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Reportagem

Covid-19: ​Regresso à escola em Inglaterra deixa portugueses divididos

25 mai, 2020 - 19:26 • António Fernandes, correspondente em Londres

Escolas reabrem as portas a 1 de junho sem saber se vão ter alunos (ou professores).

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Quando as escolas começaram a fechar por toda a Europa, no Reino Unido crianças e professores continuaram a ir para as aulas até 20 de março, quando os britânicos se mudaram para dentro de portas.

Agora, com os 66 milhões de habitantes ainda maioritariamente confinados, com lojas e restaurantes fechados, uma das primeiras medidas do regresso à normalidade possível é o regresso faseado às aulas.

A 10 de maio, o Governo de Boris Johnson abriu a porta ao regresso das escolas em Inglaterra a partir de 1 de junho. Mas uma vez que os diferentes governos têm autonomia, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales afastaram essa possibilidade no imediato. Mas mesmo dentro de Inglaterra a medida, que inclui apenas alunos de alguns anos considerados de transição, não é obrigatória nem para as escolas nem para os pais.

Ao longo da última semana a pressão sobre o Governo aumentou, tantas foram as escolas e as juntas de freguesia que anunciaram que não vão reabrir, pelo menos para os alunos mais novos que deviam regressar já no dia 1. Outras, que têm estado abertas ao longo destes meses para dar apoio aos filhos de trabalhadores considerados essenciais ou crianças definidas como vulneráveis, não vão aceitar alargar ainda o número de alunos presentes na escola.

Pelo meio, professores, sindicatos e pais esperaram pelo parecer do grupo científico que aconselha o Governo, mas a resposta foi também ambígua. O estudo que o grupo publicou diz que o risco de aumentar o contágio é pequeno, mas não nulo e não se comprometeu em dizer se a reabertura das escolas podia levar a um aumento de casos no Reino Unido.

Os vários sindicatos de professores e profissionais de educação não ficaram satisfeitos e apontaram no mesmo sentido: a resposta científica não é esclarecedora o suficiente sobre se é seguro reabrir as escolas. Paul Whiteman, do sindicato dos diretores de escola NAHT, disse que ainda não há provas de que o regresso seja “uma coisa sensata”.

Mas no domingo, 24 de maio, o primeiro-ministro, Boris Johnson, dissipou as dúvidas e garantiu que o regresso faseado vai avançar, começando dia 1 de junho pelos alunos mais novos. Johnson disse que esta era uma parte vital do plano de desconfinamento, mas reconheceu que muitas escolas não iam reabrir.

O ministro da Educação, Gavin Williamson, disse, entretanto, no programa BBC Breakfast que, uma vez que não sabemos quanto tempo o vírus estará presente, “não podemos ter meses e meses em que as crianças estão sem aprender” e que por isso as escolas devem abrir.

Essa é, de certa forma, a lógica que leva António Mendes, de 44 anos e a residir no Reino Unido desde 2013, e a mulher a decidirem-se pelo regresso da filha Joana, de 11 anos, à escola a partir de 15 de junho, data definida pela escola onde estuda em Saint Ives, perto de Cambridge.

“Ninguém sabe se é a decisão certa ou não”, confessa António que diz estar “consciente que o vírus vai continuar presente nos próximos meses”.

No regresso pesou o facto de Joana, actualmente no 6.º ano, estar num ano de transição - no Reino Unido a divisão é feita entre primária e secundária, sendo que o 6.º ano é o último da primária - o que faz com que seja ainda mais “importante ela conviver com os professores, com os colegas porque a telescola não é a mesma coisa”, concluiu António.

Entre o ficar e o voltar

Muitos pais, no entanto, não se sentem confiantes o suficiente para que os filhos voltem a entrar pela porta da sala de aula.

A maioria dos portugueses residentes em Inglaterra com que a Renascença falou deram conta disso mesmo. Sandra Pinho Lopes é uma delas. Tem 38 anos, quatro filhos, três dos quais a frequentar a escola no Reino Unido e vive em Salford, perto de Manchester, há cinco anos e meio.

Os três filhos, com 5, 11 e 15 anos, estão enquadrados nos anos que vão reabrir em junho. Mas estes três irmãos vão continuar a formar a sua própria turma, porque “eu não consigo deixar de ser contra os meus filhos voltarem à escola neste momento”, diz Sandra, que explica que “a escola dos meus filhos é muito boa e até acredito que eles teriam muitos cuidados, mas não acredito que no caminho para a escola, entre ir e voltar, mais a vida que as pessoas levam em casa seja seguro eles juntarem-se”.

Sandra e o marido decidiram que o regresso à escola não é para já, mas as preocupações que ficam vão para lá da parte letiva “porque eles têm tempo para aprender e acredito que em setembro os professores vão ter planos para recuperar a matéria deste tempo perdido. O que me preocupa mais é o que não podemos fazer em casa, que é a socialização. Não brincam com os amigos, não discutem com os amigos, não abraçam os amigos…”

Ao longo deste tempo a aprendizagem migrou para o online e a casa virou sala de aula. Ainda assim, diz Sandra, as coisas estão a correr bem, apesar do filho mais novo, de cinco anos, ser “um bocado irrequieto”.

Os filhos estão ajustados a esta nova realidade “porque temos um computador para cada um, temos internet, eles vão cumprindo com os trabalhos” e aproveitam o tempo em casa para estimular outro tipo de atividades, como cozinhar ou ajudar com alguma obra em casa. Para Sandra, ainda assim, o mais importante “não é que eles aprendam mais - é que eles estejam bem psicologicamente”.

Também António Mendes diz que a aprendizagem em casa está a correr bem, “mas como eu e a minha mulher estamos a trabalhar a partir de casa não temos muito tempo para apoiá-la como gostaríamos” e as muito distrações em casa fazem com que “seja mais difícil que uma criança consiga manter a concentração”.

Em Suffolk, não muito longe de Cambridge, e por isso não muito longe de António Mendes, está Susana Oliveira, uma professora de instrução primária que vive no Reino Unido há pouco mais de cinco anos.

Tem dois filhos, mas só Daniela de 11 anos está englobada nos alunos que vão agora regressar à escola. Está no ano 6 do sistema inglês e vai voltar às aulas “porque estuda na mesma escola onde eu trabalho por isso em termos práticos os riscos já existem”, diz Susana, mas também porque “o apoio que neste momento os professores estão a dar online vai deixar de ser dado da mesma maneira, porque como é óbvio o professor não pode estar na escola e online ao mesmo tempo.”

E como é que a Daniela vê o regresso? “Ela está muito satisfeita, porque gosta muito da escola. Eu acho que neste momento as crianças já têm muitas saudades da escola. Faz falta. Ninguém está preparado para viver fechado em casa.”

Mas nem por ter uma professora em casa Daniela tem tido mais apoio porque a mãe está a trabalhar. A escola envia trabalhos todos os dias e “ela começa de manhã, faz os trabalhos e tem resultados para confirmar que está a compreender o que está a aprender”.

Eduardo Ribeiro, 35 anos, vive no Reino Unido desde 2014 e é professor de Educação Física numa escola em Hackney, no leste de Londres. Tem um filho de ano e meio que não vai regressar à creche, apesar de ter abertura prevista para junho também. Eduardo está preocupado com o regresso das crianças às escolas porque “as linhas orientadoras do Governo são um pouco ambíguas, ninguém sabe o que é efetivamente seguro, se vamos ter material de proteção ou não, como é que vamos tentar manter o distanciamento social” e teme que isso que isso leve a um aumento de infeções e se esteja a “dar um tiro no pé”, diz.

As aulas em tempos de pandemia

Ao longo destes dois meses a escola de Eduardo Ribeiro permaneceu aberta para os filhos de trabalhadores essenciais ou crianças vulneráveis, apenas sete num universo que anda entre os 300 e os 400 alunos.

A Eduardo calha ir à escola cerca de duas vezes por mês. A maioria do trabalho como professor de Educação Física passou a ser feito sentado: “De repente tivemos de dar aulas online. Sendo a minha disciplina tão prática levantou alguns problemas. Mas temos um sistema onde colocamos trabalhos para os alunos fazerem e temos contacto com os pais também. Estamos a seguir o programa e estou a aproveitar para que os meus alunos aprendam mais sobre a anatomia humana, por exemplo - tudo feito a partir de casa, em frente ao computador.”

Susana Oliveira tem ido à escola quase todos os dias, onde 40 alunos marcam presença diariamente. Até março eram cercam de 400.

De acordo com um documento publicado pelo Governo, durante o mês de maio 231 mil crianças foram para a escola, representando 2,4% do total de alunos que normalmente frequentam as escolas.

Susana explica que se começou por instalar “grandes distâncias, mas neste momento já não conseguimos e se as crianças precisam de alguma coisa vêm ter connosco”. Ainda assim garante que mesmo os mais pequenos tentam manter as distâncias e “os que vão voltar nos primeiros tempos também vão manter a distância. O problema com as crianças que temos lá nesta altura é que já estão tão habituadas que a situação já é banal, estão cansados”.

Distâncias ainda mais importantes de manter quando nas escolas “não é permitido usarmos máscaras”, diz Susana, ainda que estejam disponíveis nas instalações caso alguém revele sintomas.

O caminho incerto do regresso

Falta agora uma semana para que as escolas sejam abertas a um grupo mais alargado de alunos, uma semana em que não há aulas de todo - é semana de “half term”, as férias a meio do período letivo.

Para Eduardo Ribeiro, há ainda muito por definir: “como coordenador do departamento de Educação Física não tenho ainda informação nenhuma sobre como vão ser as aulas, sei que há marcas no chão e que cada professor vai ter 15 alunos”.

Eduardo considera que este é um passo arriscado por parte do Governo e defende que seria melhor manter as coisas como estão até setembro e “só depois abrir as escolas, aliás isto só por si é um termo errado: as escolas estão abertas, têm na mesma alunos, professores, funcionários, tudo. A única diferença é que os restantes alunos estão a aprender a partir de casa e a escola assegurou que os alunos tinham computadores, tinham internet, material para poderem estarem a aprender de casa. Neste momento, não vejo que seja seguro voltar à escola e começar a dar aulas.”

Seguro não necessariamente para si, mas para os outros também porque na escola onde trabalha há “muitas crianças que vivem com os avós, que fazem parte do grupo de risco e nós estamos a enviá-los para a escola e depois contaminar a restante família. Isso não faz sentido.”

Susana Oliveira está preparada para continuar a ir para a escola, acompanhada no caminho pela filha Daniela, e conta à Renascença como têm sido as preparações para lidar com a pandemia numa altura em que o número de alunos pode aumentar de 40 para 90, ainda longe dos 400 que tem habitualmente: “estão a ser preparados os dois metros de distância entre as mesas, ainda que depois em termos práticos possa não ser viável porque basta um se levantar para ir à casa de banho e vai ter de passar próximo dos outros. É impossível mantê-los numa bolha, mas a escola é muito grande há caminhos desenhados para cada grupo de 14 crianças, que é o máximo que as salas têm capacidade para suportar mantendo a distância. O material de trabalho passa a ser da escola e dado aos alunos todos os dias e desinfetado diariamente. E isso eu sei porque tenho estado lá, e neste momento até tenho uma agravante - estou lá com crianças que têm pais que são trabalhadores essenciais e por isso estão mais expostas que as outras.”

Para além disso, há capacidade de manter as crianças em pequenos grupos com um professor agregado a cada grupo. Se houver um caso confirmado de Covid-19 então os restantes membros do grupo entram em quarentena obrigatória.

António Mendes tem sido informado pela escola das medidas que vão ser tomadas para evitar o contágio e diz que, sabendo que para o ano Joana se vai mudar para uma escola secundária com 1.500 alunos, preocupa-o “como é que os alunos se vão adaptar ao novo normal. “Prefiro que isto aconteça gradualmente e que ela se comece a adaptar agora”, sublinha.

Na casa de Sandra Pinho Lopes pouco irá mudar porque a escola garantiu que o processo será semelhante ao que tem sido até agora, porque “eles não têm propriamente aulas online, têm acesso a vídeos, a fichas, a trabalhos em que vão aprendendo e mesmo na internet há recursos, como no YouTube, que nos ajudam se nós pais não nos lembrarmos de uma matéria em que eles precisam de alguma ajuda”.

A ideia de ficarem em casa por mais tempo não tem gerado problemas porque “somos bastante caseiros, temos um jardim com uma pequena horta onde temos batatas e alguns vegetais para crescer, por isso estamos sempre ocupados”.

Nas escolas não são só os alunos que podem não regressar. Também os sindicatos de professores não colocam de parte a hipótese de uma greve caso não sejam cumpridas certas garantias consideradas essenciais para a segurança dos trabalhadores. Um cenário que Eduardo Ribeiro não afasta, reforçando que em nenhum momento “deixámos de trabalhar, se calhar até trabalhámos mais que antes”, mas defende que “não faz sentido pôr a minha vida e a dos outros em risco só por algumas semanas de aulas.” O fim das aulas em Inglaterra está marcado para dia 19 de julho.

Susana Oliveira defende que a escola fez os possíveis para garantir um regresso seguro, mas não sem preocupações porque “riscos há sempre. Não sei se acho bem ou mal, é uma decisão pessoal de cada um”. Ainda assim realça que há crianças “que não estão a ir à escola e também brincam com outras cá fora, ou dão as mãos na rua, portanto também estão em risco. Não há garantias, mas sei que a escola está a fazer tudo para se preparar”.

A apenas uma semana do eventual regresso alargado das aulas, milhões de crianças estão esta semana de férias e podem pôr as aulas online de lado, sem terem a certeza se o regresso ao mundo das aulas presenciais está por dias ou por meses.

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