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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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A eutanásia é ainda mais criticável após a covid-19

19 jun, 2020 • Opinião de Henrique Raposo


A covid-19 funciona com a lógica marcial da natureza: leva os mais velhos e doentes. Através da eutanásia, a sociedade desiste da moral que nos eleva acima deste darwinismo natural; através da eutanásia, a sociedade assume a "razão" do vírus: há vidas frágeis que podem e até devem ser eliminadas.

Porque é que tantos cientistas têm afirmado que a covid-19 é um vírus historicamente “bonzinho”? Porque, ao contrário de outros vírus, a covid-19 tem uma letalidade baixa. A esmagadora maioria dos infeCtados fica assintomático ou com ligeiros sintomas. O vírus ataca sobretudo pessoas que combinam duas fragilidades: a idade muito avançada e doenças crónicas. Dentro da imensa escadaria infernal dos vírus, a covid-19 é assim “bonzinha”, porque, no fundo, vem acelerar a morte de pessoas que já estavam bastante debilitadas e às portas da morte natural. Ao contrário de outros vírus, este dificilmente consegue criar a morte num corpo saudável. Basta olhar para a idade média dos óbitos em Portugal ou Itália (na casa dos 80) e para o seu perfil médico (uma, duas ou mesmo três doenças crónicas). Ou seja, a covid-19 funciona como uma espécie de eutanásia natural que mata os mais velhos e os mais doentes.

Neste contexto em que um vírus mata os mais velhos e os mais doentes, a imposição da eutanásia, que será sempre usada pelos mais velhos e pelos mais doentes, é ainda mais chocante. O que me leva a uma pergunta. Porque é que a civilização que aceita a eutanásia, a morte a pedido, é a civilização que suspende tudo perante um vírus historicamente fraco? Trata-se de uma questão de controlo. Somos uma civilização arrogante, que pretende controlar a própria morte. Nesta perspectiva absolutamente antropocêntrica, a morte é legítima se resultar de um pedido humano. Já a morte natural às mãos de um vírus novo torna-se insuportável. Aliás, estou cada vez mais convencido do seguinte: o pânico que se instalou na sociedade, através do #ficaremcasa, não foi um pânico preocupado com os mais velhos, o grupo de risco. Basta ver o abandono dos lares, a solidão dos velhos e das IPSS aqui e noutros países. Muitos velhos foram objectivamente abandonados pela família, pela sociedade, pelo estado, pelo pânico causado por um facto novo, a covid-19, que colocava em causa a sensação de controlo. Há dois anos, morreram em Portugal 3000 pessoas por gripe, mais 400 devido ao frio. Parámos o país? Não. Fizemos uma grande reflexão sobre a velhice em Portugal? Não. Porquê? Porque a gripe e o frio não eram factores novos, não colocavam em causa a sensação de controlo.

A covid-19 funciona com a lógica marcial da natureza: leva os mais velhos e doentes. Através da eutanásia, a sociedade desiste da moral que nos eleva acima deste darwinismo natural; através da eutanásia, a sociedade assume a "razão" do vírus: há vidas frágeis que podem e até devem ser eliminadas. Lamento, mas avançar com a eutanásia após a devastação física e mental que a covid-19 deixa nos nossos idosos é uma imoralidade histórica.

Para terminar, deixo uma pergunta, que é uma provocação. O que é moralmente mais aberrante? Os 4 mil mortos por covid-19 na Suécia ou as 6 mil eutanásias por ano na Holanda?

Comentários
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  • Pereira Pereira
    19 jul, 2020 18:53
    É ignorância total sobre o tema em destaque comparar qualquer doença que ocorre num organismo humano sem pedir licença, sem "perguntar se pode entrar", sem o consentimento de quem a contrai com a eutanásia.
  • João Lopes
    22 jun, 2020 10:45
    Durante a última campanha eleitoral, os maiores partidos não falaram da eutanásia: morte de seres humanos de saúde muito débil. Foi uma grande traição ao povo e à sociedade portuguesa. Queremos um referendo para que TODOS os portugueses se manifestem, porque com a eutanásia e o suicídio assistido, não se elimina apenas o sofrimento, elimina-se a vida da pessoa que sofre.
  • Vera Costa
    21 jun, 2020 11:33
    Olá Henrique Raposo, então vamos voltar 2000 anos atrás: Jesus Cristo ou Barrabás? a maioria continua a preferir o Barrabás e a crucificar Jesus Cristo! porque se morrermos por acaso estamos com Jesus Cristo, se temos uma doença crónica nós aprendemos a viver com ela porque Deus nos dá coragem e alivia o nosso sacrifício! Se esta doença que apareceu subitamente for própria do século XXI , eu acho que em todos os séculos, as coisas entre as pessoas se repetem! então teremos que viver com realidade esperando a nova vacina que está destinada para este século! enquanto isso para não morrerem também os de média idade (40-50 anos), teremos que ter cuidados ou vamos perder a liberdade?! porque ganhámos liberdade para além dos limites, assim sendo, estamos a tirar a liberdade de outros! se não percebem bem o que eu quero dizer, vou clarificar: se eu ponho os pés num banco de jardim, o outro que vem a seguir não se pode sentar porque lhe sujei o banco; ou fica de pé até morrer de cansaço ou volta para casa porque foi proibido de se sentar! Então, agora existem máscaras, se as usarmos podemos estar todos na rua e nos espaços comerciais, sem atropelos! Se uns não usarem máscara estão a tirar a liberdade de outros que terão que ficar fechados, para não serem contagiados! ou teremos que ter um rótulo colado na testa a dizer 'contagiado'? porque esta doença é matreira, vem devagarinho, instala-se, contagia primeiro e ataca depois até destruir, destrói o 1º e os outros que estiveram junto!.