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Entrevista a Fathali Moghaddam

"O conflito EUA/Irão beneficia os extremistas dos dois países"

13 jan, 2020 - 16:03 • Manuela Pires

Fathali Moghaddam, iraniano e professor de Psicologia na Universidade de Georgetown, diz que a democracia está em declínio, pelo menos, há 20 anos. Na sua opinião, o mais recente conflito entre os Estados Unidos e o Irão beneficia os autoritarismos nos dois países.

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"Não há dúvida de que o presidente Donald Trump espera ganhar internamente com este conflito com o Irão”. A afirmação é do iraniano Fathali Moghaddam, professor de Psicologia na Universidade de Georgetown, que esteve em Lisboa para participar na Winter School for The Study of Communication da Universidade Católica Portuguesa e onde falou sobre “A ameaça à democracia: o apelo do autoritarismo numa época de incerteza".

"O Presidente Trump espera ganhar, com este conflito, mais apoio para as eleições de Novembro e, ao mesmo tempo, encontrar uma distração para o 'impechment'. Isto é um clássico usado pelos líderes autoritários para distrair dos seus problemas e manter o foco nas ameaças externas”, aponta este estudioso na área da psicologia da democracia e das ditaduras, em entrevista à Renascença.

Moghaddam vive há 30 anos nos Estados Unidos e sentiu na pele a revolução iraniana em 1979, que transformou o país numa república islâmica sob o comando do Aiatolá Khomeini. Tem a certeza de que esta escalada de tensão entre os dois países beneficia os dois líderes porque “mobilizou e potenciou os extremistas de ambos os lados, e os moderados dos dois países sofreram, portanto este conflito beneficiou os autoritarismos quer nos Estados uUnidos, quer no Irão”.

O papel dos media" no declínio da Democracia


Há vários anos que estuda a psicologia da democracia e das ditaduras e defende que a democracia está em declínio há, pelo menos, duas décadas. “Temos ataques às instituições democráticas, temos ataques às minorias, temos menos apoio aos direitos humanos, e temos menos confiança nos governos”, argumenta o professor.

Nos Estados Unidos, Donald Trump é, para o especialista, uma ameaça à Democracia: “Falo disso no meu livro 'Ameaça á Democracia'. Ele é anti-democrático nas suas tácticas, nas suas crenças, e não acredito que ele seja uma força positiva para a democracia no mundo.”

Os meios de comunicação social também contribuíram para este declinio da democracia, refere Fathali Moghaddam, dando como exemplo o fenómeno das "fake news" e uma agenda onde se dá grande destaque às ameaças externas. "Este foco que é dado nas notícias às ameaças, quer dos refugiados ou dos imigrantes, levou as pessoas a estarem preocupadas, a ficarem etnocêntricas”, sustenta, sublinhado que isso gera um maior apoio em torno dos líderes fortes, dos ditadores.

Na opinião de Fathali Moghaddam, as revoluções mudam regimes, mas isso não quer dizer, necessariamente, que conduzam a democracias, porque "a democracia precisa de tempo para ser construída, tem de haver mudanças psicológicas na forma como as pessoas pensam e agem, e isto leva tempo".

"Não podemos esperar que as revoluções mudem, de repente, psicologicamente as pessoas. Historicamente, este processo nunca foi rápido, a democracia é um processo que leva séculos e não apenas uns dias”, remata.

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  • António José Gomes Costa
    13 jan, 2020 16:58
    A Democracia não "leva séculos". É muito pior. É uma consequência de uma "atitude cultural", a consequência do respeito pelo Outro. E o respeito pelo Outro aprende-se e ensina-se, não aparece por "geração espontanea". No mundo Ocidental foi uma consequência do Cristianismo. A confunde-se Ignorância , com Tolerância. A existência de ideias próprias indispensáveis à Democracia é confundida com Intolerância. E assim....