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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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Efemérides

29 abr, 2020 • Opinião de José Miguel Sardica


O 25 de abril de 1974 português não tem nas páginas da história internacional a ressonância de Lenine ou de Hitler, embora tenha tido, como assinalam os teóricos das vagas de democratização, um papel pioneiro no fenómeno liberalizador que percorreu o mundo dos meados dos anos 1970 (Portugal, Grécia e Espanha) ao final dos anos 1980 (as revoluções no Leste, na Alemanha e na URSS).

Portugal, a Rússia e a Alemanha têm por estes dias alguma coisa em comum. E não é (só) a pandemia da Covid-19 e a guerra dos números e das expetativas que cada um desses países trava com o vírus. Os três recordam diferentes efemérides dos seus próprios passados – Portugal, os 46 anos da revolução de abril de 1974, a Rússia, os 150 anos do nascimento de Lenine, e a Alemanha, os 75 anos da morte de Hitler. São datas ou factos completamente diferentes entre si e só a efeméride portuguesa é digna de celebração festiva. Mas também as outras duas devem ser assinaladas.

Na Rússia, o confinamento abrandou o suficiente para que os nostálgicos do poder soviético marchassem para o mausoléu de Lenine, na Praça Vermelha, para prestar tributo à múmia ali exposta (literalmente!), recordando o dia, 22 de abril de 1870, em que nasceu o futuro líder dos Bolcheviques e da Revolução de Outubro, cujo mais palpável resultado foi a substituição da autocracia czarista pelo totalitarismo da futura URSS. Lenine precisa de ser lembrado para que o mundo não esqueça os horrores que a ditadura ideológica de um partido pôde realizar em nome de uma suposta e mirífica igualdade e justiça sociais que no Leste nunca existiram.

Por cá, o PCP evocou a figura no Avante!, reafirmando-se “na esteira de Lenine”, homenageando essa “figura excecional”, a quem devemos (acham eles) “históricas conquistas civilizacionais”. E nem faltou o esdrúxulo argumento de que Lenine tem sempre razão, porque o “atual surto epidémico mundial” prova “o caráter desumano do capitalismo”!

Na Alemanha, onde a pandemia obrigou a remeter para o mundo virtual a celebração da libertação dos campos de concentração de Sachsenhausen, Dachau ou Bergen-Belsen, o 75.º aniversário do suicídio de Hitler no bunker da Chancelaria de Berlim, no final da II Guerra, a 30 de abril de 1945, não vai merecer, amanhã, mais do que anódinas notas em alguma imprensa e poucas referências académicas. O horror do que se recorda a propósito de Hitler inibe a revisitação. Ainda assim, é útil lembrar a efeméride, porque os extremismos xenófobos direitistas e as tentações ditatoriais estão hoje infelizmente despertos. Em Berlim não há mausoléus e o quarteirão da velha Chancelaria nazi é terra queimada. Mas a história não se apaga e é civicamente útil para sublinhar que caminhos não devem mais ser seguidos.

O 25 de abril de 1974 português não tem nas páginas da história internacional a ressonância de Lenine ou de Hitler, embora tenha tido, como assinalam os teóricos das vagas de democratização, um papel pioneiro no fenómeno liberalizador que percorreu o mundo dos meados dos anos 1970 (Portugal, Grécia e Espanha) ao final dos anos 1980 (as revoluções no Leste, na Alemanha e na URSS).

Por cá, a celebração esquece-se sempre desta importante inserção internacional e repete por norma o ritual da cerimónia na Assembleia da República, com os previsíveis discursos das cassetes partidárias e do Presidente, sobre cumprir abril, renovar abril ou defender abril, porque somos todos abril, embora, de ano para ano, em ladainhas que parecem disputas infantis, uns queiram ser mais donos de abril do que outros. Poucos capítulos da história portuguesa merecem, aliás, uma tão completa reanálise quanto o da revolução de 1974.

A polémica sobre se a comemoração deste ano deveria ter seguido, ou não, o figurino que seguiu, com um parlamento a terço de gás, meio envergonhado, fará o que se passou ser lembrado como o “Abril do Covid”. Como desde há anos, nunca se aproveita a data para realmente se pensar para lá da conjuntura, para o que têm sido estes 46 anos e para o que devem, ou podem, ser os próximos.

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