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O que significa um milhão de mortes? “A Covid-19 segue o padrão das maiores epidemias da história”

O que significa um milhão de mortes? “A Covid-19 segue o padrão das maiores epidemias da história”

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29 set, 2020 - 01:48 • Redação*

A Covid-19 ultrapassou esta terça-feira a barreira de um milhão de mortes, em todo o mundo. A doença provocada pelo SARS-CoV-2 é agora a 11.ª causa de morte, a nível mundial. “Não podemos menosprezar o impacto demográfico" do novo coronavírus, alerta especialista.

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Mais de um milhão de pessoas morreram, nos últimos nove meses, devido à Covid-19. A pandemia do novo coronavírus já afetou cerca de 188 países e desde 11 de janeiro - altura em que se registou a primeira morte provocada pelo novo coronavírus - o número de óbitos não para de aumentar.

Esta terça-feira, o mundo contabilizou 1.002.394 vítimas mortais e a doença provocada pelo SARS-CoV-2 é agora a 11.ª causa de morte, a nível mundial, de acordo com uma estimativa que tem por base os últimos dados de mortalidade da plataforma Our World in Data.

A mesma estimativa sugere que, desde janeiro, morreram mais pessoas por Covid-19 do que em acidentes de viação, desastres naturais, conflitos armados ou por subnutrição, malária ou parkinson.

Em menos de um ano, a pandemia do novo coronavírus alterou significativamente a dinâmica demográfica mundial, um cenário que, apesar de surpreendente, não é inédito.

Alexandra Esteves, especialista em história da saúde, explica à Renascença que “algumas das medidas que estamos a tomar hoje são exatamente iguais às que foram tomadas no passado.

Medidas como "as quarentenas, os cordões sanitários, o isolamento, o reforço da higiene” foram, também, usadas no combate à pandemia de Influenza, que ficou conhecida como gripe espanhola por ter sido Espanha o primeiro país a anunciar casos de infeção publicamente, Ao todo, pelo menos 500 milhões de pessoas foram infetadas.

A Influenza teve “um grande impacto do ponto de vista psicológico”, uma vez que causou mais vítimas mortais na faixa etária entre os 20 e 40 anos de idade. “Muitas crianças perderam os seus pais, em Portugal temos os chamados órfãos da pneumónica.”

A Covid-19 “segue o padrão das epidemias que marcaram a história da humanidade, os primeiros a ‘cair’ são os mais frágeis e os mais velhos, aqueles que já têm outras doenças e estão debilitados”, lembra a especialista.

“Não podemos menosprezar o impacto demográfico da Covid-19, mas não nos podemos esquecer das outras doenças que continuam a matar”, salienta. Segundo a historiadora, muitas causas de morte são “fruto das desigualdades sociais, da pobreza extrema que continua a grassar em algumas regiões do globo”. E algumas das doenças que afligem essas regiões, como é o caso da malária, tuberculose e a febre amarela, “são facilmente controláveis no mundo ocidental”.

“O avanço tecnológico não dá resposta aos surtos epidémicos”

Apesar do abalo da pandemia, a Covid-19 está longe de atingir níveis de mortalidade alcançados por outras epidemias. “A peste negra, 200 milhões de óbitos, a gripe espanhola ou pneumónica, 10 a 50 milhões de óbitos. Existe uma memória histórica de outros surtos que marcaram a humanidade.”

A história repete-se e quando se trata de uma epidemia “não vivemos num admirável mundo novo”, recorda Alexandra Esteves. Apesar dos avanços tecnológicos “serem importantes, não dão resposta a tudo, nem dão resposta aos surtos epidémicos”.

O mundo “encontra-se unido para encontrar uma vacina para combater a Covid-19”, mas muitas epidemias são fruto da relação do humano com a natureza. O homem destrói o habitat de alguns animais. “Animais que, muitas vezes, constituem uma espécie de repositório natural de certos microrganismos, de certos vírus” como é o caso do SARs e do MERs.

Isto contribui, também, para que novas doenças se espalhem pelo globo, “fruto das alterações climáticas”, assim como as catástrofes naturais que por norma rondam as 200/300 mil vítimas.

“Não estão ao nível, em termos de impacto demográfico, das grandes epidemias, mas temos catástrofes naturais que provocaram um elevado número de óbitos”. Para além disso, existem, ainda, as catástrofes provocadas pelo homem. “Só o holocausto teve seis milhões de mortes”.

A tendência é, aponta a historiadora, a de “seguir o mesmo padrão de comportamentos, um que voltará a repetir-se, se não evitarmos certos erros”.

Mortalidade aumentou nos últimos dois meses

O número de mortes diárias por Covid-19 aumentou durante os meses de agosto e setembro, atingindo uma média de mais de 5 mil óbitos a cada sete dias em todo o mundo.

Entre os países onde o novo coronavírus apresenta maior impacto na mortalidade estão os EUA, Brasil, Índia, México, Reino Unido, Itália, Peru, Espanha e Irão. Os Estados Unidos da América registam o maior número de vítimas mortais desde o início da pandemia -- no final de maio passou a barreira das 100 mil mortes por Covid-19, número que entretanto duplicou. Esta terça-feira de manhã, estavam confirmados no país mais de 204 mil óbitos relacionados com a doença.

No Brasil, o cenário também não é favorável- são mais de 140 mil as vítimas mortais. Na Índia o número oficial supera os 95 mil e no México os 76 mil mortos.

Por outro lado, países como a Alemanha (3,3%) ou Portugal (2,7%) têm conseguido manter a taxa de letalidade do novo coronavírus (a percentagem de óbitos em relação ao total da população afetada) muito abaixo de países como Itália (11,6%), México (10,5%), Reino Unido (9,6%) ou Bélgica (8,7%).

Evolução da pandemia de Covid-19 no mundo

Portugal aproxima-se das duas mil mortes por Covid-19

Em Portugal a Covid-19 já vitimou mais de 1.900 pessoas.

As previsões variam, mas no melhor cenário, projetado pelo MIT, o país deverá terminar o ano com 2.012 óbitos devido à doença, um número que revela um decréscimo da variação diária de óbitos.

Já o Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington aponta para mais de oito mil mortes até janeiro de 2021. É um cenário muito pouco credível na leitura de Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

"O instituto que faz estas estimativas tem um historial de más previsões", defende à Renascença. "Estes modelos olham para o padrão dos dados dos últimos dias ou semanas e projetam o futuro com base nesse padrão observado, como se tudo se mantivesse idêntico.

Isto, explica o especialista, "é mais ou menos como estarmos a olhar para o tempo da última semana e, sem sabermos de nada sobre as estações do ano, querermos fazer previsões para daqui a seis meses sobre como vai estar o tempo. Isto numa epidemia não faz sentido nenhum, porque uma epidemia é influenciada por tantos fatores, desde virais até sociais."



*Infografia e recolha de dados: Cátia Barros. Notícia editada por Joana Gonçalves e Joana Azevedo Viana

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