|
A+ / A-

Crise no jornalismo. Afinal, o que é "necessário para dar força às rádios?"

03 dez, 2019 - 17:03 • Susana Madureira Martins

Jornalismo regional em destaque na conferência "Financiamento dos media," a decorrer na cidadela de Cascais, onde se discutiram as dificuldades das rádios e da imprensa locais.

A+ / A-

Nas eleições legislativas de outubro deste ano o diretor da Universidade FM, rádio que emite a partir de Vila Real, tomou uma decisão drástica. Ao contrário dos últimos vinte e tal anos não fez entrevistas aos candidatos do distrito, não promoveu debates entre eles, nem andou na estrada a cobrir a campanha eleitoral.

Luís Mendonça fartou-se e quis "mostrar aos políticos que alguma coisa tem de ser mudada". Assim, "pela primeira vez, desde que existem rádios locais no distrito de Vila Real não houve nenhum debate em rádio com os candidatos às eleições legislativas".

O representante da cadeia de informação regional, que falava no segundo e último dia da conferência "Financiamento dos media", que está a decorrer na Cidadela de Cascais, mostrou-se, de resto, muito agastado com o poder político a quem atribui o grosso da responsabilidade pelo estado em que se encontra o jornalismo regional e local.

E concretizou essa ideia, referindo que "o problema é que as rádios têm sido esvaziadas pelas várias decisões implementadas por aqueles que representam o Estado", acrescentando que "os governantes em vez de darem força às rádios através de decisões ignoram o sector", para além do facto de "todas as propostas entregues pela Associação Portuguesa de Rádio e Difusão aos diversos governos e grupos parlamentares não têm saído das secretárias"

Luís Mendonça faz contas ao meio rádio. Há "5,150 milhões de ouvintes diários de rádio só no primeiro semestre de 2019", para além de "o Eurobarómetro apontar que a rádio é o meio mais confiável" com 25% de aprovação, refere o jornalista.

Ora, "perante estas evidências" Luís Mendonça conclui: "pergunta-se o óbvio", ou seja, "o que é necessário para dar força às rádios?". Questão a que o jornalista já não deu resposta.

"Vai lá pôr a notícia num outdoor"

O tema das dificuldades de financiamento e sustentabilidade do jornalismo regional e local ocupou boa parte da tarde desta terça-feira na conferência organizada pelo Sindicato de Jornalistas. Entre os convidados esteve o diretor do “Jornal de Leiria” que contou uma história de que foi protagonista e que serve para ilustrar essas mesmas dificuldades.

João Nazário relatou perante a plateia de jornalistas que pediu a um amigo que comprasse uma página de publicidade ao “Jornal de Leiria” ao que o amigo terá respondido que "com uma página de publicidade" comprava "não sei quantos outdoors". Passados meses o mesmo amigo quis denunciar através do “Jornal de Leiria” uma situação que prejudicava a empresa que dirige e Nazário viu-se obrigado a responder com um irónico "vai lá pôr a notícia num outdoor".

Então qual é a solução? João Nazário pede "algo mais estrutural" e que "não se ofereça aquilo que custou a construir" à imprensa regional. O jornalista propõe, por exemplo, que "as autarquias comecem a introduzir investimento na imprensa regional como contrapartida à instalação de algum tipo de empresas num território", ou seja "vias de acesso, jardim, porque não a imprensa ser contemplada com isso?"

Finalmente, o diretor do “Jornal de Leiria” desafia o Presidente da República "a aproveitar a notoriedade e poder de mobilização para criar um grupo alargado de mecenas que criem um fundo para o desenvolvimento de campanhas pagas na imprensa sobre assuntos chave da sociedade", dando como exemplos "a violência doméstica, questões ambientais, segurança rodoviária". Muitas dessas campanhas são publicadas gratuitamente na imprensa regional, devido ao interesse público que têm, justifica Nazário.

Não há apenas um problema de financiamento ou de sustentabilidade na imprensa regional. Há um problema de desrespeito por quem escreve ou emite a partir do interior do país. Que o diga Carlos Rui Abreu, diretor do “Notícias de Fafe”.

Para além de ser diretor de um jornal do norte do país, Abreu é também correspondente do “Jornal de Notícias” (JN) – diário com tiragem nacional e que faz parte do grupo Global Media –, e revelou que, quando pede "esclarecimentos a alguma entidade", se disser que é o diretor do “Notícias de Fafe” e pedir um prazo para resposta a maior parte das vezes não tem essa resposta, ao passo que se disser ao interlocutor que é correspondente do JN é garantido que tem "resposta daí a meia hora".

Publicidade institucional, mude-se a lei, já

No painel sobre imprensa regional o presidente da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã (AIC), tal como já tinha feito na semana passada no Parlamento com os deputados, descreveu a "situação dramática" que é preciso reverter, apresentando um caderno de encargos para mudar o estado das coisas.

Paulo Ribeiro quer que, em relação ao "porte pago e incentivo à leitura", exista uma "majoração do atual incentivo dos 40 para 80% com majoração de 10% para os territórios menos desenvolvidos e 90% para a diáspora".

Do lado fiscal, o presidente da AIC pede "em sede de IRS o desconto das assinaturas de jornais e revistas" e em sede de IRC "que a publicidade na comunicação social regional e local tenha este efeito de tributação".

Entre as 10 propostas da AIC está ainda que a propaganda eleitoral deve ser publicada nos jornais regionais e rádios locais e que a publicidade dos jogos Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) seja abrangida pela lei de publicidade institucional e que 25% da publicidade dos jogos financie a imprensa e as rádios locais.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.