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​Maria de Lurdes Rodrigues. "Manter as crianças em casa significa 30 anos de retrocesso"

20 jun, 2020 - 07:21 • José Pedro Frazão

Antiga Ministra da Educação defende que a escola é uma instituição essencialmente presencial e reconhece que é preciso melhorar a formação de professores para um ambiente letivo com maior utilização de tecnologias.

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A generalização de ensino à distância não é aconselhável, salvo como complemento de actividades presenciais. A opinião é da antiga Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, actual reitora do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, convidada do podcast " Adiante" da Renascença em parceria com a sociedade de advogados Gama Glória. Numa reflexão sobre o futuro da educação pós-pandemia, em conversa com André Júdice Glória, a antiga governante defendeu que a alternativa não é o regresso das crianças às suas casas para terem aulas.

"Poderemos ter que manter as crianças em casa mais uns meses. Isso pode-nos ser exigido. Mas contrario a ideia de que isso é uma visão positiva do mundo futuro. É uma ideia muito negativa. Perderemos muito, as crianças perderão muito. Serão 30 anos de retocesso se viermos a optar por comodismo, conforto, por medo, se viermos a optar por essa situação", afirma Maria de Lurdes Rodrigues no "Adiante".

A antiga titular da pasta sublinha que a escola só cumpre a sua missão se for "funcionalmente diferenciada" para que os jovens possam distinguir que "há um espaço para aprender, outro para divertir, outro para estar com a familia, porque a vida em sociedade organiza-se assim em espaços funcionais". Maria de Lurdes Rodrigues considera "absolutamente crítico e negativo" o uso do ensino à distância nos primeiros anos de escolaridade.

"O ensino à distância é um recurso para fazer chegar conhecimento mais longe e a mais pessoas. Mas não é um substituto da escola e da universidade", insiste a socióloga que preside ao ISCTE. " A escola é um espaço de diferenicação funcional. Foi inventada para estabelecer essa diferença entre a familia, o local de trabalho e o local de lazer. Até hoje passado mais de um século as sociedades não conseguiram inventar outras instituições que substituíssem a escola", complementa na Renascença.

A antiga governante distingue a actual experiência de disseminação de aulas pela televisão do modelo anterior de telescola usado nas décadas passadas.

"A experiência de telescola foi extraordinária no passado no sistema de ensino português. Permitiu o acesso à escola a milhares de crianças, sobretudo meninas que não poderiam nunca frequentar o cilco preparatório. Mas a telescola não se passava na casa dos meninos. Eles deslocavam-se à escola onde estavam uma televisão e um adulto que os acompanhava nesse processo de aprendizagem", salienta Maria de Lurdes Rodrigues no podcast "Adiante".

Computadores não substituem salas de aula

A reitora do ISCTE-IUL defende que "encher as casas das crianças mais pobres de livros, de equipamento não substituirá a escola" embora reconheça que o acesso possa ser melhorado "com infraestruturação com banda larga em todas as regiões do país, com disponibilização de equipamento como tablets e computadores por todas as famílias e com ligações à internet". Admitindo que esta situação se mantenha "ainda durante algum tempo", Maria de Lurdes Rodrigues considera que não é possivel colocar esse cenário como uma aspiração de futuro.

"Se a escola do futuro for a presença das pessoas em casa, estamos a devolver às familias, ricas ou pobres, a responsabilidade de transmissão de conhecimento. E sabemos que a produção e transmissão de conhecimento não se faz no espaço das famílias, mesmo quando se trata de professores universitários, investigadores ou pessoas muito informadas", argumenta a antiga Ministra da Educação.

Maria de Lurdes Rodrigues desafia a ideia de que o futuro é algo indefinido em matéria de políticas públicas. "O futuro será o resultado das decisões e das acções que tomarmos hoje mesmo. O futuro não é algo que nos espera, é algo que construiremos para nós e para as gerações vindouras e que começa hoje e não amanhã", afirma a socióloga.

"Uma das coisas que me fizeram impressão nesta crise foi a forma fácil como se descartou grande parte do conhecimento que já existia, não apenas sobre pandemias mas também outros aspectos da nossa vida. O conhecimento não deve ser descartado. É muito cumulativo, tem uma forma cumulativa de desenvolvimento. É muito mau quando descartamos, ignoramos e procuramos não ver aquilo que já conhecemos", afirma a antiga titular da pasta da Educação.

Mais formação digital para professores

As soluções de emergência adoptadas neste contexto não são soluções de futuro, sublinha a reitora do ISCTE-IUL. Ainda assim a crise pandémica veio revelar " um enorme atraso não apenas no acesso a meios de comunicação e na infraestruturação de todo o país, meios tecnológicos para aceder a toda a informação". Maria de Lurdes Rodrigues lembra que muitas famílias não tinham acesso a tablets e computadores a par de um "défice de produção de conteúdos" sob as mais diversas formas.

"Os conteúdos continuam a ser preferencialmente um manual ou cadernos de exercicios quando hoje há uma grande disponibilidade de meios digitais para apoiar a actividade dos professores e dos pais no ensino. Isso está por fazer. A formação de professores é talvez um dos pontos fracos que a Covid revelou e que precisamos de enfrentar", constata a antiga governante.

Insistindo que o ensino à distância não deve ser um objectivo das universidades e das escolas mas deve apenas ser considerado para conseguir chegar a alunos que estão deslocados ou que estão impedidos de se deslocarem à escola, a socióloga insiste que o lugar dos estudantes e dos professores é na escola.

"Não por acaso na maior parte dos paises a regulamentação do ensino à distância exige que entre 25 a 30 por cento das actividades sejam desenvolvidas presencialmente. Mesmo no ensino à distância organizado, creditado, credenciado, como os cursos de e-learning que proliferam, só estão autorizados a proporcionar cerca de 70 a 75% das suas actividades à distância. Algum sentido há nesta determinação. O sentido é a valorização das actividades presenciais sempre que possível", sustenta Maria de Lurdes Rodrigues

Medidas para o próximo ano lectivo

Como reitora do ISCTE- IUL, a preparação do novo ano lectivo assenta no essencial na actividade presencial.

"Os professores dão aulas não a partir de casa mas a partir da universidade. Depois os alunos podem ir rodando semanalmente, se as dificuldades se mantiverem. Mesmo com estas regras sanitárias, podemos fazer melhor no que respeita à presença dos alunos e dos professores nas escolas. Há muitas soluções que podem ser encontradas", adianta Maria de Lurdes Rodrigues que confessa preocupação com o acolhimento dos alunos que vêm do ensino secundário e que entram pela primeira vez na universidade.

"É um problema sobre o qual estamos a reflectir porque a nossa determinação é proporcionar a esses alunos uma experiência de vida universitária tão completa quanto possível. É evidente que os alunos que estão no segundo ou terceiro anos, mesmo nos primeiros anos de mestrado, têm já uma experiência de vida universitária que não torna tão urgente encontrar soluções para superar a dificuldade da distância. Estou segura que vamos encontrar soluções mistas, se se mantiver este quadro", remata a socóloga que dirige uma das principais faculdades de Lisboa.

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