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Pandemia de Covid-19

Histórias de uma médica a combater a Covid-19: “É magnífico quando os doentes acordam"

07 abr, 2020 - 08:00 • Tiago Palma

Margarida Tavares é médica infecciologista no Centro Hospitalar de São João, no Porto. De lá, da linha da frente na luta contra a Covid-19, “onde nem sempre tudo é perfeito”, continua a entusiasmar-se diariamente com histórias de sucesso e de recuperação. Perante a morte, prefere dizer que o sofrimento foi "aliviado" e que aqueles que partiram, acometidos pelo coronavírus, conseguiram despedir-se.

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Covid-19. Histórias de afeto (mas também de adeus) num hospital
Margarida Tavares é médica infecciologista no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto. Clique para ver o vídeo

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O trabalho é exaustivo, “ninguém está preparado para sofrer um embate destes", uma vez que os hospitais são dimensionados para o dia-a-dia, “não são dimensionadas para uma catástrofe eventual que um dia pode acontecer”. Ainda assim, o que Margarida Tavares transporta no rosto e na voz é o entusiamo de “uma experiência inesquecível, marcante”.

E o entusiamo não esmorece, antes sobeja, quando lhe chega, na volta do correio, ao Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar de São João, a gratidão daqueles que tentou ajudar e que consigo ultrapassaram a infeção pelo novo coronavírus e regressaram a casa, à vida (possível) de todos os dias.

“Recordo-me de um paciente, dos primeiros que tivemos, que nos escreveu uma carta lindíssima, absolutamente ternurenta, onde falou precisamente sobre como admirou a forma como todos os profissionais, apesar da distância que cria o isolamento, conseguiram comunicar com ele e conseguiram transmitir-lhe carinho, confiança, conforto e competência", conta a infecciologista em entrevista à Renascença. "O lado humano também importa. Os cuidados a um doente passam por muitas coisas, não só o tratamento farmacológico, mas também todos estes gestos, que são absolutamente fundamentais.”

Mas como é que transmite tanto, cada gesto, entre isolamento, máscaras, luvas, barreiras emocionais aparentemente intransponíveis?

Margarida Tavares explica: “Obviamente que há uma barreira. O doente tem uma doença que é transmissível e, portanto, tem de estar em isolamento. E isso, só por si, significa um desafio enorme à comunicação entre toda a gente. Além disso, nós vestimo-nos com equipamentos que são uma barreira enorme na comunicação. Por exemplo, eles não veem a nossa boca, mal veem os nossos olhos. Tudo isto dificulta imenso. Mas nós tentamos suprir essas necessidades com o diálogo, com o carinho – mesmo através de luvas. Isso é muito importante e acho que não há nada que o impeça. Mesmo nos cuidados intensivos. Sim, é verdade que muitas vezes os doentes são sedados, mas depois acordam. E é um momento magnífico quando eles acordam.”

Outra história de recuperação vem à memória da médica, precisamente nos cuidados intensivos, “onde nem sempre tudo é perfeito, porque estamos numa situação de grande dificuldade” – mas onde Margarida garante que, quando felizes, as histórias que lá se vivem são “experiências absolutamente inesquecíveis”.

“Também me recordo de um doente que nos chegou, do primeiro doente que tivemos entubado, um rapaz ainda jovem que rapidamente evoluiu para uma situação complexa do ponto de vista respiratório e que teve que ser ventilado invasivamente. Foi extubado há alguns dias e já está em casa. Ele também seguramente terá recordações difíceis. Mas criam-se laços nesta relação médico-doente, não há barreiras possíveis, nem o ventilador, nem o equipamento de proteção individual. Tenho a certeza que nós, profissionais, vamos guardar este momento como um momento de profunda partilha e de profundo crescimento. Mas também os nossos doentes têm de certeza, e espero que todos eles tenham, a melhor recordação, mesmo em momentos mais difíceis”, explica.

“Tivemos dois meses para pensar qual seria a melhor forma de atuar”

Quando fala do que faz, ajudar outros, muitos outros hoje, Margarida fala sempre no plural. Não há “eu”, mas um “nós”. O Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar de São João, onde passa os dias, e tantas vezes noites, sem dar pelas horas, é hoje uma referência no combate à pandemia de Covid-19. É a linha da frente na luta – desigual, mas a que se tenta ripostar com os meios que há.

“Nós neste momento já não somos um serviço, já não é só o Serviço de Doenças Infecciosas. A equipa é gigantesca", explica Margarida Tavares. "Sim, o Serviço de Doenças Infecciosas teve a primeira resposta, mas não seria suficiente para responder a esta quantidade enorme de doentes – e com a qualidade com que estamos a responder. Somos uma grande equipa, multidisciplinar, formada por médicos de muitas especialidades, sediada inicialmente nos infecciologistas, mas já reforçada pelos médicos de medicina interna, pneumologistas, imunoalergologistas, gastroenterologistas, endocrinologistas, enfim, mesmo cirurgiões já estão a reforçar as nossas equipas e a tratar doentes Covid-19. Isto sem falar nos senhores enfermeiros, nos senhores auxiliares, que são absolutamente fundamentais no tratamento.”

Hoje com 47 anos, cedo se interessaria pela infecciologia e pelo surgimento de doenças emergentes. Estudou-as, preparou-se para a sua chegada e encontrou sempre formas de as enfrentar e tentar resolver no hospital.

Com este novo coronavírus, o SARS-CoV-2, responsável pela pandemia de Covid-19, não foi diferente. Mas este novo coronavírus é, necessariamente, diferente, diz.

“É uma situação sem precedentes, efetivamente. Quando comecei, logo em 2003, foi quando tivemos a preparação para o SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave, provocada por um coronavírus identificado em 2002]. E depois, durante muitos anos, fui a responsável pela preparação para a pandemia de Gripe A, que se adivinhava que poderia vir a acontecer. Depois veio a questão do Ébola, que assustou muito, não pela dimensão que poderia ter, mas pela gravidade e pela letalidade altíssima. E agora fomos surpreendidos por este novo coronavírus. O alerta da Organização Mundial de Saúde foi no dia 30 de dezembro de 2019. No dia 7 de janeiro já estava identificado o coronavírus e no dia 10 já estava partilhada a sua sequência genómica. E isso permitiu-nos, apesar de tudo, um avanço de dois meses, para pensarmos qual seria a melhor forma de atuar”, garante.

Margarida Tavares enumera o tanto que mudou em pouco mais de um mês no São João, que tem hoje mais de 150 doentes infetados, 120 dos quais em enfermaria e os restantes em cuidados intensivos, dispersos por várias áreas.

“Tivemos de ir ocupando serviços e áreas de internamento que tinham outras utilidades: ocupámos a área da ginecologia, várias alas da medicina interna, alas cirúrgicas também já estão a ser utilizadas como internamentos de doentes com Covid-19. E também as Unidades de Cuidados Intensivos têm sido expandidas à medida das necessidades. Neste momento já temos mais de 50 camas de cuidados intensivos dedicadas a doentes com Covid-19”, explica.

Hidroxicloroquina, sim. Medicamentos experimentais, por agora não

Não existe, por ora, vacina nem medicação específica, comprovadamente eficaz por meio de ensaios clínicos, que permita debelar a Covid-19. “Não podia ser de outra maneira, porque nós estamos perante um novo agente e uma nova doença”, lembra a médica do Centro Hospitalar de São João.

Assim, o que resta é debelar os sintomas que esta doença provoca. Mas como? E através de que meios? Por agora, responde a médica infecciologista, só tradicionais, sem recorrer a medicamentos experimentais.

Obviamente, nestas situações – primeiro in vitro, ou seja, em laboratórios – são testados muitos medicamentos, que pelo seu mecanismo de ação poderão ter efeito neste vírus. E houve várias medicações que tiveram um efeito in vitro, quer antivírico, quer de outras características, nomeadamente anti-inflamatório ou imunomodulador. Margarida Tavares, apesar de tudo, prefere esperar.

“Em termos de medicação específica, nós não estamos a usar medicamentos experimentais. O medicamento para o Ébola, por exemplo, um medicamento inovador que não está provado para nenhuma indicação específica, nem para esta nem para outras, esse não estamos a usá-lo. Mas poderemos vir a usá-lo. Há alguns centros que já conseguiram utilizar esse medicamento em algumas situações específicas", explica. "O que estamos a usar, em algumas situações de maior gravidade, é a hidroxicloroquina [um medicamento antiviral indicado para o tratamento da malária], bem nosso conhecido, que usado noutras situações auto-inflamatórias mostrou-se com um efeito antivírico muito relevante – e que também tem um mecanismo que permite imunomodelar alguma da inflamação que se associa a esta doença [Covid-19].”

Mesmo não existindo medicação comprovadamente eficaz para esta doença, a infecciologista assegura que “existem hoje tratamentos muito eficazes”, tais como a ECMO e os propalados ventiladores. “Alguns doentes, se não se tivesse recorrido a essa técnica de oxigenação, não teriam resistido”, garante.

“Os tratamentos sintomáticos e os tratamentos de suporte são importantíssimos na manutenção da vida e no equilíbrio que pode permitir a cura, nomeadamente o suporte ventilatório, que permite manter e assegurar uma função que possa estar comprometida pela ação patogénica deste vírus, ou a ECMO, que é um tipo de oxigenação extracorporal altamente complexo e uma tecnologia que começou a ser usada no nosso hospital precisamente em 2009, durante a pandemia de gripe. Há muito, muito, muito a fazer por estes doentes. E felizmente temos feito: passaram por esta grande prova, mas estão vivos.”

"A maioria dos doentes mantém-se com sintomas ligeiros"

Nem só de vida, mas também de morte, se faz o quotidiano de um médico num centro hospitalar. “Um hospital é sempre um lugar de grandes conquistas, é sempre um lugar de cura, de melhoria, de grandes, grandes sucessos, terapêuticos e humanos. Mas é também, sempre, um local de morte. Nós sabemos isto, faz parte da nossa vida, faz parte da nossa profissão. Nenhum médico, nenhum enfermeiro, nenhum profissional gosta de perder um dos seus pacientes”, explica Margarida Tavares.

Antes da Covid-19, como agora, a morte, “sempre um momento triste”, mas igualmente “necessário e inevitável”, tende a ser preparada, com doentes e com a família, para que haja uma despedida. “Nós, todos nós, sabemos que aquela hora chegou, uma hora que foi preparada, que foi pensada, percorreu-se um caminho e o sofrimento foi aliviado”, garante Margarida Tavares.

“Muitas vezes até temos a oportunidade de falar com o doente sobre esse momento, sobre a morte, conversamos sobre a chegada desse momento. Isto também é importante. É uma oportunidade para que eles expressem os seus desejos, as suas inquietações. É uma situação especial, sobretudo porque normalmente nós temos as famílias presentes, para que haja uma despedida. Claro que com a Covid-19 é mais difícil, embora também, mesmo assim, nós consigamos fazê-lo.”

Muitos dos óbitos que já presenciou, "que não são normais, porque o normal é viver e custa sempre a perda", são situações em que a Covid-19 não foi o fator mais determinante. Foram antes "situações de grande fragilidade já anterior à infeção", como doenças oncológicas, idades avançadas ou insuficiências várias. “Sim, é verdade que esta infeção veio descompensar, veio agravar, mas são situações já muitas vezes esperadas”, explica.

“A nossa função é curar e deixar viver, é dar qualidade de vida, mas é inevitável lidarmos com a morte no hospital. Mas a grande maioria dos doentes, e também é preciso que se diga, a grande, grande maioria dos doentes que têm sido diagnosticados, já bem mais de mil, continuamos a segui-los em ambulatório, mantêm-se com sintomas muito ligeiros, sem necessidade de internamento”, conclui, recuperando já no fim uma frase tantas vezes dita, mas que dita por uma infecciologista ganha uma razão maior: “Vamos todos ficar bem, não tenhamos dúvidas.”


Os números da Covid-19 em Portugal:
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