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Covid-19 em Portugal

Portugal enfrenta segunda vaga mais severa. Outubro será pior do que abril, indicam previsões e especialista

23 set, 2020 - 16:40 • Joana Gonçalves

Portugal pode atingir em outubro mais de 1.700 casos diários de Covid-19 e o pico da segunda vaga deverá ser mais grave do que o registado em abril. “Temos de conseguir um equilíbrio entre a retoma da vida normal e a proteção da exposição ao contágio pelo vírus”, defende Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia da Universidade de Lisboa. “Projeções são úteis, mas devem ser contextualizadas”, alerta Ricardo Mexia, da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

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Mais de mil casos de Covid-19 por dia em outubro e um segundo pico à vista superior ao de abril. O Outono-Inverno pode trazer uma segunda vaga mais severa e com maior impacto no número de infetados em Portugal.

Previsões da consultora Oliver Wyman, empresa que desenvolveu um modelo que procura estimar a evolução da pandemia a nível global e que presta consultoria a algumas entidades públicas, como o Governo brasileiro, apontam para um novo pico de Covid-19 em Portugal, que ultrapassa os 1.700 casos diários, já no próximo mês.

“Eu acho que é possível. Nós já ultrapassamos a barreira dos mil uma vez, se voltar a acontecer não é nada de extraordinário. É perfeitamente possível, ainda por cima nós agora não vamos adotar medidas de confinamento global, drásticas, como adotamos em março e abril. Isso pode acontecer”, diz à Renascença Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O primeiro-ministro, António Costa, tinha já avançado que Portugal podia atingir os mil casos esta semana, referindo que "é inegável que o fator de transmissão está a aumentar”. No pico da epidemia, a média semanal de novas infeções pelo novo coronavírus nunca ultrapassou os 800 casos. A 31 de março, o boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) dava conta de um aumento de 1.035 novos casos diários, uma variação apenas superada pelo registo de 10 de abril, que terá resultado de um atraso de notificações.

Para o especialista Manuel Carmo Gomes, ouvido regularmente nos encontros entre DGS e agentes políticos, a possibilidade de atingirmos uma segunda onda mais severa tem uma explicação. “Isto é o resultado de duas coisas. Pelo menos 90% da população portuguesas é suscetível a contrair este vírus. Por outro lado, este vírus tem uma capacidade de transmissão superior, por exemplo, à da gripe. Nós temos de conseguir um equilíbrio entre a retoma da vida normal e a proteção da exposição ao contágio pelo vírus. É um equilíbrio difícil, mas todos nós, a nível individual, vamos ter de caminhar nessa direção”, explica.

Apesar da previsão menos otimista, Carmo Gomes acredita que “se os portugueses alterarem o seu comportamento radicalmente ou alguma coisa acontecer muito radical é evidente que isto falha”.

“Projeções são úteis, mas devem ser contextualizadas”

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, têm sido divulgadas diversas projeções que procuram antecipar o impacto que terá o vírus na vida dos portugueses.

No melhor dos cenários, e segundo o MIT, o país avança numa trajetória descendente, já a partir de setembro, e termina o ano com um valor de cerca de 132 internamentos e 2.012 mortes devido à doença. Na previsão mais pessimista, da Universidade de Washington, o número de óbitos quadruplica e 2021 arranca com mais de oito mil vítimas mortais, provocadas pelo novo coronavírus.

Com um futuro mais ou menos favorável, importa compreender o que separa estas projeções, com resultados tão distintos, e que papel desempenham nos processos de tomada de decisão política.

“As projeções são úteis para nós planearmos, ou seja, sabermos o que potencialmente pode acontecer, ajudam-nos a desenhar melhor uma resposta, os recursos, a própria comunicação. Essa é a grande utilidade que representam. A grande questão é que são isso mesmo, projeções. Portanto, podem ser mais ou menos fiéis à realidade”, explica Ricardo Mexia em entrevista à Renascença.

Para o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, “é sempre difícil trabalhar com base nesses cenários, particularmente quando se tratam de projeções feitas para situações inéditas”.

O novo coronavírus chegou a Portugal em março e, apesar dos avanços atingidos nos últimos seis meses, há ainda muitas questões por responder quanto à transmissão, níveis de imunidade e eficácia dos tratamentos.

Uma coisa é certa, “uma projeção feita em fevereiro deste ano terá seguramente muito mais dificuldade em prever a evolução da pandemia, do que uma projeção que façamos agora”, diz Ricardo Mexia.

“Temos muito mais dados, muito mais conhecimento sobre as formas de transmissão e a nossa capacidade de intervir sobre o problema”, adianta o especialista.

Os atuais modelos de previsão são mais precisos, mas não deixam de apresentar variações. Ricardo Mexia tem uma explicação: “na prática, todas as projeções partem de pressupostos. Portanto, quanto mais fatores forem tidos em conta no modelo e contribuírem para modelar a realidade de uma forma mais abrangente, melhor. É evidente que dependerá dos modelos e do número de 'inputs' que o modelo tem para depois fazer essa projeção”.

Mais de 20 mil casos diários em dezembro? "Não faz sentido nenhum"

As projeções do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington apontam para um pico de 20 mil infeções diárias no início de dezembro, um valor que seria gradualmente reduzido até atingir os oito mil novos casos por dia no final do ano. O mesmo modelo considera, no entanto, um cenário mais otimista.

Partindo do pressuposto de que o uso de máscara é adotado por 95% da população portuguesa, o pico de infeção seria atingido mais tarde, a 26 de dezembro, com cerca de 17 mil novos casos, em 24 horas. Até ao final de 2020, Portugal poderá apresentar, segundo a previsão, mais de oito mil óbitos devido à Covid-19.

As mesmas projeções avançam a possibilidade de uma sobrecarga das unidades de cuidados intensivos a partir de 18 de novembro, com um intervalo de confiança que atrasa esse cenário até 6 de dezembro, na melhor das hipóteses.

Mas mais cedo ou mais tarde, o modelo prevê que até ao final do ano o número de camas em unidades de cuidados intensivos seja superado pela necessidade de internamentos nestes serviços.

Em janeiro o cenário tenderá a melhorar, retomando os valores registados em abril.

Segundo Manuel Carmo Gomes, "o instituto que faz estas estimativas tem um historial de más previsões".

"Estes modelos olham para o padrão dos dados dos últimos dias ou semanas e projetam o futuro com base nesse padrão observado, como se tudo se mantivesse idêntico. Isto é mais ou menos como estarmos a olhar para o tempo da última semana e, sem sabermos de nada sobre as estações do ano, queremos fazer previsões para daqui a seis meses, sobre como vai estar o tempo. Isto numa epidemia não faz sentido nenhum, porque uma epidemia é influenciada por tantos fatores, desde virais até sociais", esclarece.

Um cenário que coloca Portugal no bom caminho

O modelo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) é mais otimista e descreve uma trajetória bem mais moderada da evolução da pandemia em Portugal.

De acordo com as projeções do MIT Portugal chega ao final do ano com 2012 mortes por Covid-19, um número a lamentar, mas que revela um decréscimo da variação diária de óbitos.

Em relação aos internamentos devido à doença a rota é, também, descendente e parte do pressuposto que arrancamos na próxima semana já com um decréscimo de oito internados, face à última atualização.

Nos últimos dias a variação do número de internados tem oscilado, com alguns dias a registar mesmo um decréscimo. De modo geral, o consistente aumento de novos casos diários não se tem traduzido em manifestações críticas da doença ou necessidade de internamento dos infetados. Um sinal que, apesar de positivo, não deve elimina preocupações, defende Ricardo Mexia.

“Por agora, o aumento de casos ainda não tem um grande impacto na morbilidade, nos internamentos e na mortalidade. Agora também sabemos que há um diferencial de tempo entre a ocorrência dos casos e depois a sua descompensação e eventualmente o desfecho negativo do óbito. Portanto, estamos sempre com alguma preocupação a ver o que irá acontecer nos próximos dias e o impacto que isso possa ter, por exemplo, na procura de cuidados de saúde e nos internamentos”, alerta o especialista.

Questionada pela Renascença a propósito da existência de modelos de projeções no planeamento das tomadas de decisão para a época que se aproxima, a DGS não remeteu ainda nenhum esclarecimento.

Ricardo Mexia adianta que “a transparência da informação é muito importante e, portanto, se for possível divulgar tudo aquilo que é informação que possa ter interesse para o público, eu acho que isso deve ser feito até para permitir a devida contextualização”.

Mas recorda que a DGS já o fez, em fevereiro, quando a diretora-geral da Saúde admitiu a possibilidade de o número de infetados com Covid-19 em Portugal atingir um milhão, e chegar aos 21.000 na semana mais crítica. Cenário que é de novo pintado, desta vez pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington. “Na altura a Sra. Directora-Geral até foi criticada por isso”, acrescenta.

E porque motivo a projeção cometeu erros tão grandes? Carmo Gomes lembra que "não faz sentido" fazer previsões para a evolução de uma pandemia "com base em modelos estatísticos de regressão".

“Eu percebo que se for o cidadão anónimo a procurar e a encontrar uma projeção que seja particularmente negativa, como é o caso dessa de um milhão de doentes, possa ser interpretado sem o devido contexto”, adianta o médico de saúde pública. “Se a divulgação for feita pela DGS. diretamente, permite contextualizar os dados que vão existindo. Pode ter essa vantagem”, acrescenta Mexia.

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