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Postal de Quarentena – Faro

“O medo ocupou as nossas cabeças e eu deixei de conseguir escrever”

03 set, 2020 - 06:51 • Sandro William Junqueira*

Seis meses depois do primeiro caso de Covid-19 no país, o 60.º postal de quarentena que publicamos é de Portugal continental, mais precisamente de Faro, de onde um autor nos explica como a pandemia paralisou a sua capacidade de escrever.

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Há um poema da Wislawa Szymborska de que gosto muito.

“Vinte e sete ossos, trinta e cinco músculos, cerca de duas mil células nervosas em cada uma das pontas dos cinco dedos. É quanto basta para escrever 'Mein Kampf' ou 'A Casinha do Ursinho Puff'.”

Um alicerce ético do ofício da escrita. Tenho pensado muito nele. O que pode a mão escrever em tempos de peste? Conseguirá a mão virada do avesso encontrar as palavras certas em tempos de desastre? Desde a tarde do dia 11 de março, a tarde em que a Organização Mundial de Saúde declarou a pandemia, a tarde em que o mundo ficou menos mundo, a ameaça invisível tomou conta do tempo, do espaço, da velocidade. O medo ocupou as nossas cabeças e corpos, fechando-nos em casa. E eu deixei de conseguir escrever. Até hoje.

Não foi uma decisão. Nada acontece só assim. A realidade é uma coisa. A ficção é a possibilidade de termos outra diferente. De ficarmos mais ricos. Ter duas coisas, em vez de uma apenas. Mas quando a realidade avança, sem travões, ganhando força à medida do avanço, como um desastre a limpar os pés no tapete à entrada da porta, a ficção deixa de fazer sentido.

Desde a tarde do dia 11 de março fechei-me em casa com muita sinceridade. E deixei de estar escritor. Não estou escritor. Até a janela, onde me debruçava para coser as frases que erravam pela cabeça, deixou de fazer sentido. Será possível domesticar a escrita? Abeirar-me da janela? Espreitar lá fora para ver o quê? A ria formosa que não alcanço. O chamamento das cegonhas do alto das chaminés. O grito dos pavões no jardim selvagem junto da biblioteca. O avançar da natureza a domesticar o que era humano. A tempestade está aí, e estende os braços longos, tocando tudo, todos. O susto que suspende vem de fora e de dentro. De forma inaudível. De forma invisível. E cada vez mais confusa.

A minha avó escreveu-me uma carta. A avó preocupada com o neto e não o contrário. Imersa de uma fé com a certeza da tabuada perguntou por nós e pelos animais. Falou-me da bíblia e de certos versículos. Dos quatro cavaleiros e dos seus cavalos altos. Quer salvar-nos. Por mais voltas que dê ao coração ainda não consegui estacionar a calma e o amor para escrever-lhe de volta.

Desde a tarde do dia 11 de março que tenho percorrido todas as divisões desta casa como um ginasta aplicado. E decorado as irregularidades brancas das paredes e tetos. E cozinhado como nenhum grande chef o fez. E tentando desviar a atenção para tudo o que não são números, estatísticas, gráficos coloridos, picos e planaltos, previsões contraditórias, teorias cientificas, e do Tom Moore, que, com os seus 99 anos, cumpre as cem voltas ao jardim da sua casa em Berdfordshire, e dos aplausos com lágrimas em Leganes para o enfermeiro herói Esteban, e do Papa Francisco a avançar na solidão indivisível da praça de São Pedro, e das valas comuns de corpos não reclamados num arrabalde de Nova Iorque. Tenho tentado e falhado. Em grande. Neste desvio milimétrico do olhar e da cabeça – “o paraíso é um milímetro ao lado”.

A realidade continua de mão fechada a dar socos diários e consecutivos à ficção. Uma coisa apenas. Não duas. Tornando-nos mais pobres. Paul Celan tinha alertado para a impossibilidade de escrever após a consumação da tragédia. Indiferente a isto, o meu cão tem-me levado em passeios pelas ruas vazias da cidade. E eu tenho-lhe obedecido. E vou continuar a obedecer-lhe, agradecido. Pelo confronto diário com o medo e o avanço na liberdade. Enquanto o meu cão me levar em passeio pelas ruas vazias da cidade serei um homem que faz barulho ao andar.

E, por agora, isto já é muito.


*Sandro William Junqueira é autor, realizador e professor de artes dramáticas. Este postal foi publicado originalmente no site Europe at Home, uma iniciativa da Faro 2027, a candidatura da cidade algarvia a Capital Europeia da Cultura.

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