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Doenças mentais. "É preciso evitar que as pessoas entrem numa perda absoluta sem que tenham oportunidade de tratamento”

11 fev, 2020 - 12:11 • Liliana Monteiro

Quando se assinala o Dia Mundial do Doente, a Renascença dá a conhecer uma unidade psicogeriátrica, que ajuda pessoas com problemas mentais a partir dos 65 anos. Aqui recorre-se à tecnologia e a uma equipa multidisciplinar para ajudar estes doentes.

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Perante os muitos pedidos de ajuda para cuidar de pessoas com problemas mentais a partir dos 65 anos, a Clínica Psiquiátrica de São José, das Irmãs Hospitaleiras, em Telheiras, decidiu abrir a 6 de fevereiro a Unidade de São Rafael de Cuidados Psicogeriátricos.

De olhos postos na psicogeriatría, este espaço aposta no cuidado mutlidisciplinar junto do doente e da família.

Esta unidade, que vai recorrer à robótica e a programas informáticos para ajudar no tratamento e reabilitação dos doentes, conta com 12 profissionais de saúde e tem capacidade para 25 doentes.

Está distribuída por três pisos: o piso zero mais vocacionado para a área social com duas salas de estar, uma delas preenchida com cadeirões na cor da instituição, verde água e rosa, uma decisão não apenas estética, mas com vista ao estímulo sensorial dos utentes; e os restantes pisos são compostos por salas de tratamento e consulta e pelos quartos dos utentes.

Élio Borges, diretor gerente da Clínica, explica que “esta unidade de cuidados integrados no envelhecimento tem como objetivo principal dar resposta a pessoas com doença psiquiátrica com mais de 65 anos”, revelando que é destinada a famílias que não encontram locais para internar os seus pais ou entes próximos. “Aqui têm uma equipa interdisciplinar, enfermeiros, médicos, assistentes sociais, psicólogos, neuropsicólogos, assistente espiritual, psicomotricidade, clínica geral. Uma equipa que intervém e acompanha em várias áreas.”

Os quartos são na sua grande maioria singulares, mas aqui não se acolhe apenas o doente, estimula-se também a ligação familiar e ao lar que se deixa. Para isso existem prateleiras onde os doentes colocam bens que marcaram o seu dia a dia durante anos, assim como fotografias de quem mais gostam, mesmo que sejam os animais de estimação.

A enfermeira Filipa Pires de Lima, está na Clínica de São José há oito anos e foi desafiada agora a coordenar esta unidade. “A preocupação da equipa de enfermagem é ter duas vezes por semana um espaço para trabalhar com as famílias que nos chegam completamente desesperadas, muitas vezes, pelo descontrolo sintomático destas pessoas, numa fase avançada de vida, em que infelizmente a medicina ainda não tem ao seu alcance fármacos que ajudem. Tudo isto é um mundo novo para elas.”


Em tom de compaixão explica que conseguem atrasar a progressão de uma doença mental crónica. “Conseguimos atrasar a evolução de uma perda cognitiva, mas não conseguimos restituir a perda cognitiva totalmente à pessoa que já a perdeu. Muitas vezes estas famílias estão tão, ou mais, doentes que a pessoa que fica cá internada connosco.”

A unidade de São Rafael prevê internamentos entre os três os seis meses, estando aberta a uma assistência mais duradoura, assim aponte a necessidade clínica - o período destinado à reabilitação, ou equilíbrio do doente, e à procura de soluções, por parte da família, para o futuro do seu familiar.

O psiquiatra Pedro Varandas é diretor clínico e revela que a inovação desta unidade se prende com o facto de se estar a apostar nos “computadores e programas informáticos”, como auxílio à reabilitação, garantindo, “estão a preparar os técnicos para que estas tecnologias sejam uma ferramenta de trabalho importante, inclusivamente as tecnologias ligadas à robótica”.

Este médico acredita ser possível travar perdas neste tipo de doentes. Em Portugal “existem centenas de milhares de pessoas com quadros de demência bem caracterizados e que precisam muito de cuidados, para que esta fase da vida se possa fazer com algum conforto, haja reabilitação de algumas funções e para que não entrem numa perda absoluta das suas capacidades sem que tenham tido oportunidade de serem intervencionadas”.

A enfermeira Filipa Pires de Lima lembra que é muito importante ajudar também as famílias a fazerem o luto da pessoa que já não é o que era.

Em 20 anos de carreira foram muitos os doentes que lhe passaram pelas mãos e lamenta que sejam poucos os enfermeiros com formação geriátrica. “Muitas vezes somos muito orientados e esquecemo-nos que essa tarefa pode ser menos importante do que às vezes um simples estender de mão a uma pessoa que está com um olhar desesperado a pedir ajuda. Podemos não conseguir, naquele momento, resolver a necessidade da pessoa, mas podemos parar e olhar para o doente, sentir o que ele nos está a dizer com o olhar. Devemos parar para pensar na nossa prática e como a podemos humanizar mais.”

Segundo a enfermeira, quando um doente os interpela, em vez de dizerem “diga!” podem optar por “em que posso ajudá-lo?” …e isto pode fazer toda a diferença.

Revela que o principal lema da clínica é todos os doentes serem tratados antes de mais como pessoas e não apenas como enfermos.

A Clínica Psiquiátrica de S. José (CPSJ) é um dos 12 estabelecimentos de saúde, dirigido pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Foi fundada em 1956 e a 31 de maio de 1995 foram inauguradas as atuais instalações em Telheiras, Lisboa. Procura proporcionar aos doentes e acolhidos apoio físico, psíquico, social, ético e espiritual, com caráter eminentemente humanizador.

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