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Covid-19 mudou rotina de doentes com cancro. “Fazer tratamento oncológico a doentes infetados é ameaçar-lhes a vida”

11 mai, 2020 - 16:21 • Liliana Carona

Por estes dias, os doentes seguidos no IPO de Coimbra chegam ao hospital e são encaminhados para um dos Postos de Atendimento Prévio, em tendas montadas à entrada, para despistar sintomas de Covid-19. Na semana em que vão fazer tratamentos, os doentes assintomáticos têm de fazer duas deslocações: uma para o rastreio à Covid-19, outra para o tratamento ao cancro. A pandemia veio mudar as suas rotinas e também a dos profissionais que os acompanham.

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Rotina dos doentes oncológicos, e tudo a Covid-19 mudou. Reportagem da jornalista Liliana Carona
Rotina dos doentes oncológicos, e tudo a Covid-19 mudou. Reportagem da jornalista Liliana Carona
Hospital de dia do IPO de Coimbra atende, em média, 100 utentes por dia. Clique na imagem para ouvir a reportagem

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Chegam antes das 8h da manhã ao Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra e fazem fila, cumprindo o distanciamento de dois metros, para entrar numa das duas “tendas” montadas logo à entrada. São os Postos de Atendimento Prévio, onde acaba de chegar uma ambulância, que transporta Celeste João, 82 anos, da Marinha Grande. Veio fazer a avaliação aos sintomas de Covid-19.

“Bom dia, é nossa doente? Tem o cartão consigo?” Celeste mostra dois cartões, um deles o passaporte do Plano de Contingência Institucional – Covid-19, que acumula os carimbos de todas as vezes que tem de fazer tratamentos; o outro é o cartão de utente. A enfermeira prossegue: "Posso medir-lhe a temperatura? Tem tido febre? E tosse e dores de cabeça, falta de ar?” Celeste responde que não. Já tem mais um carimbo no passaporte e segue para as análises, depois consulta médica e tratamento de quimioterapia no Hospital de Dia.

Hoje em dia, a maioria dos acompanhantes dos doentes oncológicos seguidos no IPO de Coimbra espera no exterior. Como os restantes, Celeste João não pode entrar acompanhada, mas também não tem companhia. Fica ao cuidado da enfermeira Teresa Almeida, de 38 anos, que lhe pergunta se vive sozinha. "Não tenho ninguém", responde Celeste. "A minha filha está na Suíça e o meu filho também não pode, não tem vagar, que tem uma oficina e tem de trabalhar." Diagnosticada com cancro de mama, está prestes a completar a sétima sessão de tratamento.

Sob os apitos das bombas de infusão, os enfermeiros olham atentos para os doentes sentados nos sofás ou deitados em camas, cada um separado do outro por biombos. A Covid-19 veio alterar as rotinas dos doentes, mas também as destes profissionais.

"Estamos sempre com a viseira e com a máscara e há doentes que não nos reconhecem", conta Teresa Almeida à Renascença. "Perguntam-nos o nome para saber quem está a cuidar deles. Temos mais trabalho, com as equipas divididas." Ao seu lado, Carlos Góis, enfermeiro gestor da oncologia médica do IPO de Coimbra, anui.

"Sempre tivemos carência de pessoal e a Covid-19 não ajuda nada"

O serviço de oncologia médica tem vários setores, das consultas ao internamento, passando pelo Hospital de Dia, onde trabalham 19 enfermeiros. “Aqui no Hospital de Dia faz-se o tratamento oncológico e depois a pessoa vai embora para casa. Funcionamos até às 20h, com um movimento de 100 doentes diariamente, em 22 cadeirões e seis camas, onde os enfermeiros são poucos", admite à Renascença Carlos Góis, de 57 anos. Há 37 anos que ali trabalha.

“Isto não é fácil. Mesmo quando dizem que as pessoas são jovens e aguentam [a Covid-19], pode haver lesões. Nós vivemos desde há muito tempo com falta de pessoal, a nossa atividade sempre foi muito intensa. Sempre tivemos carência de pessoal e esta situação da Covid-19 não ajuda em nada”, refere. O serviço que gere "está sempre lotado, sempre cheio, não é fácil”, adianta o enfermeiro.

Sobre a figura do acompanhante, que na maioria dos casos deixou de existir por causa da pandemia, Carlos diz que "é muito importante perceber a situação atual" e apostar na "educação, no ensino, para envolver o cuidador principal". Esse aspeto, aponta, "ficou em falta, mas atendendo ao risco, mais vale manter essa dificuldade".

O enfermeiro reconhece que "ter a pessoa ao lado dá um apoio muito grande" face a uma doença, o cancro que também tem "um peso muito grande", mas este "é um tempo único, muito difícil, de crise, as mudanças acontecem com uma rapidez incrível e nós temos de resolver isso de um dia para o outro, o que tem implicações nas famílias e nas pessoas e traz um desgaste imenso".

Apesar de tudo, Carlos Góis está habituado às mudanças. A área da oncologia está sempre em constante atualização, confidencia, o que é algo ao mesmo tempo aliciante e desafiante. "Uma pessoa tem de estar sempre a investir no conhecimento", conclui, acrescentando que as novas terapêuticas têm trazido uma renovada esperança aos doentes com cancro.

IPO disponibiliza quartos de banho aos acompanhantes, que agora ficam na rua à espera

A situação da pandemia obriga José Quitério, de 58 anos e há dois anos e meio em tratamento a um cancro de pulmão, a deixar a mulher à espera no carro, nas duas vezes por semana em que tem de se deslocar da Marinha Grande até Coimbra, uma para o rastreio à Covid-19, a outra, dois dias depois, para o tratamento oncológico. “É uma despesa a dobrar vir cá duas vezes, mas podia vir de ambulância", desabafa em conversa com a Renascença. "Custa mais fazer o teste da Covid-19 do que vir cá ao Hospital de Dia. Eu estou sempre disponível. Se viesse em ambulância era mais chato, tinha de esperar pelos outros, assim vou e venho às horas que entendo.”

Casado há mais de 30 anos, José Quitério está mais preocupado com a mulher do que consigo. “Faz diferença à minha esposa que está lá fora à minha espera e não tem um estabelecimento aberto, para por exemplo ir ao quarto de banho”, diz à Renascença. Não sabe que, face à pandemia, o IPO de Coimbra passou recentemente a permitir a entrada dos acompanhantes para idas à casa de banho.

Na instituição tenta-se ao máximo evitar que haja circulação excessiva de pessoas. Os acompanhantes ficam na rua, exceto em circunstâncias excecionais. “Sempre que entendemos que a pessoa que vem à consulta não consegue captar toda a informação na consulta ou que haja alterações de mobilidade, aí virá sempre acompanhada”, assegura à Renascença Gabriela Sousa, diretora do serviço de oncologia médica no IPO de Coimbra.

Projeto-piloto para não obrigar doentes a fazer centenas de quilómetros duas vezes por semana

As rotinas estão desalinhadas por causa da pandemia, mas o IPO de Coimbra tem já em marcha um projeto-piloto para colmatar algumas dessas mudanças. Como explica Gabriela Sousa, o objetivo desse projeto, em parceria com as Administrações Regionais de Saúde (ARS) e já em fase de implementação, é conseguir que "os doentes não façam 200 ou 300 quilómetros para fazer um teste e tenham de regressar dois dias depois para fazer o tratamento".

Oncologista de formação, Gabriela Sousa está há 25 anos no IPO de Coimbra. "Bem-vindos a esta casa, ao piso 3", diz ao receber a Renascença. "Temos sempre muito trabalho, o expectável, este serviço está sempre em grande atividade", confidencia. Não esconde, no entanto, a surpresa causada por esta pandemia. "Tudo isto aconteceu muito rapidamente, tivemos de operacionalizar novas formas de funcionamento e, neste momento, já dispomos de uma plataforma eletrónica, em fase de implementação, que nos permite fazer o pedido de teste, para que o agendamento possa ser feito nas áreas de residência", explica a diretora do serviço de oncologia médica.

Será um passo na direção certa, embora Gabriela Sousa não tenha dúvidas de que "a principal alteração foi o circuito dos doentes na instituição, à entrada, onde são avaliados, para ver se têm alguns sintomas que nos possam fazer suspeitar de Covid-19". Nos tais postos de atendimento prévio, é feito aos doentes "um mini questionário e são recolhidos alguns dados epidemiológicos. Se estiver tudo bem, o doente acede às instalações sempre com o equipamento de proteção individual".

É já do senso comum que qualquer pessoa pode aparentar estar bem e, no entanto, estar infetada com Covid-19. "É por isso que fazemos rastreios aos assintomáticos dois dias antes de fazerem o tratamento no Hospital de Dia", explica a médica oncologista, com a ressalva de que nem todos os doentes têm de fazer esse rastreio. "Só estamos a fazê-lo aos doentes que estão a fazer tratamento com fármacos que alteram a sua capacidade imune, que os expõem a um risco acrescido. Fazem a avaliação clínica no dia do rastreio. Se estiver tudo bem, validamos o tratamento dois dias depois. São todos doentes em quimioterapia com potencial de alteração do seu sistema imunitário." Por dia, remata Gabriela Sousa, são "entre 40 a 50 doentes".

O que acontece quando um doente oncológico testa positivo para a Covid-19?

Na enfermaria tivemos dois casos", confidencia a diretora do serviço de oncologia médica do IPO de Coimbra. As duas pessoas, uma de Aveiro, outra da Guarda, "foram encaminhados para unidades dedicadas à Covid-19 e interromperam o tratamento oncológico, porque fazer tratamento oncológico a um doente com Covid-19 é ameaçar-lhe gravemente a vida", explica.

"Todos os doentes oncológicos são doentes que estão no grupo de risco, porque estão a fazer terapêuticas que os imunodeprimem. Com pessoas com mais comorbidades tentamos alterar a periodicidade de alguns tratamentos para proteção dos doentes, reduzindo o número de vindas ao necessário. Vimos outros países como Itália e Espanha e tivemos muitos ensinamentos. O que os colegas reportavam na área da oncologia era dramático, de doentes infetados a fazer tratamento ou nos pós-operatórios, morriam todos, era dramático", repete Gabriela Sousa. "E por isso mesmo tentamos manter o hospital limpo de Covid-19, no sentido de proteger os doentes.”

A Covid-19 obrigou a uma reorganização profunda a todos os níveis, reconhece a médica, e “sendo este um serviço que presta cuidados inadiáveis aos doentes, em que do tratamento depende a sua vida, exigiu da parte das equipas um esforço brutal".

Nesse contexto, há uma preocupação em proteger os doentes mas também os profissionais de saúde. "Dividimos o serviço em duas equipas, que não se cruzam em nenhuma circunstância e em menos de uma semana montámos um serviço organizado em espelho, com profissionais no terreno que garantem a atividade assistencial, e metade do serviço em teletrabalho, em videochamada, e só com esta organização conseguimos manter toda a atividade inadiável, todos os tratamentos ativos e o Hospital de Dia sempre a funcionar”, realça Gabriela, desvendando outros pormenores que mudaram a rotina dos profissionais de saúde. “Chegávamos cá com a nossa roupa, fazíamos o trajeto habitual e hoje não é assim. Tivemos de arranjar locais onde as pessoas se equipem e tomem banho, é mais grave o desequipar que o equipar, os profissionais de saúde infetam-se a desequiparem-se.”

E no futuro como será? “Eu acho que será reposta quase a normalidade quando tivermos uma vacina, até lá são planos quinzenais de funcionamento na tentativa de recuperar a normalidade, mas não sabemos como será… sendo que a partir do dia 1 de junho vamos recuperar as consultas que temos vindo a fazer em teleconsulta. No doente oncológico não podemos saber só se está assintomático ou não, precisamos de por a mão, fazer exame objetivo e controlo analítico”, sublinha a diretora do serviço de oncologia médica no IPO de Coimbra, que se orgulha de poder afirmar que “não há nenhuma atividade atrasada, toda a atividade do serviço inadiável foi cumprida a 100%, as consultas de primeira vez, inícios de tratamento, não temos lista de espera. Fizemos consultas não presenciais. Fizemos um enorme esforço que foi acolher cá o Hospital de Dia, da Figueira da Foz, que estava incluído numa área que poderia crescer como enfermaria Covid-19 e solicitaram o apoio do IPO e criámos um espaço e circuito próprio e temo-los cá um dia por semana, desde o dia 14 de abril”, declara Gabriela Sousa, diretora do serviço de oncologia médica no IPO de Coimbra.

Celeste João já fez o tratamento e aguarda na sala de espera o regresso para a Marinha Grande. Não terá ninguém em casa, mas aos 82 anos, diagnosticada com cancro da mama e depois da sétima sessão de quimioterapia ainda arranja forças na voz para dizer que se sente bem. “Estou impecável, agora é esperar pelo bombeiro que me vem buscar mais daqui a um bocado” …

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