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Epilepsia. Doente do Porto foi o primeiro no mundo a testar neuroestimulador em contínuo

11 set, 2020 - 07:16 • Marta Grosso

“Pela primeira vez, conseguimos medir alterações dos sinais elétricos nas zonas profundas do cérebro e à superfície”, diz o coordenador do Centro de Investigação do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência. Doente revelava resistência aos medicamentos.

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Um doente com epilepsia crónica e incapacitante, resistente ao tratamento com fármacos antiepiléticos e com condições impróprias para uma cirurgia que removesse a lesão foi o primeiro a receber um novo neuroestimulador que permite, em simultâneo, gerar estímulos e efetuar a leitura do sinal cerebral nas zonas profundas do cérebro.

Este neuroestimulador foi aprovado para uso humano na Europa em janeiro e implantado pela primeira vez num doente com epilepsia, no final do mês de junho, no Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ).

É a primeira vez, ao nível mundial, que este modelo de neuroestimulador é implantado e usado na monitorização contínua de longo termo (1 semana) de um doente epilético para estudar novas abordagens para a terapia por estimulação adaptativa nesta doença neurológica.

O doente em causa tem "focos" epiléticos independentes nos dois hemisférios cerebrais, o que significa que não é bom candidato a uma cirurgia ressectiva (ou seja, de remoção de lesão).

“Para este tipo de doentes, a neuroestimulação é a melhor hipótese de melhorar o controlo da epilepsia”, explica Ricardo Rego, coordenador da Unidade de Monitorização de Epilepsia do Serviço de Neurologia do CHUSJ e do Centro de Referência de Epilepsia Refratária.

“Temos esperança que esta nova geração de neuroestimuladores possa vir a ser mais eficaz do que as atuais, uma vez que a médio prazo seremos capazes de modular os parâmetros elétricos de estimulação de forma bem individualizada”, acrescenta.

A utilização deste novo neuroestimulador permite estimular e captar sinais cerebrais em simultâneo e efetuar a leitura do sinal cerebral nas zonas profundas do cérebro, podendo assim fazer toda a diferença na qualidade de vida dos doentes.

O que há de novo?

A estimulação cerebral profunda (DBS, sigla em inglês Deep Brain Stimulation) em epilepsia já é utilizada há alguns anos em algumas situações, mas tem sido feita de forma “cega”, refere o comunicado do Centro de Investigação em Engenharia Biomédica do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, enviado à Renascença.

Ou seja, “sabemos que grande parte dos casos (cerca de 60%) beneficia de alguma forma da DBS, mas que apenas uma pequena parte (cerca de15%) deixa de ter crises epiléticas com esta terapia e não sabemos porquê”.

O novo dispositivo poderá permitir um estudo mais aprofundado sobre a ação da estimulação nos circuitos neuronais dos doentes. A nova tecnologia foi lançada no início deste ano pela Medtronic na Europa e só deverá ser lançada nos EUA agora, pois apenas foi aprovado pela FDA no final de junho, explica João Paulo Cunha, coordenador do Centro de Investigação em Engenharia Biomédica do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

Através do doente do Porto em quem foi implantado o dispositivo, "pela primeira vez conseguimos medir alterações dos sinais elétricos nas zonas profundas do cérebro e à superfície (usando Eletroencefalografia convencional), e medir os movimentos induzidos por eventos epiléticos em 3D (utilizando a tecnologia 3D vídeo-EEG, desenvolvida pelo INESC TEC) à medida que programávamos diferentes níveis de estimulação cerebral”, refere o mesmo especialista.

“Também procurámos averiguar que tipo de atividade elétrica medida por este novo neuroestimulador nos pode ajudar a melhor detetar, ou até prever, a ocorrência de crises epiléticas”, adianta João Paulo Cunha, também Professor Associado com Agregação na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

Assim, poderá ser possível deixar o paradigma "cego" e “avançar para novas abordagens de estimulação ‘adaptativa’ ou ‘reativa’, o que poderá fazer toda a diferença na qualidade de vida dos doentes”, conclui.

Ricardo Rego, coordenador da Unidade de Monitorização de Epilepsia do Serviço de Neurologia do CHUSJ e do Centro de Referência de Epilepsia Refratária, vê com bastante satisfação e orgulho o facto de Portugal ser o primeiro a usar a nova tecnologia.

“Para o CHUSJ e para o Centro de Referência de Epilepsia Refratária é motivo de orgulho sermos o primeiro centro nacional (e um dos primeiros mundiais) a utilizar este sistema em benefício dos nossos doentes e o primeiro a nível mundial a fazê-lo num contexto de monitorização vídeo 3D-EEG de longo termo para aprofundarmos as suas possibilidades terapêuticas futuras em parceria científica com o INESC TEC”, destaca.

Os dados obtidos durante uma semana de monitorização irão agora ser objeto de estudo aprofundado nos próximos meses, por forma a estudar todas as componentes: estimulação, sinais cerebrais profundos, sinais cerebrais superfície (EEG) e movimento 3D do doente, por uma equipa pluridisciplinar, que inclui médicos dos serviços de Neurofisiologia e de Neurocirurgia do CHUSJ e engenheiros do INESC TEC.

Os serviços do CHUSJ preveem implantar mais neuroestimuladores iguais noutros doentes e existe ainda uma forte colaboração nesta área, com o Hospital Universitário de Tampere na Finlândia e com o Hospital Universitário de Munique na Baviera, que permitirá elevar muito o número destes casos para acelerar a descoberta de novas terapias de estimulação adaptativas em epilepsia.

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  • nouri
    28 dez, 2021 mourad 18:36
    boa saudação Sou um paciente argelino com epilepsia e também com uma doença das vértebras do pescoço.Os médicos não puderam fazer a cirurgia das vértebras do pescoço por causa da epilepsia. Muito obrigado

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