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Entrevista

CEO da Groundforce: “Deixem voar. Redução de 90% da atividade é insuportável"

22 mai, 2020 - 07:00 • Luís Aresta

O setor da aviação foi dos mais atingidos pela pandemia de Covid-19. A Groundforce tem cerca de 2.300 funcionários em "lay off" e o seu diretor-executivo defende o prolongamento da medida, porque ainda não há luz ao fundo do túnel. Em entrevista à Renascença, Paulo Neto Leite garante que tudo está a ser feito para evitar despedimentos, mas há contratos a termo a ser analisados caso a caso.

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O diretor-executivo da Groundforce Portugal anuncia um saldo negativo nas contas do 1º semestre de 2020. Em entrevista à Renascença, Paulo Neto Leite admite o risco de insolvência de algumas empresas de “handling” e defende, claramente, o prolongamento do regime excecional de “lay-off”.

A Groundforce tenta evitar despedimentos, mas há contratos a termo a ser analisados caso a caso, afirma o gestor. Quanto à situação TAP, remete o tema para os acionistas.

De uma forma geral, que leitura faz deste momento e dos riscos para o setor do “handling” em Portugal, face a esta paralisação quase total no transporte aéreo de passageiros?

Vivemos num momento em que todos estamos à espera que o setor da aviação volte ao seu estado mais próximo do normal. A nossa atividade reduziu substancialmente. Era suposto estar com 220 movimentos por dia no aeroporto de Lisboa; cada movimento corresponde a uma chegada e uma partida. Nesta altura estamos com 13 movimentos o que nos dá uma ideia da redução. Estamos preocupados como é óbvio, mas a olhar para alguns sinais de empresas que estão a retomar, o que é importante.

Existe o risco de não sobrevivência de algumas empresas?

Há e não há; passo a explicar porquê. Acho que há, porque nenhum setor suporta de forma continuada uma redução de mais de 90% da sua atividade; nenhuma empresa está preparada para isso. Por outro lado, este é um setor de suporte da economia nacional. O peso do turismo no PIB [Produto Interno Bruto] andará à volta dos 20% e isto é uma peça-chave para boa parte da economia nacional, portanto, estou certo que serão encontradas medidas para suportar o setor.

E a Groundforce vai sobreviver?

Não vejo nenhuma razão para que não sobreviva. Temos tempos difíceis pela frente, como é óbvio, já os passamos agora, mas estou certo que o regulador e o Governo vão encontrar medidas para permitir que o setor continue a suportar a economia. Trata-se de um setor muito particular. Não desmerecendo outras atividades, este é um setor em que, da noite para o dia, não arranjamos 150 repositores para abrir uma loja. Por questão de segurança e de procedimentos, para poder desempenhar as suas funções um trabalhador tem mês e meio de formação. É um setor que tem que ser olhado numa lógica de médio e longo prazo, porque, se tivermos uma redução muito significativa da nossa força de trabalho, a recuperação não será imediata e pode levar bastante tempo.

À data de hoje, quantos são os trabalhadores em “lay-off” e quantos estão em atividade plena nos aeroportos?

Temos neste momento cerca de 2.300 trabalhadores em “lay-off” e 324 pessoas estão a trabalhar nas operações, a garantir os poucos voos que existem e que têm sido crescentes. Todos os dias vão aparecendo voos novos.

Até ao final de junho haverá trabalhadores em “lay-off” na Groundforce?

Estamos ainda à espera da movimentação do mês de junho, mas ficará aquém do que se pode considerar um cenário animador. Estamos a avaliar, mas sim, esse é um cenário que estamos a equacionar.

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Acha que Governo deve prolongar o regime simplificado de “lay-off”, como já foi implicitamente admitido pelo Presidente da República?

Eu não sei se o deve fazer para todos os setores ou não; cada qual deve avaliar. Mas como é óbvio, o setor da aviação e todos os setores satélites no ecossistema têm pela frente uma redução de mais de 90% da sua atividade face ao esperado. Portanto, é mais do que normal e razoável que seja prolongado para que permita retomar uma atividade normal.

Certamente, a Groundforce já tem um “plano B” laboral. Esse plano prevê a dispensa de trabalhadores?

Não é uma questão de “plano B”. Pela especificidade do setor, pela sua relevância na economia nacional, acredito que serão encontradas soluções para preservar o maior número de postos de trabalho.

Mas está em condições de garantir que não haverá despedimentos?

Estamos a fazer tudo para que não haja e crentes na retoma, mas há um ponto fundamental: as fronteiras têm que ser abertas. Neste momento, temos voos para muitas cidades, mas só podem viajar cidadãos residentes. Os únicos destinos que não impõem restrições a passageiros são Londres, Amesterdão e Viena. Isto tem que acabar; temos que encontrar o espaço e a forma para devolver a confiança e volte a haver movimentos. Os que há são insuficientes e precisamos de mais movimentos para setor começar a dinamizar-se.

Permita-me que insista nas questões laborais. Há contratos a termo na Groundforce que não serão renovados?

Cada caso é um caso e existem limitações legais que decorrem do regime de “lay-off”. Estamos a ver caso a caso, com a Segurança Social; estamos a analisar, mas repare que o aeroporto do Porto, que habitualmente tem 60 movimentos diários, está com 16 movimentos semanais. Nós estamos a reinventar-nos e a ver como nos podemos organizar para fazer face a esta quebra tão grande de volume de trabalho e de receitas.

Certamente já tem na sua posse os resultados do mês de abril. Qual foi o valor de faturação e que significado tem esse valor quando comparado com a faturação prevista antes da crise pandémica?

Nós tínhamos uma previsão de 13,3 milhões de euros em abril e a faturação foi de cerca de 400 mil euros.

O primeiro semestre será, previsivelmente, para fechar com saldo negativo, podemos dizer assim…

Não é previsivelmente, será de certeza com saldo negativo, porque desde março fomos severamente afetados. Janeiro e fevereiro são meses muito fracos no setor, embora tenham ficado acima do planeado. É em março e abril que o setor recupera movimento e, como é óbvio, o primeiro semestre será fortemente negativo para a empresa.

E o valor faturado foi recebido na totalidade, há atrasos nos pagamentos, ou até receio de não pagamento de serviços prestados?

É um valor que estamos a gerir e não há qualquer questão quanto a isso. Acho que todo o setor está a ser bastante solidário e entende que esta é uma altura em que todos temos que dar o nosso melhor. O que é crítico aqui é que o valor da faturação está substancialmente abaixo do que estava planeado e dos nossos custos.

A Groundforce também tem os seus próprios fornecedores. Até que ponto tem conseguido assumir esses compromissos?

Temos conseguido fazê-lo na medida do possível; não temos qualquer questão nessa matéria.

A renegociação das rendas que a Groundforce paga à ANA – Aeroportos de Portugal já está a está a ser feita?

O regulador chamou a si algumas questões que têm a ver com pacotes do setor e eu entendo que desse pacote farão parte algumas questões de negociação com a própria ANA. Aguardamos o que o Governo e o regulador podem fazer para ajudar o setor. Pela nossa parte estamos a dar o melhor para garantir que continuamos a operar a toda a força, quando tudo isto retomar. A ANA e as outras empresas também estarão a fazer o seu papel.

De uma forma mais geral, as propostas que a Groundforce apresentou à Autoridade Nacional de Aviação Civil já obtiveram alguma resposta? Pode concretizar um pouco mais sobre o conteúdo dessas propostas?

Não, ainda não obtivemos qualquer resposta. Algumas são questões muito específicas do setor, mas têm essencialmente a ver com o aliviar da tesouraria e diferimento de pagamentos. Mas também a ver com alguma razoabilidade nas cobranças por parte dos donos das infraestruturas aeroportuárias. Há custos que tenho com parques de estacionamento e espaços nos aeroportos que não estou a ocupar. Todos temos que ser chamados a contribuir para uma solução para o setor.

Há poucas semanas, o PCP propôs na Assembleia da República a recuperação do controlo público da Groundforce, defendendo que todos os apoios públicos a fundo perdido, necessários à amortização dos impactos da paragem forçada na atividade, fossem convertidos em capital social do Estado. No fundo, uma nacionalização. Como reage a esta proposta?

Sou um executivo da empresa e não tenho que reagir a questões que são do foro dos acionistas. Não tenho nenhum comentário a fazer quanto a esse aspeto.

Se o Estado reforçar a posição acionista na TAP, indiretamente estará a reforçar a presença na Groundforce…

Não sei em que moldes estão a ser pensadas as questões para a TAP. Eu olho para a TAP como para todos os meus clientes. Todos os dias há notícias sobre ajudas que os Estados e a União Europeia estão a dar às empresas do setor aéreo. Todas elas, a Lufthansa, a Britsh Airways, a Iberia, Airfrance, KLM. Olho para elas como a esperança de que estamos a resolver o setor. Há uma coisa que lhe garanto; nós não vamos voltar a viajar para Nova Iorque nem para São Paulo de barco. O setor da aviação vai continuar a existir e estamos a lutar por isso.

Mas a situação na TAP, com tudo quanto se tem ouvido dizer, designadamente por diferentes membros do Governo, está a condicionar o futuro da Groundforce, nomeadamente ao nível do investimento?

Não tenho que comentar a situação na TAP. O que condiciona muito mais as opções da Groundforce é o condicionamento dos espaços aéreos em cada país. Para mim, é a maior questão. Enquanto não for permitido voar para Espanha ou para os Estados Unidos, é o mesmo que não termos voos nem passageiros. Deixem-nos voar. Sei que todos os países estão a perceber isso e é a nossa maior preocupação.

Estaria disponível para se manter aos comandos da Groundforce na eventualidade de a empresa passar para o controlo do Estado?

Como é óbvio, não lhe vou responder a essa questão. É um tema que eu vejo em cada momento e com os acionistas. Sou um executivo, estou a fazer o meu trabalho, a servir a empresa e tenho muito orgulho em aqui estar. Somos uma empresa com uma massa humana muito forte e muito orgulhosa do trabalho feito até agora.

Mas, em tese, vê a Groundforce mais como empresa privada do que pública?

É um tema que não me diz respeito. Tenho acionistas e cabe-lhes tomar essas decisões. Acho que a empresa tem feito um percurso notável nos últimos anos. Tem uma performance muito boa que lhe está a permitir ultrapassar este momento com alguma serenidade e com decisões ponderadas; acho que isso é um excelente cenário, reflexo do trabalho que está a ser feito.

Há alguns meses a Groundforce apresentou uma queixa-crime contra elementos da comissão de trabalhadores, depois de esta ter acusado a empresa de agir de forma persecutória contra uma alegada lista de grevistas. O que me pode dizer sobre esse processo?

O processo está a seguir os seus trâmites normais. Nós sentimos que não estavam a ser respeitadas algumas questões e tomámos essa medida, mas não comento processos que se estão a desenrolar e seguem o seu rumo normal.

As indefinições sobre o aeroporto do Montijo, de que forma o estão a preocupar?

A minha grande preocupação neste momento é o aeroporto Humberto Delgado estar vazio. É um aeroporto em que o número de voos é muito reduzido e é a preocupação que me toma grande parte do tempo nesta altura.

Mas a Groundforce quer estar presente nessa nova infraestrutura aeroportuária…

Já o afirmámos, mas a nossa preocupação maior agora é saber como e quando vamos retomar a atividade normal. Esse é o tema que preenche não apenas a Groundforce, mas todas as empresas que gravitam à volta do setor aeroportuário.

Voltando ao tema da retoma da atividade. Como está a ser planeada? Tem falado com as companhias aéreas?

Tenho falado todos os dias com várias companhias aéreas. Nós temos que fazer planeamento dos movimentos, por várias questões. Temos demonstrado toda a disponibilidade para nos adaptarmos aos planos das companhias e vemos como muito positivo o retomar já, por parte de algumas delas.

A Lufthansa reiniciou esta semana voos no Porto, a Swiss já tinha retomado, a própria TAP voltou a voar para o Porto. A Air France diz que voltará a voar para o Porto em junho. E nós estamos a planear com as companhias esse retomar dos voos.

Sobre esse esboço de retoma, que mais pode dizer?

É uma retoma muito pequenina. Sempre disse que uma das grandes questões que iriamos ter seria a da velocidade da retoma. Posso dizer-lhe que, até ao fim do mês de maio, a programação de algumas companhias aponta para voos diários. Para além da TAP, a KLM, a Air France e a Lufthansa têm já sete voos por semana, mas tudo isto é muito longe do número de voos que existiam até agora. Tudo vai depender da liberalização do espaço aéreo e dos movimentos dos passageiros.

Será possível, que no pico do verão, em finais de julho e agosto, possamos ter a Groundforce ocupada a 75% da sua capacidade de prestação de serviços ou este é um cenário demasiado otimista?

Gostava de poder telefonar-lhe na altura para lhe dizer que eu, afinal, estava enganado e você tinha razão, mas acho esse cenário demasiado otimista. 75%, não me parece, de todo. Não nos podemos esquecer que o aeroporto de Lisboa, por exemplo, tem um grande peso nos passageiros em transferência. Para haver passageiros em transferência significa que temos voos a “fullpower” para o continente americano. Esse era o grande fluxo de passageiros em trânsito que passavam pelo aeroporto de Lisboa; para retomar a atividade tem que existir isso e, até agora, viajar para os Estados Unidos só é permitido a cidadãos ou residentes. Enquanto não normalizarmos os fluxos de pessoas, muito dificilmente teremos uma recuperação a 75%.

Tem algum número em mente do que poderá ser “um bom resultado”, daqui a dois ou três meses?

Talvez as companhias aéreas possam dar essa resposta. Não está ao meu alcance fazer uma campanha para chamar mais voos para Lisboa. Sei que o próprio Turismo de Portugal está a fazer um trabalho junto das companhias e de todos. Acho que estamos a garantir que, o que for possível, vamos ter, mas não há nenhum número mágico nem nenhuma data mágica.


Paulo Neto Leite é engenheiro químico de formação, com larga experiência no setor dos serviços e consultoria. Iniciou a carreira na Andersen Consulting, tendo passado por empresas como a Sumolis e Portugal Telecom. Esteve sete anos no Brasil à frente de vários negócios, com destaque para a DEDIC GPTI, empresa de BPO Integrado com 26.000 colaboradores.

É desde 1 de julho de 2017 o presidente executivo da Groundforce Portugal, empresa detida maioritariamente pela ‘PASOGAL SGPS’ (50,1%). Os outros 49,9% pertencem à ‘TAP SGPS’.

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  • José Lopes
    24 mai, 2020 Portela 05:04
    "Não sei em que moldes estão a ser pensadas as questões para a TAP. Eu olho para a TAP como para todos os meus clientes". Afirmação no texto da entrevista a Paulo Neto Leite. O sector da aviação comercial incluindo o Handling, é demasiado importante para a estratégia de desenvolvimento nacional, para que um mero CEO de um qualquer testa de ferro dos interesses privados, venha a terreiro apropriar-se da clientela que constitui o movimento de pessoas e bens na área do transporte aéreo, deste canto milenar. A Paulo Leite não compete garantir coisíssima nenhuma nesta matéria, nem como o garante de que os trabalhadores do Handling com ou sem vinculo precário, possam resistir ao vírus, e caírem mortos no desemprego. O transporte de pessoas e bens aqui em território Luso, não depende de um qualquer papagaio de serviço, mas sim do estado milenar que somos. Sugiro até que este CEO vá dando corda aos sapatos lá para as bandas da empresa Urbanos e se prepare para conduzir uns camiões de transporte de mercadorias, mas sempre debaixo de olho, não vá pensar que aquilo é dele.
  • Jose Sa
    22 mai, 2020 Lisboa 10:52
    Talvez fosse bom ouvir a voz dos trabalhadores, nomeadamente a da Comissão de Trabalhadores que é referida na reportagem. Os patrões pagam a agências de comunicação, para gerir a sua imagem e garantir que a sua propaganda é divulgada. Já os trabalhadores precisam que a imprensa vá ao seu encontro para que se divulgue o outro lado da moeda.