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Graça Franco
Opinião de Graça Franco
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Calamidade é a ditadura sanitária que aí vem

15 out, 2020 • Opinião de Graça Franco


Não quero. Não tenho dinheiro para pagar 500 euros de multa diária, mas disso já não tenho medo. Venham as multas. As leis que nos envergonham não são para cumprir. Venderam-nos a ideia de que a aplicação StayAway Covid era de instalação meramente voluntária. Tudo bem. Obrigatória não aceito.

Garanto que não tenho segredos a esconder. Os meus passos podem ser escrutinados. Só tenho medo do medo. Do medo, acreditem que eu tenho mesmo muito medo. Não quero ter um número escrito no braço. Não quero ter um chip na pele. Não temo ter um polícia, sem mandato, a entrar-me, pela casa dentro, para contar quantos comensais tenho à mesa (normalmente são sete, mas muitas vezes são onze entre pais, filhos e netos).

Jantar é um direito. Não vou abdicar dele, mas reconheço que já percebi, a minha sala não o permite. Não voltaremos a jantar ao mesmo tempo. Vamos jantar por turnos: cinco primeiro e cinco na ronda seguinte. Rotativamente, um vai comer na cozinha. Os senhores agentes estejam tranquilos, não precisam de nos visitar. Mesmo se derem por sinais de festa. Mas instalar aplicações não instalo.

Por outro lado, não me indignarei se ignorando a sabedoria popular (“a boda e a batizado não vás sem ser convidado!”) se aplicar uma exceção para os guardas. Não me custa que fiscalizem se, em vez do máximo de 50 convidados estão lá 100, o que, além de ilegal, constitui ameaça grave à saúde e felicidade dos noivos. Ninguém quer ver a família e amigos hospitalizados no regresso da lua de mel. Se o bom senso prevalecer nada a opor à visita das autoridades. Mas obrigar os convivas a instalar a aplicação é que já me parece “abuso de autoridade”.

Um Governo que gasta milhares de milhares de milhões na TAP e Novo Banco, e continua a não ter uma estratégia para evitar notícias como a desta quinta-feira (em Évora lar de idosos com 97 infetados!) É um Governo sem moralidade para ir gastar dinheiro a oferecer telemóveis aos portugueses desses que possam trazer a aplicação (mantenha a Covid longe…) já instalada. Mas, mesmo que tivessem essa ideia peregrina, eu não queria. E senão que igualdade é essa que impõe aos portugueses, com dinheiro e bons telemóveis, uma aplicação, e deixa os pobres sem essa “importantíssima” arma de defesa?

Não quero. Não tenho dinheiro para pagar 500 euros de multa diária, mas disso já não tenho medo. Venham as multas. As leis que nos envergonham não são para cumprir. Venderam-nos a ideia de que a dita aplicação era de instalação meramente voluntária. Tudo bem. Obrigatória não aceito. Além disso, não gosto que me mintam. Deixem-na como está. Quem quer descarrega-a. Quem não quer, não descarrega. Eu não quero. Falo por mim. Se outros acharem bem, usem-na. Não quero ficar com o ónus de contribuir para que não se salve a vida de alguém.

Não gosto de ter um detetor de “localização de contactos” em permanência comigo. Nem em contexto laboral, nem entre funcionários públicos, nem nas escolas e universidades, nem em contexto nenhum. Acho coisa de má memória. Tipo caderno dos agentes da PIDE. Polícia que também achava o comunismo (e outras ideias subversivas, como as da doutrina social da Igreja) perigosas “doenças contagiosas”, que urgia erradicar da sociedade. Aliás recorria ao internamento compulsivo e ao isolamento obrigatório dos “doentes” detetados ou dos seus contactos “suspeitos” não fossem também contraírem esses vírus. No mínimo, colocava-os em quarentena.

Se querem passar do estado de calamidade para o estado de emergência, passem. Se querem limitar direitos liberdades e garantias em nome da saúde pública. façam-no. Há coisas que é preciso assumir antes, para agir depois. A Democracia tem regras e não as podemos “suspender”. Acredito que até um presidente hipocondríaco não deixará de nos proteger desse passo em falso. É preciso ter vergonha. Eu sinto vergonha alheia. Por ações e omissões como esta.


Agradeço o cuidado, mas não quero. Nem que me ofereçam. Mesmo uma aplicação embrulhada num telemóvel de última geração. Não quero que o ofereçam aos meus filhos e netos. Será a ideia mesmo essa? Alguém teve a ideia de em vez de comprar Magalhães comprar telemóveis para distribuir, nas escolas, com a falsa desculpa de que está a proceder à “digitalização” do projeto “escola segura”? Quem sabe a União Europeia ainda vai pagar às grandes operadoras, parceiras em novo negócio. Brinco? Não sei. Já nada nos espanta. Em matéria de negociatas já vimos de tudo.

Perdoem se exorbito. Desculpem lançar a suspeição. Mas se há alunos pobres, sem telemóvel, ou com aqueles básicos onde não cabe a aplicação e ricos que tem aparelhos de última geração como os obrigar a todos a usar um equipamento idêntico? Ou será apenas mais uma forma de garantir que num país tão “webizado” uma app tão cara não passou de um “flop”?

Para mim é uma questão de coerência. Defendo que como já existe em muitos países as novas tecnologias fiquem à porta da sala de aula exceto quando servem para aprender e ensinar. O espaço de ensino é sagrado. Exige concentração. Os alunos não precisam de controle a tempo inteiro. Devem ser autónomos e responsáveis. Devem ter o telemóvel “q.b” segundo a respetiva idade e necessidade. O tempo de estudar não deve conflituar com o tempo para “jogar” e menos ainda aceito que devam passar a usar pulseira sanitária eletrónica.

Os jovens, em vez de andar de cabeça baixa, precisam de aprender a usar a cabeça para a manter erguida e os olhos para contemplar o mundo e não para os fixar no ecrã, sobretudo nas escolas.

Tente António Costa impor a obrigatoriedade de uso de uma aplicação, como esta, e eu retirarei as devidas consequências: já estaremos em Estado de Emergência porque caiu subitamente sobre nós a pior das calamidades: a perda da liberdade e o início da uma ditadura sanitária.

A história ensina-nos que todas começaram assim: com o embalo e a aprovação de um povo temente, reverente e sobretudo ignorante e obrigado pouco consciente dos seus direitos. Cheio de medo. É este o nome do vírus? Ou ainda estamos a falar do Covid?

Não podemos contemporizar com uma sociedade assim que coloca os seus velhos em “solitária” encerrados em celas de isolamento profilático, mesmo que a prisão seja domiciliária, sem contar com os que de entre eles se encontram já condenados a prisão perpétua , num corredor de morte em solidão, vendo o fim minado por extremo e inexplicável sofrimento, numa tortura que a sociedade tolera e contra a qual ninguém se indigna.

Para cúmulo uma sociedade com um Parlamento que tem a lata de ir debater a eutanásia na próxima semana, sem rebuço e sem vergonha de antes não debater as verbas orçamentais exigíveis para resolver um problema urgente que lhes devolveria a dignidade e a vida envolvendo muito menos dinheiro do que o Orçamento tem destinado ao Novo Banco e à TAP?

Vale a pena ler a última nota da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre o que se espera dos políticos em relação aos lares de idoso (o texto divulgado esta quarta-feira) e já agora ler também a par da carta aberta dos ex-bastonários enviada à ministra da saúde. Boas leituras de fim-de-semana.

Só vão pelo caminho certo os que o escolhem e sabem para onde vão e também os que não sabem nem o caminho nem para onde querem ir. O Governo não tem dúvidas de que vai pelo caminho certo. A certeza vem-lhe de qual dos dois motivos?

Comentários
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  • Bruno
    18 out, 2020 aqui 09:30
    A liberdade não é um direito absoluto. Quando a liberdade individual tem implicações colectivas, ela tem de ser restringida.
  • Até a Graça Franco
    17 out, 2020 até tu brutus 22:52
    Ora toma! A mais à esquerda possivel (à esquerda da esquerda radical), para quem o comunismo era tudo que que sempre devia haver na terra e no céu, (a mesma que vem dizer que quando Costa chama covardes aos médicos, isso são noticias que têm de ser sensuradas, para o povo não saber), agora vem dizer isto ? Organize-se Graça!
  • Marise de Oliveira
    17 out, 2020 Lisboa 13:39
    Sigo co muito interesse o trabalho de Graça Franco pois considero ser uma das vozes mais lúcidas da atualidade.
  • Ivo Pestana
    17 out, 2020 Funchal 12:37
    Força Dra Graça, eu e muitos gostamos da sua sabedoria.
  • Falas muito
    17 out, 2020 mas não dizes nada 12:35
    Felizmente temos cá gente de Ílhavo que sabe sempre tudo sobre alguma coisa e deve estar a ler o manual da app ...
  • Luis Mendes
    17 out, 2020 Ponte De Lima 12:09
    Eu estou plenamente de acordo que a aplicação não deve ser obrigatória, mas uma coisa é certa, se a aplicação fosse proibida toda gente a instalava, porque é fixe ser do contra. Deviam fazer psicologia inversa e proibir a APP.
  • Jorge Manuel
    17 out, 2020 Porto 11:15
    A sra antes de emitir uma opinião tão visível e com a responsabilidade de jornalista, devia 1o informar-se é depois escrever. Evitava o chorrilho de informação incorrecta e a choradeira do regime que em nada se compara com o que vivemos. É se por ventura quizer abordar outras questões faça sentido e não mensione de leve o que também deve desconhecer. Podia lhe explicar como funciona a APP stay away covid, mas é sua obrigação fazê-lo... Tão simples como uma busca no Google. Podia lhe explicar que a aplicação é compatível com tudo depois do Android 8, mas isto certamente iria descobrir se fizesse o seu trabalho como deve ser. Quanto ao ter smartphone.... Santa paciência mas olhe à sua volta, não falta cafés onde os reformados vão agarrados a telemóveis para opinar no Facebook, coisa que deve ter é que sabe mais de si do que o governo, e pior sabe para vender essas informações em anúncios para si direcionado, e não para travar uma pandemia tão grave como o covid. Tenha um bom dia e muita saúde para si e para os seus.
  • Justo
    17 out, 2020 Portugal dos pseudo-democraticos 04:10
    Não partilho contatos, localizações ou outro tipo de dados com nenhuma app. Não vai ser agora por causa de uma pandemia mal gerida que vou perder o meu direito à privacidade. Já não vivemos numa democracia há muito tempo. Não consigo respirar com as máscaras e por isso quase não vou a lado nenhum. Se passar a ser obrigatória na rua prendam-me que eu não pago multas que violam a minha liberdade.
  • Ana Cristina Sergio
    17 out, 2020 Lisboa 03:00
    Concordo em absoluto com tudo o que foi dito neste artigo da Dra Graça Franco, e acrescento que este é um governo em total desespero sem alternativas, sem ideias e que como bem disse gastou milhares nesta aplicação que nao surtiu o efeito desejado e porquê? porque nao sendo obrigatório a colocação do código das pessoas que estão infectadas na aplicação ,a maioria delas não os coloca e bem porque não quer ser estigmatizada , logo a aplicação nao está a resultar então para mim é inútil eu não a tenho e nao tenciono instalar, sinceramente aceitar isto é aceitar perder a nossa privacidade, liberdade, colocar códigos nas pessoas para identifica-las como se fossemos animais, como se fossemos pertença de alguém, mas estamos a viver onde? e o que me espanta é o nosso presidente Marcelo estar a ir de acordo e até o Dr Rui Rio que ainda nao percebi bem de que partido é porque nunca o vejo fazer oposição a nada é uma pessoa que não serve como alternativa eu enganei-me duas vezes não me vou enganar terceira o Dr António Costa não levará mais o meu voto, não só por isto mas por mtas outras coisas com as quais não me identifico
  • António da Cunha Dua
    16 out, 2020 Kassel 22:39
    Uma coisa é a escolha livre de um cidadão em democracia e outra a que uma alegada democracia autoritariamente lhe impõe. Obrigatoriedade geral, deste género, só poderia acontecer num país com estruturas fascistas ou comunistas. A privacidade incomoda o sistema que quer tudo sob controlo, até a pessoa. É preciso resistir no princípio, depois já é tarde! Que as pessoas tomem medidas de protecção para si e para os outros e os governos acautelem a população com medidas adequadas é muito necessário mas nada justifica medidas radicais das autoridades. A irresponsabilidade de alguns cidadãos não justifica que um Governo se assenhoreie da liberdade de todo o povo!