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Postal de Quarentena – Wellington

Uma arca no oceano, longe de tudo

08 set, 2020 - 06:41 • Lucy Telfar Barnard*

A Nova Zelândia tem sido apontada como um dos países que melhor lidou com a pandemia. Neste postal uma epidemiologista reflete sobre o preço a pagar pelo isolamento que lhe permite estar com os pais, mas a mantém afastada da filha.

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Não há como negar que a Nova Zelândia fica longe de quase tudo. Quando os primeiros colonos saíram das suas casas para vir para cá, fizeram-no sabendo que seria uma longa viagem e que a probabilidade de regressar era baixa, que poderiam nunca mais pôr os olhos naqueles de quem se despediam. Quando me perguntam exatamente onde é que fica a Nova Zelândia digo, na brincadeira: “A leste do sol, a ocidente da lua” ou “primeira estrela à esquerda e sempre em frente até de madrugada”.

Antes da Covid-19 a era da internet e o transporte aéreo tinham-nos permitido ver o mundo mais de perto, como que através de um telescópio. A comunicação era imediata. Era tão fácil falar com a minha filha, que está na universidade no Canadá, como se estivesse numa cidade universitária por cá. Tanto ela, como nós, podíamos entrar num avião e estar juntos dentro de um dia – não muito pior que uma viagem de carro até à outra ponta do país. Apesar das distâncias, a Nova Zelândia já não parecia tão remota e inalcançável.

Mas agora as nossas fronteiras estão encerradas para todos menos cidadãos e residentes da Nova Zelândia e os voos são escassos. Se fizermos uma viagem curta para dentro ou para fora do país temos de pagar elevadas taxas de quarentena. Durante dois dias no final de maio, e outro dia em junho, pela primeira vez em décadas, certamente, não entrou uma única pessoa na Nova Zelândia.

Mais ou menos ao mesmo tempo, depois de um confinamento muitíssimo rigoroso, a nossa experiência da pandemia divergiu do resto do mundo. Graças à boa ciência, liderança excecional e um bom trabalho desenvolvido por todos, deixámos de ter casos comunitários. Todas as novas chegadas ao país foram sujeitas a quarentena, gerida pelo Governo. De uma ilha sempre isolada, tornámo-nos uma estranha ilha de normalidade, regressando ao trabalho e convivendo sem distância social – não por ignorarmos o risco, mas porque não havia risco.

Bem focados nessa nova normalidade e com uma experiência da pandemia tão diferente daquela que víamos no resto do planeta, passámos novamente a ver o mundo à distância. Lá se foi o nosso telescópio. Estávamos muito satisfeitos connosco mesmos, mas ao mesmo tempo um bocado paranoicos com a manutenção do nosso estatuto especial. O que é que eramos exatamente? Uma arca? Um castelo sitiado? Fechámos as escotilhas, levantámos a ponte levadiça e fortalecemos as ameias.

Essa nossa estranha normalidade durou 102 gloriosos dias.

E depois voltámos a ter um caso na comunidade. O surto continua a trazer novos casos. Poucos, bem geridos, monitorizados e rastreados, mas casos. Alguns dos doentes estão hospitalizados**.

E, no entanto, para mim, embora seja frustrante, preocupante e triste, ao mesmo tempo parece que nos estamos a juntar de novo ao resto do mundo. Não é que eu queira partilhar a experiência da pandemia – não desejo o risco de morte para qualquer dos meus compatriotas – mas olhando da segurança das antípodas pareceu-me um voyeurismo distante. Quero sol na eira e chuva no nabal; estar a salvo do vírus, mas ligada ao mundo.

Quero abraçar de novo a minha filha, mas não posso viajar para o Canadá nesta altura e ela não tem nem tempo nem dinheiro para suportar a quarentena caso voltasse para casa. Em dezembro teremos o nosso primeiro Natal sem ela desde que nasceu. Contudo, comparado com a mortandade no resto do mundo, tenho a noção de que é um pequeno sacrifício a fazer. Sei que a distância que nos separa é também a que nos permite continuar a celebrar o Natal com os meus pais. Não podemos separar a nossa segurança do nosso isolamento, e recusamo-nos a contemplar a taxa de mortalidade que acompanharia um religação ao mundo.

Até termos uma vacina temos de permanecer na nossa arca, sozinhos no oceano, longe de tudo.


*Lucy Telfar Barnard é epidemiologist ana Universidade de Otago, em Wellington, onde vive com o marido e com um filho, estando a sua filha no estrangeiro. Normalmente trabalha para o programa de Investigação em Saúde de habitação He Kāinga Oranga, mas atualmente está também a colaborar com o programa de combate à Covid-19.

**Desde que este postal foi escrito, no dia 1 de setembro, registaram-se dois óbitos.

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