Tempo
|
José Luís Ramos Pinheiro
Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
A+ / A-

​A pandemia e a eutanásia da consciência

16 jun, 2020 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Falar de eutanásia em Portugal num tempo em que a morte espreita todas as gerações em todo o mundo, roça o “nonsense”.

Numa conjuntura em que os mais velhos se veem (ainda) mais vulneráveis, frágeis e isolados, falar de eutanásia parece masoquismo.

Numa época em que se combate arduamente para preservar a vida, descartar é o verbo errado, no tempo e no espaço.

Numa fase em que se procura - de modo exigente - criar condições para que o sistema de saúde não falhe a ninguém, novos ou velhos, insistir na eutanásia é escolher o caminho fácil que a todos derrota, a começar pelos mais débeis.

Nestes meses em que a prioridade tem sido a defesa da vida, legalizar a morte por eutanásia representa a inversão das prioridades e constituiria um passo lamentável - nos planos político, social e humano.

Num quadro em que a pandemia ameaça a economia e a sobrevivência de pessoas, famílias e empresas, falar de eutanásia remete-nos para uma visão cínica e utilitarista do mundo.

Numa altura em que redescobrimos o contributo inestimável e insubstituível de todas as gerações para repensar a vida em sociedade, falar de eutanásia soa a desperdício.

Nestes dias em que um país como a Holanda reforça a aplicabilidade da eutanásia - mesmo para aqueles que depois se arrependem - falar de eutanásia é ofensivo para os mais elementares direitos da pessoa humana - de qualquer pessoa humana, demente ou saudável.

Num tempo em que a extrema direita ressuscita regimes conhecidos pelas práticas que visavam “aliviar” a sociedade de vidas tidas como um peso, falar de eutanásia é dar a mão a ideias sinistras, ainda que de modo superficial, ligeiro ou mesmo inconsciente.

Nestas semanas em que o racismo e a discriminação em razão da cor da pele voltam, tristemente, a ser notícia, falar de eutanásia é abrir portas a uma sociedade que objetivamente agrava a discriminação, neste caso dos mais velhos e/ou dos mais doentes, convidando-os a uma solução que é tudo menos "limpa".

Quando um conjunto de professores de Direito Público vem chamar a atenção para a inconstitucionalidade das propostas sobre a eutanásia em discussão no parlamento, ninguém tem coragem de abdicar e prescindir?

Saber recuar implica grandeza. Mas não é impossível…

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • António Costa
    18 jun, 2020 Cacém 19:06
    Estranha pandemia que devastou o norte da Itália, e o sul porque não foi devastado do mesmo modo? Os lares, foram também a sede do maior dos problemas. Numa sociedade que advoga a pretensão de escolher a altura em que se morre. Tal Titanic inafundavel, a duração da vida humana estava agora apenas dependente do Homem. Este ser infalível e orgulhoso tinha decidido que só ele através da eutanásia tinha o direito de lhe pôr Fim. A pandemia veio lembrar-nos de quanto pequeninos nós somos.
  • João Lopes
    17 jun, 2020 15:13
    Concordo com JL Ramos Pinheiro: «falar de eutanásia é ofensivo para os mais elementares direitos da pessoa humana - de qualquer pessoa humana, demente ou saudável». Durante a última campanha eleitoral, os maiores partidos não falaram da eutanásia: morte de seres humanos de saúde muito débil. Foi uma grande traição ao povo e à sociedade portuguesa. Queremos um referendo para que TODOS os portugueses se manifestem, porque com a eutanásia e o suicídio assistido, não se elimina apenas o sofrimento, elimina-se a vida da pessoa que sofre.