandemia pôs muita gente a trabalhar em casa. Ultrapassada a pandemia, nem todos voltarão a trabalhar a maior parte do tempo na empresa. Apesar de numerosos trabalhadores portugueses não terem condições domésticas para trabalharem à distância – falta de espaço em casa, presença ao longo do dia de crianças pequenas, etc.

O teletrabalho agrada a uns, pela autonomia que lhes proporciona, e desagrada a outros, para quem a socialização no emprego é importante. Do ponto de vista empresarial e naqueles setores onde o teletrabalho é possível (na construção civil, por exemplo, não é), terão de ser pesadas as vantagens (poupança de espaço, nomeadamente) e os inconvenientes (o trabalho à distância não promove o espírito e a cultura da empresa).

O ideal seria que o teletrabalho fosse voluntário, mas nem sempre isso será possível. E o teletrabalhador deverá estar protegido pela lei em matéria de horário, respeito do gestor pela sua privacidade e pelo seu descanso, não devendo poder ser contactado a qualquer hora, e por aí fora.

O teletrabalho será o futuro? Provavelmente fará maior parte desse futuro do que antes do Covid-19. Mas é interessante lembrar que o trabalho em casa, sobretudo de mulheres, marcou as primeiras décadas da revolução industrial. Num recente artigo do semanário “The Economist” esse facto é invocado, fornecendo alguns números.

A emergência do capitalismo industrial em Inglaterra, até meados do séc. XIX, não aconteceu em fábricas, mas no trabalho a domicílio e pago à peça. Por vezes era entregue em casa das mulheres trabalhadoras matéria-prima (tecidos, fios para tecer, etc.) e um ou outro utensílio, que depois tinham que devolver. Era um regime de muita incerteza para as trabalhadoras domésticas, frequentemente exploradas.

No início do séc. XX calcula-se que cerca de um terço dos operários industriais em França ainda trabalhava em casa. E nos EUA só em 1914 a maioria dos trabalhadores estava em fábricas ou escritórios.

No Reino Unido, quando a tecnologia evoluiu e apareceram grandes máquinas, com o vapor como fonte de energia, multiplicaram-se as fábricas, juntando centenas de operários – homens, mulheres e crianças. Significativa parte desta mão-de-obra barata era empurrada do mundo rural por ter perdido acesso a terras de cultivo que os seus proprietários fechavam ao exterior. Só que nas fábricas a exploração dos trabalhadores não diminuiu, aumentou; ali, além de condições de trabalho desumanas, os operários já não tinham a solidariedade própria das comunidades rurais.

Mas os sindicatos foram ganhando força contra a repressão (começaram por ser proibidos), sendo que o grande número de trabalhadores na maioria das fábricas permitia um recrutamento sindical relativamente fácil. As greves sucederam-se. Assim, ainda antes do aparecimento do Estado social na Europa, após o fim da segunda guerra mundial, os direitos dos trabalhadores nas fábricas começaram a ser menos desrespeitados na passagem para o séc. XX.

Os proprietários e gestores de fábricas encontravam nelas e no seu regime de disciplina quase militar uma fonte de produtividade. Para os operários houve melhorias salariais, mas em grande parte à custa de um trabalho manual e repetitivo, sobretudo depois de Ford ter introduzido cadeias de montagem na produção de automóveis, há pouco mais de um século. Como os operários faziam apenas um número limitado de movimentos, na linha de montagem podiam trabalhar emigrantes que não falassem inglês e até analfabetos. Os trabalhadores tornavam-se quase autómatos. Foi o que Charles Chaplin mostrou num célebre filme de 1935, “Tempos modernos”.

Mais recentemente, e em parte por influência japonesa, registou-se uma certa tendência nas empresas industriais para menos uniformidade na gestão e maior autonomia e intervenção de pequenos grupos de trabalhadores. Por outro lado, a pandemia tendeu a diminuir alguns longos circuitos internacionais de produção, pelos riscos que esses circuitos comportam para o regular abastecimento dos consumidores.

As novas tecnologias facilitam o trabalho em casa, numa economia cada vez mais assente nos serviços. Mas também podem ter efeitos nocivos, levando empresas a invadirem a privacidade e a prejudicarem o descanso dos seus trabalhadores à distância. Há que estar atento.

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