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Crónica

O amor já cá estava

06 abr, 2020 - 07:15 • Carminho*

É no amor que ressurgimos, refazemos e superamos. E o amor já cá estava. Exercer esse amor é uma decisão nossa de cada dia, enfrentando a pandemia deste vírus ou uma outra pandemia que também já cá estava: a do isolamento por egoísmo, o isolamento da indiferença, a pandemia da desigualdade, da discriminação e da solidão.

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“Ninguém se salva sozinho.” As palavras do Papa Francisco soaram como uma memória antiga, de sempre, mas romântica e ideológica. Um convite à vida em comunhão plena, num lugar reservado para todos mas carregando essa energia de reserva; para depois; sem tempo.

Uma incrível promessa que nos trouxe Jesus com as suas palavras, que de tão precisas e perfurantes, ficam tantas vezes no lugar da alegoria, do sonho, do depois…

Mas é agora que o Papa Francisco recorda: Ninguém se salva sozinho!

E num violento abanão somos acordados para a literalidade desta mensagem, precisa e perfurante, que sempre lá esteve com toda a simplicidade, mas que tantas vezes elevámos para que não fosse da nossa verdadeira conta.

Hoje somos convidados a receber esta mensagem intemporal com a iniciativa de quem a vive no momento: precisamos uns dos outros para nos salvarmos, na prática corrente de cada gesto, de cada decisão, e no simples facto de não termos conhecimento de uma alternativa.

Somos recordados da nossa condição de irmãos no mundo, todos numa mesma situação de vulnerabilidade e dependência. A dependência que assusta porque implica confiar. No vizinho, no incógnito, no bom senso, no jornalismo e no governo, tanto no nosso, como nos governos de outros países.

Não lhes confiamos já um futuro longínquo com carácter de promessa, mas sim tudo o que temos hoje: os nossos pais, os nossos filhos, as nossas economias e projectos, a nossa saúde, a nossa identidade.

Aprender a confiar é talvez um dos maiores desafios deste tempo. E é de tal exigência para todo o mundo, que nos cabe a nós, também, confiar em nós mesmos. Até porque não temos muitas vezes a quem recorrer. Estamos entregues à nossa capacidade de nos desenvencilharmos, de nos protegermos, de nos curarmos.

E estamos então por nós, afinal? Não. Porque ninguém se salva sozinho. A prova viva está a ser testemunhada dia a dia, pelo mundo inteiro. Antes de mais por muitos que arriscam a vida para que todos os outros possam fazer o seu papel, salvando-os a eles de volta. Depois, pela vigia constante de cada casa recolhida e perseverante nesta espera indeterminada. E este quadro só o veremos de longe, reconhecendo um trabalho de formiga solitária que é cada um de nós, mas que constrói um grande universo que é de todos.

De uma forma mais pessoal, digo-vos que tenho assistido a muitos ao meu redor partilhar os seus cansaços e dificuldades para lidar com o confinamento forçado, tendo de dar assistência aos filhos, estando longe dos pais que precisam de cuidados e companhia, sem poderem trabalhar e garantir o sustento que os segura. Mas, ao mesmo tempo, como estes dias sucessivos e repetidos alimentam estas mesmas pessoas que partilham a forma como se superam e ultrapassam, com a imaginação e força de vontade, recorrendo a reservas de amor escondidas que sempre lá estiveram.

Muitos passam revisão à tal identidade que lhes é posta em causa, identidade que repensam porque do caos nasce a filosofia mais pura de nós mesmos. Fechados, visitam-se novamente, numa reflexão mais profunda de como têm vivido até aqui e de como tudo parece estar a mudar para sempre. E queiramos nós que sim. Que a mudança aconteça ou pelo menos que se reforcem os mapas acertados das nossas vidas. Um olhar crítico e higiénico sobre como os outros são importantes para nós, não só para nos protegermos em tempo de COVID19, mas no tempo de paz e saúde, realizando que sempre lá estiveram e nem sempre os conseguimos ver, olhar, abraçar, dignificar.

Nós somos grandes reservas de amor. O amor é o que nos define para lá da inteligência.

É no amor que ressurgimos, refazemos e superamos. E o amor já cá estava. Exercer esse amor é uma decisão nossa de cada dia, enfrentando a pandemia deste vírus ou uma outra pandemia que também já cá estava: a do isolamento por egoísmo, o isolamento da indiferença, a pandemia da desigualdade, da discriminação e da solidão.

Por pouco afirmo os benefícios desta nova guerra que agora enfrentamos e se não o faço é por respeito aos muitos que continuam a precisar deste amor activo, da solidariedade, do gesto gratuito e reparador de cada um de nós. O amor esse, já cá estava.

*Carminho nasceu em Lisboa a 20 de agosto de 1984. Cantora e compositora, é uma das vozes proeminentes da nova geração do fado, que interpreta desde criança. O seu primeiro disco, "Fado", é editado em 2009. Seguiram-se "Alma" (2013) e "Canto" (2014). Em 2016 grava “Carminho canta Tom Jobim”, com a última banda que acompanhou o artista brasileiro ao vivo nos seus últimos dez anos, partilhando temas com Marisa Monte, Chico Buarque e Maria Bethânia. "Maria", lançado em 2018, é o seu último álbum.

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