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Crónica de Daniel Cardoso

Entre Viagens

27 nov, 2020 - 13:10

O diretor artístico do Quorum Ballet, Daniel Cardoso, escreve sobre como foi ficar doente com Covid-19 na Croácia, do apoio médico a partir de Portugal e de trabalhar no setor cultural em tempo de pandemia.

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Desde o dia 12 de março que o meu objetivo tem sido continuar a trabalhar e continuar a dar trabalho. Acabei por nunca conseguir olhar para este vírus como um obstáculo, mas sim como uma forma de estímulo à capacidade de trabalho e criatividade, no estúdio, no palco e fora dele.

Sempre segui à risca todas as medidas de segurança, em especial por trabalhar numa área de muito risco: a dança.

No meio de toda esta “loucura” e de todas as limitações, consegui continuar a trabalhar e estava a ter um dos anos mais produtivos dos últimos tempos. Talvez por funcionar bem em situações adversas e sob stress, consegui continuar a criar condições de trabalho nesta altura tão frágil para a área da cultura.

Todos nós nos questionamos sobre o que é isto da Covid-19, ouvimos falar em conspirações, questionamos as medidas adotadas, acima de tudo acreditamos que só acontece aos outros, aos mais velhos e pouco saudáveis.

Muitas viagens e muitos testes depois, recebi a notícia de que estava positivo e que teria de ficar isolado na Croácia. Saudável, relativamente jovem, que continua a sofrer de otimismo crónico, pensava que esta Covid passasse por mim como a maioria descreve - uma gripezinha!

Aconteceu o oposto, foram talvez os dias mais difíceis e desafiantes que alguma vez tive de enfrentar.

Apesar dos sintomas que tive não terem sido moderados, nunca fui contactado pelas entidades de saúde locais. Tive sim apoio da minha médica em Portugal. As sensações de impotência, fragilidade e solidão, foram importantes lições de vida. No espaço de dias tudo fica em perspetiva, as prioridades mudam e saímos do outro lado mais humanos e humildes.

Enquanto, por um lado, nos colocam limites de horários para circular, para trabalhar, limitações para estar com os que mais amamos, por outro, podemos viajar de avião livremente pela maioria dos países europeus sem qualquer tipo de controlo. Viagens estas que, pela falta de voos disponíveis, chegam a ter mais de 12 horas e três escalas, viagens estas onde nos cruzamos com centenas de pessoas. À chegada a Portugal, tudo se processa como se de um dia normal se tratasse.

Criámos expetativas em relação aos líderes mundiais, em relação a quem trabalha na área da saúde e a quem tem poder para decidir que caminho seguir. A realidade é que nem eles sabem, tudo isto é novo e, no fundo, temos simples humanos a tomar as decisões e não génios.

Por outro lado, tudo isto é muito pouco coerente, seletivo e hipócrita. Cabe-nos a nós, como cidadãos, ter cuidado redobrado e acima de tudo respeitar quem nos rodeia. Só assim iremos conseguir que a Covid acabe por sair das nossas vidas.

O meu forte é mesmo o corpo e o movimento, mas tendo em conta a atualidade pareceu-me pertinente deixar aqui estas palavras.


Daniel Cardoso é coreógrafo residente e diretor artístico do Quorum Ballet

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