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Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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Helicópteros, peixinhos e outros remédios rápidos

24 mar, 2020 • Opinião de Luís António Santos


As ‘correntes’ de mentiras e falsidades que passam de aparelho em aparelho no WhatsApp não acabam (quem nunca ouviu uma mensagem de voz com uma médica a dizer que os chineses já sabem isto ou aquilo ou que o vírus é assim ou assado?) se continuarmos a replicá-las.

Estive ontem à noite à varanda, até por volta da meia-noite, à espera dos helicópteros que deveriam ter passado a borrifar um qualquer antivírus milagroso para nos livrar do momento em que vivemos. Não passaram. Devem ter ido a Guimarães primeiro e só cá devem ter passado muito mais tarde, quando já descansava.

Estarei certo, não? Claro que sim. Vi a mensagem de aviso tantas vezes repetida durante o dia, por tanta gente diferente, que só podia ser verdade.

Pois. Acontece que não. Nem esta nem aquela das águas límpidas em Veneza, com peixinhos, cisnes e golfinhos, que também fez umas rondas muitas largas, durante dias, pelos meus fluxos informativos (tocando até alguns média tradicionais). Ou tantas outras que tais.

Na mesma altura em que declarou existir uma situação de pandemia da COVID-19, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Ghebreyesus, falou-nos numa ‘infodemia’, aludindo à enorme quantidade de informação errada ou deliberadamente falsa que está a ser produzida sobre este assunto. Na semana passada a Reuters revelou a existência de um documento europeu indicando que alguma dessa produção faria mesmo parte de uma estratégia deliberada do governo russo.

São muitas as organizações académicas ou associações de jornalistas que fazem, agora, da identificação deste tipo de mensagens a sua principal atividade. E algumas empresas jornalísticas afinaram os seus processos internos de verificação de informações e criaram até espaços autónomos nas suas páginas online para lidar com o problema. Mas a tal da ‘infodemia’ não dá tréguas, porque há quem nisso tenha interesse, mas também porque cada um de nós não está a dar o seu contributo.

As ‘correntes’ de mentiras e falsidades que passam de aparelho em aparelho no WhatsApp não acabam (quem nunca ouviu uma mensagem de voz com uma médica a dizer que os chineses já sabem isto ou aquilo ou que o vírus é assim ou assado?) se continuarmos a replicá-las.

A maior parte desta produção, cujo objetivo final é sempre e apenas o fomento da divisão social e o enfraquecimento da nossa confiança coletiva nas instituições oficiais, centra-se naquilo que se poderia designar como ‘a alimentação do medo’ mas algumas das mensagens, como as que referi no início deste texto, têm um carácter otimista.

Como escreveu há dias Andrew O’Hehir, na publicação Salon, “os golfinhos imaginários de Veneza tornaram-se, por uns momentos, em caminho de projeção para um futuro já sem coronavírus, num mundo que aprendeu lições importantes e mudou de rumo”.

Estas ‘mensagens positivas’ são – parece-me – muito menos escrutinadas do que as outras e embora operem esse milagre momentâneo de indução de uma dosezinha de esperança, são igualmente danosas porque nos afastam das obrigações do presente em que percebemos todos, com enorme clareza, as fragilidades de termos escolhido viver num mundo vergado aos interesses das finanças e da economia globalizada.

Se alguma coisa ficar dessas viagens oníricas pelos canais límpidos de Veneza ou pela proposta de uma salvação milagrosa caída do céu, lançada de helicóptero, que seja a consciência da necessidade urgente de mudança nas nossas prioridades enquanto comunidades humanas.

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