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Exclusivo Renascença

Nos mosteiros, prisões ou lares, novo Núncio em Portugal promete missão de proximidade

24 dez, 2019 - 06:10 • Aura Miguel

D. Ivo Scapolo entrou em funções há um mês e já começou a visitar dioceses. “Ficar fechado” seria “trair” a missão que o Papa lhe confiou. Sente-se um “privilegiado” por trabalhar em Portugal e já olha com entusiasmo para a visita do Papa, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude de 2022.

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O novo Núncio Apostólico em Portugal revela, em entrevista exclusiva à Renascença, os objetivos da sua missão. D. Ivo Scapolo destaca as boas relações do Estado português com a Santa Sé e a ligação histórica do nosso povo ao Papa.

Há pouco mais de um mês no nosso país, D. Ivo Scapolo, 66 anos, explica por que já começou a visitar dioceses portuguesas, honra-se de cumprir a sua missão numa terra escolhida por Nossa Senhora e é com expectativa que acolherá o Papa na próxima Jornada Mundial da Juventude de 2022.

Sobre a situação no Chile, onde prestou serviço diplomático nos últimos anos (2011-2019), D. Ivo Scapolo prefere falar da sua nova missão em Lisboa e remete para a entrevista que concedeu em vésperas de partir para Portugal.

Como encara a sua nova missão em Portugal?
Iniciei a minha missão com confiança no Senhor, convencido de que Ele me acompanhará. Além disso, para mim foi muito grato regressar à Nunciatura Apostólica em Portugal depois de 30 anos. Ao encontrar novamente pessoas depois de 30 anos e encontrá-las mudadas, dou-me conta de como o tempo passa. Confirmam-se as palavras de São Paulo: “O cenário deste mundo é passageiro” (1 Cor, 7). É uma interessante lição sobre o tempo que passa e a importância de o utilizar bem.

Há poucas semanas apresentou as Cartas Credenciais ao Presidente da República, como foi o encontro? E como classifica as relações entre o Estado Português e a Santa Sé?

No dia 22 de novembro apresentei ao senhor Presidente da República as Cartas que me acreditavam como Núncio Apostólico em Portugal. No contexto de uma cerimónia que se carateriza por ser muito solene, fui recebido pelo senhor Presidente e seus estreitos colaboradores com muita cortesia, cordialidade e disponibilidade. É significativo o facto de o colóquio com o senhor Presidente ter durado quase 45 minutos. Tudo isso é sinal das excelentes relações entre a Santa Sé e a República de Portugal, sem dúvida.

Protocolarmente, em Portugal, o Núncio Apostólico é o decano do corpo diplomático. Isto também acontece noutros países, ou é uma distinção especial do Estado português para com a Santa Sé?

No mundo há vários países que, por tradição, concedem ao Núncio Apostólico o estatuto de decano do corpo diplomático. É um importante sinal de estima e de apreço pela autoridade espiritual e moral do Papa. No caso de Portugal é também sinal da vinculação especial que existe entre a Santa Sé e Portugal, desde o início da sua história.

"O Representante Pontifício deve visitar as comunidades onde o Papa não consegue chegar"

E que novidades podemos esperar da sua missão, relativamente à missão dos núncios anteriores?

Novidades particulares não tenho. Porém, ao iniciar a missão de Núncio Apostólico em Portugal, tenho a responsabilidade de continuar um valioso e generoso trabalho que fizeram os Representantes Pontifícios que me precederam. Como numa estafeta cada membro da equipa tenta dar o melhor de si mesmo, assim tentam fazer os vários representantes pontifícios que passam pela Nunciatura Apostólica.

Gostaria de mencionar os que prestaram o seu serviço nestes últimos 30 anos, quer dizer, desde que cheguei a Portugal a primeira vez em 1987: Mons. Asta, Mons. Angeloni, Mons. Rovida, Mons. Rapisarda e, o meu direto predecessor, Mons. Rino Passigato, que conheço e estimo há muito tempo, desde que trabalhámos juntos na Nunciatura Apostólica de Washington. Cada um destes Núncios trabalhou dando o melhor de sua personalidade, preparação e experiência. Eu tentarei fazer o mesmo.

E podemos saber, como Núncio Apostólico, qual é a sua principal preocupação?

A minha principal tarefa e preocupação é atuar da melhor maneira, em sintonia com o espírito do Evangelho, de acordo com as instruções dadas pelos meus superiores e tendo em consideração as diferentes circunstâncias. Sempre que for necessário farei o discernimento oportuno para entender qual é a vontade de Deus, salvaguardando sempre a comunhão e a coordenação com os meus superiores e o Episcopado português. Além disso, é importante atuar de acordo com a justiça, a verdade e a caridade. Esta última é, para mim, particularmente importante. De facto, escolhi como meu lema episcopal Ante omnia caritas, quer dizer, “Antes de tudo a caridade”. Não posso dizer que o cumpro sempre, mas esforço-me por isso.

Pouco tempo depois de chegar a Portugal, já começou a visitar dioceses portuguesas. É uma prioridade sua? Podemos saber os critérios para as visitas que faz?

Ao chegar a Portugal manifestei aos bispos a minha disponibilidade para visitar as Dioceses, deixando-lhes a decisão se e quando convidar-me. Na primeira semana de dezembro tive a alegria de visitar a Diocese do Porto, cujo bispo, Mons. Manuel Linda, me convidou cordialmente quando eu estava ainda no Chile. Outros bispos já me convidaram. Nas próximas semanas combinaremos as datas e os programas das visitas. Desde o início de meu serviço como Núncio Apostólico, em 2002, quando São João Paulo II me nomeou Núncio Apostólico na Bolívia, comecei a visitar as Dioceses. Também o fiz nos outros países em que trabalhei como Núncio Apostólico, quer dizer, no Ruanda e no Chile, visitando assim quase todas as dioceses.

E por que se preocupa tanto em fazer estas visitas?

Fi-lo para ser coerente com o espírito apostólico que, um dia, me levou a dizer "sim" ao Senhor que me chamou ao ministério presbiteral. Por isso, vivi experiências inolvidáveis junto com os bispos que me acompanharam e com todas as pessoas que encontrei. O próprio Papa Francisco, quando eu estava no Chile, recomendou-me pessoalmente que continuasse a visitar as Dioceses. O Santo Padre recomendou-o também por ocasião do último encontro de todos os Núncios, realizado no passado mês de junho no Vaticano. Recordou-nos que o Representante Pontifício deve visitar as comunidades onde o Papa não consegue chegar; disse-nos também que se um Núncio se fechasse na Nunciatura e evitasse encontrar-se com as pessoas trairia a sua missão.

Mas o senhor Núncio, com a sua autoridade, poderia chamar à nunciatura o bispo de cada diocese (em jeito de “visita ad limina”), no entanto, prefere conhecer o terreno e falar com as pessoas (em jeito de “visita pastoral”) …

Um dos objetivos principais de um Representante Pontifício é promover uma comunhão afetiva e efetiva entre as Igrejas locais e o Santo Padre, sucessor do Apóstolo Pedro. Portanto, é importante manter contactos frequentes e cordiais com os bispos; faço-o participando, sobretudo, nas assembleias plenárias da Conferência Episcopal, como aconteceu no início de novembro, e recebendo os bispos na Nunciatura. Porém, não é suficiente porque a Igreja local é constituída por todos: bispo, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e fiéis leigos. Além disso, proponho aos bispos visitar seminários, mosteiros, paróquias, colégios, prisões, lares de idosos e outros centros sociais. Se é possível, encontro também as autoridades locais para favorecer a boa colaboração entre a Igreja e o Estado. Assim se pode viver momentos muito intensos e significativos de oração, diálogo, partilha e comunhão eclesial.

E que benefícios trazem estas visitas?

Para as dioceses é uma ocasião de tomar consciência mais clara, profunda e alegre da sua identidade, das maravilhas que Deus realiza nelas, do serviço generoso, escondido e fiel de tanta gente nas paróquias e em muitas outras realidades diocesanas. E para mim é uma ocasião única de conhecer melhor a realidade da Igreja local e de ajudar o Papa a acompanhá-la adequadamente.

"Sinto-me verdadeiramente privilegiado por trabalhar em Portugal, onde Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos"

É importante, para si, ser Núncio apostólico no país onde existe um dos maiores santuários marianos do mundo?

Sim. Sinto-me verdadeiramente privilegiado por ter sido chamado a trabalhar, primeiro como secretário e depois como Núncio, num país como Portugal, onde Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos em Fátima, deixando-lhes uma mensagem que continua a ter uma grande importância para a realidade da Igreja e do mundo de hoje. Tive também o privilégio de ser Núncio no Ruanda, o único país de África onde há um Santuário numa localidade, chamada Kibeho, em que houve aparições reconhecidas pela Autoridade Eclesiástica.

Como encara o fenómeno de Fátima?

As aparições da Virgem Maria e a santidade de vida dos pastorinhos são um património espiritual e religioso muito valioso e, portanto, uma grande responsabilidade para a Igreja em Portugal e em todo o mundo. Considero também muito preciosas as inumeráveis manifestações de fé e de devoção a Nossa Senhora de Fátima que, desde há mais de um século, têm florescido em Portugal e no mundo inteiro. É um património precioso que devemos guardar, conhecer, contemplar e assimilar, transformando-o em testemunho de vida cristã coerente.

Na mensagem de Fátima também há uma forte ligação ao Papa, reafirmada por sucessivos pontífices. Essa dimensão continua atual?

Sem dúvida. Confirmou-o a visita que o Papa Francisco fez em 2017, para celebrar o centenário das aparições da Virgem Maria em Fátima. Por esta ligação especial, espera-se que todos os que invocam a Virgem de Fátima, também façam sempre uma especial oração pelo Papa, respondendo assim ao seu contínuo pedido de não se esquecer de rezar por ele.

E quanto aos nossos santos? Costuma-se dizer que Portugal é um país de brandos costumes… ao contrário de outras nações (como a vizinha Espanha, por exemplo), pois por aqui, há vários séculos que não temos mártires canonizados. E, além disso, a nossa lista de santos e beatos não é grande. Quer comentar? Há alguns nomes que queira sublinhar?

Se tomamos em consideração que Portugal tem pouco mais de dez milhões de habitantes, podemos dizer que é um país abençoado por ter uma quinzena de santos, mais um certo número de pessoas cujos processos de beatificação estão em curso. Por exemplo, há poucos dias o Papa Francisco reconheceu as virtudes heróicas do Padre Américo, fundador da Obra da Rua, declarando-o assim venerável.

Graças a Deus que Portugal não viveu perseguições tão graves e sangrentas como aconteceu noutros países. Sem dúvida, a Igreja em Portugal, graças até aos seus “brandos costumes” – como afirmou na pergunta –, tem muitas pessoas que, apesar de não serem proclamadas santas ou beatas, têm deixado um testemunho maravilhoso de vida cristã. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et exultate, recorda-nos que o Espírito Santo derrama a santidade por toda a parte no santo povo fiel de Deus. O Papa diz que é a santidade dos que vivem perto de nós e que são um reflexo da presença de Deus.

Vai ser o Núncio Apostólico da próxima Jornada Mundial da Juventude. E, nesse contexto, vai receber o Papa em Portugal. O nos que pode dizer sobre isso?

Está-se a trabalhar para organizar este evento tão importante para toda a Igreja. Espero que muitíssimos jovens portugueses se inscrevam atempadamente para assegurar uma boa organização e um adequado acolhimento dos jovens que virão de todo o mundo. Espero que este importante evento seja o culminar de uma intensa preparação espiritual, a nível pessoal e comunitário. Assim, a Jornada transformar-se-á numa fonte de muitas graças para a juventude de todo o mundo, de maneira especial de Portugal. Por isso, peço a Deus e a Nossa Senhora que a Jornada Mundial da Juventude seja um momento extraordinário de graça, mediante o qual muitíssimos jovens aprofundem a sua vida de fé e se comprometam a testemunhar Jesus na sua vida.

E quais são as suas expetativas?

Espero vivamente que muitos jovens, com o coração cheio de fé e de amor, respondam a Jesus que os chama a dar-se totalmente para o bem dos outros, sobretudo a nível espiritual, tal como fizeram os três pastorinhos de Fátima; tal como fez o jovem Fernando de Bulhões quando, frente ao corpo massacrado de cinco mártires Franciscanos, decidiu, tomando o nome de António, juntar-se aos seguidores de Francisco de Assis, animado pelo desejo de ir evangelizar no norte de África.

Já esteve ao serviço de três Papas diferentes, com caraterísticas e estilos pessoais diversos. Isso reflete-se no seu trabalho?

Como já disse antes, uma das prioridades do Núncio Apostólico é promover a comunhão afetiva e efetiva entre a Igreja local e o Santo Padre. Portanto, é fundamental que o Representante Pontifício saiba manter-se sempre em sintonia com cada um dos Papas que é chamado a representar, fazendo conhecer os seus ensinamentos e decisões. O Senhor, mediante os Papas que se sucedem, concede a graça, a luz e as orientações que a Igreja e o mundo necessitam nos diferentes momentos da história. Pelo facto de o Núncio não se representar a si mesmo, mas representar o Papa, é necessário que realize esta missão com fidelidade.

Em vésperas de Natal, quer deixar uma mensagem para os portugueses, através da Rádio Renascença?

Em primeiro lugar, quero agradecer à Rádio Renascença que, mediante a sua estimada jornalista, Aura Miguel, teve a cortesia e a sensibilidade eclesial de me solicitar esta entrevista. Que a Rádio Renascença continue a ser um instrumento eficaz para difundir a luz da verdade que Jesus veio oferecer-nos com a sua encarnação.

Aos portugueses que me ouvem faço votos, de todo o coração, de que tenham um Santo e Feliz Natal. Que a quadra natalícia não seja vivida de forma rotineira! Pelo contrário, acolhendo o Senhor, que continua a vir mediante o seu Espírito, transforme os nossos corações e as nossas vidas. Se um recém-nascido transforma a vida de um casal e de uma família, muito mais o Deus-Menino renovará o nosso coração e a nossa vida.

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