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Entrevista

Escola 42 está em Portugal. Aqui não há professores e são os alunos que se avaliam

26 out, 2020 - 12:54 • Marta Grosso , Miguel Coelho (entrevista)

Nos EUA, a Escola 42 já apareceu acima do MIT e do Carnegie Mellon em alguns rankings. A Renascença entrevistou Pedro Santa Clara, uma das caras que dirige esta escola inovadora, donde saem "programadores excelentes".

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É, sobretudo, através de jogos – ou com elementos associados ao ‘gaming’ – que se faz este curso de programação na Escola 42, uma escola inovadora no ensino da programação e gratuita.

Graças ao patrocínio de mecenas, que subsidiam os cursos a 100%, foi possível reunir sete milhões de euros para os próximos cinco anos. Mas como se podem candidatar os interessados?

Primeiro, é necessário que tenha, pelo menos, 18 anos. Depois, vem o processo de recrutamento, que “é longo, complicado e difícil”, admite Pedro Santa Clara, professor na Nova SBE e uma das caras da Escola 42.

“Tivemos, até agora, cerca de 5.800 candidatos, que primeiro têm de fazer dois testes online – na verdade, são dois jogos de computador – que avaliam a capacidade de resolver problemas lógicos, mas também de resistir ao stress e à ambiguidade, porque nem todos os jogos são completamente óbvios”, explica no programa As Três da Manhã.

“Depois disso, e se passarem, entram na 'piscine', que é um ‘bootcamp’ de 26 dias, muito intensivo em que aprendem a programar em C, na escola. Finalmente, aqueles que passam a 'piscine', aprenderam a nadar e estão prontos a começar o programa que vai acontecer em fevereiro e dura, em média, três anos e meio”, prossegue.

Como cada aluno faz o programa “ao seu ritmo”, pode terminá-lo entre dois e cinco anos, no máximo. A taxa de empregabilidade dos cursos de programação é de quase 100%.

Sem professores, sem aulas ou horários. Como funciona?

Há muito tempo que sabemos que aulas é um método muito pouco eficaz de aprender. Há imensos estudos em pedagogia que mostram que a taxa de retenção de conhecimento numa aula é da ordem dos 5% a 10% e a forma como verdadeiramente aprendemos é a resolver problemas e a aprender o que for necessário para os resolver, sobretudo trabalhando em grupo.

Aprender é um processo social, em que aquilo que funciona mesmo é o trabalho entre pares.

Esta escola, pela primeira vez, levou isto às últimas consequências e desenvolveu toda uma plataforma tecnológica que leva os alunos através de um conjunto de níveis – lá está, como se fosse um jogo de computador com alguns elementos de ‘gamingficação’: ganham-se pontos para isto, badges para aquilo, existem tribos, todos aqueles elementos que estamos habituados a ver em jogos para incentivar os alunos.

Cada um destes níveis é um desafio que lhes é lançado e cabe aos alunos aprender o que for necessário para os resolver, trabalhando por si e com os outros.

Quem avalia?

Avaliam-se uns aos outros. Quando completo um projeto – e cada projeto, no fundo, é escrever um programa que submeto online – a plataforma sorteia cinco colegas que vão avaliar o meu projeto.

Eu, para poder ser avaliado, tenho de ter ganhado pontos avaliando outros. Há aqui quase que uma economia de avaliações mútuas e esse processo de avaliação entre pares é fundamental, porque é aí que aprendemos que há outras maneiras de resolver problemas, que encontramos formas de pensar diferentes e que nos faz crescer de certa forma em responsabilidade e experiência.

No fim, fica-se programador?

Fica-se um programador excelente. Esta escola hoje, em França, é certamente a número 1; nos EUA, já vi vários rankings em que esta escola aparece à frente do MIT e do Carnegie Mellon, que são tradicionalmente as mais fortes nesta área e, portanto, fica um grande programador.

Mas muito mais do que isso, porque, além do conhecimento técnico, o que esta escola verdadeiramente desenvolve é a capacidade de aprender a aprender, de trabalhar autonomamente, de trabalhar uns com os outros, a responsabilidade.

A pandemia terá ajudado a fazer diferente?

Nós próprios já estávamos a trabalhar neste projeto muito antes da pandemia, mas acho que a pandemia vai acelerar muito a transformação. Por muitas razões. Porque nos permitiu ultrapassar algumas barreiras psicológicas de utilizar a tecnologia na educação, porque de repente vai trazer novos modelos de ensino, novos ‘players’ nesta indústria.

Se pensarmos na educação como uma grande indústria, é daquelas que mudou menos nos últimos séculos e acho que isso agora vai mudar e vamos ver nos próximos 10 anos o aparecimento de muitos modelos de educação.

O 42 é um deles e acho que isso é bom em si mesmo, porque se há coisa que nós sabemos é que não aprendemos todos da mesma maneira, não aprendemos todos ao mesmo ritmo, não temos todos o mesmo interesse.

A funcionar numa antiga tipografia

Com orgulho. E o que se passa lá dentro é fantástico. Começámos a primeira 'piscine' há uma semana e é incrível ver 150 pessoas chegarem, não se conhecem de lado nenhum, muito diferentes, a defrontarem-se com um problema e passado nem meia hora começa-se a ver a colaboração a emergir, uns a falar com outros e no dia seguinte toda a gente se conhece e está ali a tentar encontrar a solução para os problemas.

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