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Sem-abrigo estão a ser esquecidos nesta 2.ª vaga de Covid-19

27 nov, 2020 - 08:35 • Vasco Gandra, correspondente em Bruxelas

Situação tornou-se prioridade urgente e nas políticas de recuperação pós-pandemia é necessário que os 27 encontrem soluções, pede a Federação Europeia de ONGs de apoio às pessoas sem-abrigo.

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As estimativas apontam para a existência de, pelo menos, 700 mil pessoas sem-abrigo na Europa. Mas com a crise económica e social provocada pela Covid-19 o número poderá aumentar. E a situação torna-se mais preocupante com a Europa mergulhada na segunda vaga da pandemia e a chegada do inverno.

As pessoas que vivem na rua ou em centros de acolhimento temporário constituem um dos grupos mais vulneráveis à transmissão do vírus, adverte a FEANTSA, a Federação Europeia de ONGs de apoio aos sem-abrigo, com sede em Bruxelas.

Desde logo porque não podem seguir uma das principais recomendações emitidas pelas autoridades durante os confinamentos e que consiste em "ficar em casa". Na rua as condições sanitárias são muito precárias e em centros de abrigo é por vezes difícil manter a distância social e cumprir regras anti-Covid. As proibições de acesso a muitos espaços públicos durante os confinamentos tornam ainda mais complicada a situação destas pessoas.

Por outro lado, ainda antes da pandemia muitos sem-abrigo já sofriam de diversos problemas de saúde o que aumenta a sua exposição ao risco do vírus. A estas dificuldades junta-se o facto de terem mais dificuldades do que a restante população em aceder aos serviços de saúde bem como a informação sobre a doença.

A FEANTSA alerta para outro grave problema. Com a crise económica e social provocada pela pandemia, muitas pessoas podem ter dificuldades em pagar a renda da casa, tornando-as mais vulneráveis, diz à Renascença Ruth Owen, diretora adjunta daquela organização.

"As consequências económicas da pandemia trouxeram um novo fluxo de pessoas sem-abrigo, um acumular de rendas atrasadas com uma potencial crise de despejos no horizonte", afirma Ruth Owen.

"É necessário investir em soluções duradouras"

A FEANTSA afirma que durante o primeiro confinamento houve até boas iniciativas por parte das autoridades, um pouco por toda a Europa.

Por exemplo, o município de Praga alojou 300 pessoas em hotéis e pensões, garantindo-lhes abrigo até março de 2021 e apoios sociais. A cidade de Dublin deu abrigo a todas as pessoas que dormiam na rua. O Parlamento Europeu ofereceu um dos seus edifícios vazios em Bruxelas para dar acolhimento e refeições a dezenas de pessoas necessitadas. A França reforçou o orçamento para o setor em mais de 50 milhões de euros.

O problema, alerta a federação que congrega as organizações do setor, é que muitas das medidas de acolhimento e de apoio temporário implementadas durante a primeira vaga não foram prolongadas ou adequadamente substituídas.

Há algumas promessas no bom sentido, admite a FEANTSA. A cidade francesa de Lyon garantiu que vai mobilizar 500 unidades habitacionais para ajudar a retirar da rua pessoas sem casa. As autoridades holandesas têm um plano de investimento de 200 milhões de euros em novas habitações em condições acessíveis para estas pessoas.

Mas Ruth Owen pede uma mudança de paradigma. Com os apoios massivos que vão chegar aos Estados-membros no âmbito do plano de recuperação económica da UE é necessário investir a sério em soluções duradouras e resolver o problema de habitação dos milhares de pessoas que vivem sem casa.

"A recuperação será uma enorme oportunidade para investir em soluções para as pessoas sem-abrigo, como facultar-lhes um alojamento, uma habitação acessível. Trata-se de passar da gestão de um sistema de acolhimento para soluções sustentáveis", afirma a diretora adjunta da FEANTSA.

Ruth Owen diz também que as pessoas sem-abrigo devem ser consideradas grupo de risco e, portanto, prioritário no acesso a testes de despistagem e às futuras vacinas.

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