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Iberdrola investe mais de 10 milhões de euros em medidas de compensação de flora e fauna

13 jul, 2020 - 16:15 • Olímpia Mairos

De entre as várias medidas compensatórias pela construção do Sistema Eletroprodutor do Tâmega (SET), destaca-se o centro de reprodução do mexilhão-de-rio bem como a plantação, melhoria da gestão florestal, criação de áreas com flora protegida, com espécies de fruto.

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Está em Boticas, mais concretamente no Parque de Natureza e Biodiversidade, o único centro de reprodução do mexilhão-de-rio da Península Ibérica.

A margaritífera margaritífera, espécie ameaçada, que chegou a ser dada como extinta em Portugal, no início do século XX, foi redescoberta de uma forma fortuita, em 2009, em Boticas, e travou a construção da barragem de Padroselos, projetada para junto a Covas de Barroso.

O centro de reprodução deste bivalve não comestível, que se encontra protegido por uma diretiva comunitária, é uma das medidas de compensação de fauna e flora do Sistema Eletroprodutor do Tâmega, foi elaborado pela Iberdrola (SET) com a tutela do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e foi aprovado pela Agência Portuguesa de Ambiente com objetivos definidos para 2021 e 2023, em função das datas planeadas de entrada em operação dos aproveitamentos.

“Esta é a concretização de uma das medidas compensatórias. É um conjunto de 29”, explica Pedro Moreira, biólogo, coordenador das medidas de compensação de flora e fauna do Sistema Eletroprodutor do Tâmega.

O objetivo do centro “é a reprodução de mexilhão de rio, que é uma espécie que, em Portugal, há poucos núcleos populacionais, está criticamente em perigo, tem um estatuto vulnerável no estatuto do ICNF e nós, aqui, vamos tentar aumentar as populações no rio Beça, um rio que já teve este mexilhão em toda a sua extensão”, explica o biólogo.

De acordo com o coordenador das medidas de compensação de flora e fauna do Sistema Eletroprodutor do Tâmega, no centro de reprodução do mexilhão encontram-se “quase todos os exemplares da população do rio Terva, um rio que perdeu qualidade ao longo dos anos”.

A ideia, agora, passa por incrementar as populações no rio Beça, um rio onde em 2003 foram reencontradas novas populações.

“Nós vamos ter uma medida que é de aumento da população de truta, no qual vamos colocar mais de um milhão de ovos embrionados, ou seja, ovos com o embrião já dentro numas caixas especificas no rio, que se vão desenvolver como se tivessem sido postos e colocados no ninho pela truta, na natureza. E essa medida é importante também para os mexilhões, porque o mexilhão depende da truta numa das suas fases do ciclo de vida”, detalha.

Isto porque este mexilhão “lança uma pequena larva que vai parasitar a truta, enquistando-se, formando um pequeno quisto nas guelras da truta e aí se desenvolve durante cerca de oito a nove meses, no qual ocorre a metamorfose, que é a transformação da larva à fase adulta que, depois, cai no solo, enterra-se no substrato arenoso e vai, pressupõe-se, iniciar todo o seu desenvolvimento”, explica o biólogo.

A margaritífera margaritífera é uma espécie de vida muito lenta, dependendo da temperatura da água no norte da Europa, chega a atingir mais de 100 anos e, como tal, o próprio desenvolvimento dos juvenis também é muito lento. Até atingirem quatro milímetros, deverá demorar mais de dois a três anos.

“Neste momento já infestamos as primeiras trutas. Temos aqui um laboratório no qual colocamos as trutas num tanque específico que vai permitir recolher os juvenis de mexilhões recém-libertados das guelras das trutas. Depois, uns vão ser mantidos em laboratório e outros vão ser libertados diretamente no meio”, adianta.

Segundo o biólogo Pedro Moreira, as perspetivas passam por libertar cerca de 10 mil mexilhões no meio todos os anos e manter cerca de 10 mil em laboratório. “Esta é uma espécie muito delicada e a taxa de mortalidade é sempre muito elevada. No entanto, estamos a tentar aumentar a população”, acrescenta.

Para o declínio das populações de mexilhões de água doce muito têm contribuído a poluição dos rios, a criação de pequenos açudes, muitas vezes ilegais, para rega e que limitam o percurso fluvial e o percurso longitudinal de um rio. Por isso, entre as medidas da Iberdrola, destaca-se também a “destruição de alguns desses açudes, o que vai permitir uma interconexão entre as populações de truta, porque havendo truta, poderá haver mexilhão”, explica o biólogo.

Para Pedro Moreira, é muito importante a preservação da espécie desde logo para que não se extinga, mas, também, “porque os mexilhões são muito importantes no rio, porque fazem a depuração da água”.

“Os mexilhões ao depurarem a água vão muitas vezes limpar o rio de impurezas, o que vai permitir a manutenção de outras espécies, inclusive da truta, que precisa de águas límpidas”, explica o biólogo.

"São mais os benefícios do que os prejuízos”

A Iberdrola está a investir mais de 10 milhões de euros em ações de compensação de fauna e flora locais nos municípios abrangidos por um dos maiores projetos hidroelétricos, desde os últimos 25 anos, a nível europeu - o Sistema Eletroprodutor do Tâmega.

“Estamos a iniciar um conjunto de plantações, espécies autóctones como o carvalho, sobreiro, medronheiros, além da melhoria de outras áreas, por exemplo, do pinheiro bravo, melhoria da gestão desta área”, conta Juan José Dapena.

O responsável de medidas de compensação de flora e fauna do SET refere ainda que estão a criar “pastos e formas de espécies com frutos, para depois aumentar a capacidade trófica do ecossistema, para que os animais tenham alimento. Também estamos a criar plantações que liguem a floresta ao rio”.

“A ideia é proteger as espécies de fauna e de flora e também dar algum contributo para a diminuição dos incêndios”, observa, acrescentando que a definição das áreas a intervir é feita em articulação com o ICNF, com os baldios, e com as entidades locais.

“Por exemplo, se plantamos uma barreira de folhosas numa área que tem um contínuo de pinhal, começamos a criar um efeito barreira de contenção”, exemplifica.

Já a responsável de meio ambiente e socioeconomia do SET, Sara Hoya, destaca que “o projeto tem uma área estimada de compensação de mais de 1.000 hectares, entre atividades de plantação, melhoria da gestão florestal, criação de áreas com flora protegida, com espécies de fruto”.

“A área total a reflorestar e melhorar desde o ponto de vista da biodiversidade é o equivalente aproximadamente à área inundada, de 1.000 hectares, com uma previsão de plantação de árvores e plantas, de mais de 250 mil unidades”, acrescenta a responsável.

No plano de compensação específico de sobreiros, a Iberdrola indica que vai plantar um total de 42 hectares com uma densidade de 417 sobreiros por hectare, o que vai resultar em mais de 17.500 novos sobreiros.

O orçamento para as medidas de compensação está estimado em 10,2 milhões de euros, sendo que a Iberdrola, além da execução, contempla um plano de manutenção das medidas durante os primeiros anos da fase de exploração para assegurar a sua sustentabilidade.

Medidas que o presidente da Câmara de Boticas, Fernando Queiroga, considera importantes e que o levam a concluir que a construção das barragens trouxe ao concelho “mais benefícios do que prejuízos”.

“Vem beneficiar a população e vem, fundamentalmente, preservar o ambiente na questão da reflorestação”, refere o autarca, sublinhando que, por exemplo, “o embalce de água que fica no concelho de Boticas vai também proporcionar uma facilidade maior do combate aos incêndios”.

“Temos aqui a maior mancha florestal de pinheiro bravo da Península Ibérica e este embalce de água permite uma resposta mais célere no combate aos incêndios”.

O autarca destaca ainda os contributos para o desenvolvimento do Parque de Natureza e Biodiversidade de Boticas e o centro interpretativo da margaritífera margaritífera, polos atrativos para a captação de visitantes ao concelho.

O Sistema Eletroprodutor do Tâmega é considerado uma das maiores iniciativas da história de Portugal no setor da energia hidroelétrica. Os três aproveitamentos hidroelétricos que integram a “gigabateria do Tâmega” (Gouvães, Daivões e Alto Tâmega) totalizam uma potência de 1.158 megawatts (MW), alcançando uma produção anual de 1.760 gigawatts hora (GWh), ou seja, 6% do consumo elétrico do país.

Segundo a Iberdrola, o empreendimento vai contribuir para a redução da dependência energética nacional e para a redução das emissões de gases promotores de efeito estufa, assim como vai evitar a importação de mais de 160.000 toneladas de petróleo por ano e a emissão de mais de 1,2 milhões de toneladas de CO2 por ano.

Os concelhos afetados pelo SET são: Ribeira de Pena, Boticas, Vila Pouca de Aguiar, Chaves, Valpaços, Montalegre e Cabeceiras de Basto.

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  • António Luis Crespí
    14 jul, 2020 Vila Real 12:33
    Estimados Sres., a perspetiva das coisas tem sempre um peso preponderante no sentido de vermos as realidades. Os efeitos do salto do Tâmega são absolutamente lamentáveis, uma vez que houve um conjunto absurdo de alterações ambientais e patrimoniais, em geral, sem qualquer razão lógica e, portanto, absolutamente insustentáveis. Todo o conjunto de medidas apontadas nestas declarações resultam, no mínimo, cómicas e ridículas. Quem escreve esta mensagem não é uma pessoa alheia ao problema. Conheço este ecossistema e posso garantir que acompanhei o processo desde as suas origens. O erro cometido é enorme e a Iberdrola só pretende retirar benefícios económicos. O resto não passa de fumo e nevoeiro. Muito, mas mesmo muito nevoeiro.