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Rio Ave

Os 300 jogos de Tarantini no campeonato fazem-se de um clube e vários treinadores

26 nov, 2019 - 11:00 • Inês Braga Sampaio

O capitão do Rio Ave é exemplo de longevidade e consistência, mesmo à medida que, com 36 anos, o final da carreira se aproxima. Cada marca e recorde formam a impressão digital de um jogador que cresceu de mãos dadas com o clube.

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Os 300 jogos de Tarantini no campeonato fazem-se de um clube e vários treinadores
Foto: Liga Portugal

Tarantini está prestes a fazer parte do restrito clube de jogadores, no ativo, com 300 ou mais jogos no campeonato. Todo um percurso feito no Rio Ave, ao longo de 12 temporadas, e que conta a história de um jogador que conseguiu convencer treinador após treinador a apostar nele.

“Por um lado, é bom sinal, não é? É sinal de que já passou muito tempo, já consegui também pisar o relvado muitas vezes. É uma sensação fantástica, principalmente pelo trajeto que tenho vindo a fazer no Rio Ave. Consegui, através da constante mudança de treinadores, estar sempre a jogar. Isso é que me fez conseguir esta marca. Mas não é mais do que isso”, observa o capitão do Rio Ave, em entrevista a Bola Branca.

De facto, estes 300 jogos na I Liga não são apenas sinónimo de longevidade, mas também de consistência. Na temporada passada, com 35 anos, Tarantini disputou 24 jornadas. Esta época, com 36, ainda não perdeu um único jogo. Na pior das 12 épocas passadas no principal escalão, o médio português chegou aos 20 jogos no campeonato. Para isso, contribui ser uma extensão dos treinadores nas quatro linhas:

“Felizmente, e uma das razões de atingir esta marca, e de aos 36 anos continuar a jogar, é sem dúvida aquilo que os treinadores me dão e aquilo que eu dou aos treinadores. Ainda há pouco tempo, ouvíamos dizer que os jogadores é que fazem o treinador. Neste caso, posso dizer que a minha carreira é feita por aquilo que eu também dou aos treinadores, porque se não fosse isso, provavelmente, não seria tantas vezes escolhido, nem estaria tantas vezes dentro de campo para jogar. Portanto, isso é um belo sinal daquilo que eu faço dentro de campo.”

Ultrapassagens e mudanças de velocidade

Acima de Tarantini, na lista de jogadores, no ativo, com 300 jogos ou mais, estão Maxi Pereira, com 301, e Rui Patrício, com 327.

Se a ultrapassagem ao lateral uruguaio é praticamente uma certeza, chegar à marca do guarda-redes português é mais difícil, uma vez que requereria, pelo menos, mais uma temporada no ativo na I Liga. De qualquer forma, não é um objetivo concreto para Tarantini.

"Se conseguir atingir esse marco, bem melhor, mas o trajeto que tenho feito diz respeito ao trajeto que o Tarantini tem feito, portanto não procuro ter mais jogos do que outros jogadores que estão ainda no ativo. Nunca pensei nisso, sinceramente", confessa.

Com 12 anos de casamento feitos, e com o elevar da fasquia ano após ano, é natural olhar para trás e questionar: quem mudou mais? Tarantini garante que "foram os dois".

O médio recorda que o Rio Ave "era bem diferente há 12 anos", na primeira época no principal escalão. "Eu cheguei cá nesse preciso momento", lembra Tarantini, que não esconde que "inicialmente foram tempos difíceis, porque nunca tinha jogado na I Liga". Uma evolução que acompanhou a do clube:

"Atualmente, as coisas estão mais estáveis e equilibradas por cima e, agora, também temos uma responsabilidade muito grande em continuar a manter este nível e este padrão de clube que consegue estar nos oito primeiros classificados e, também, com vias de conquista europeia. Também eu cresci, com o tempo, e adaptei-me. Acredito que foram os dois que beneficiaram com isso."

Duas espinhas na garganta de Tarantini

O crescimento de Rio Ave e Tarantini levou, também, a um reajustar de objetivos. O Rio Ave passou de equipa que lutava para não descer, para uma equipa do meio da tabela e, agora, luta pelas competições europeias. Com isso, chegaram novos sonhos - e novas frustrações.

Nesta entrevista à Renascença, Tarantini assume que há dois grandes marcos de carreira que ficam por alcançar, "que provavelmente nunca tinha imaginado" quando começou a jogar futebol.

"Em 2014, estivemos nas três finais [Taça de Portugal, Taça da Liga e Supertaça]. E estar lá é bom, mas não levantar aquela taça é uma dor muito grande. Esse marco ainda fica aqui um pouco atravessado na minha carreira, enquanto jogador, e vou fazer tudo para o conseguir. Principalmente num clube com a dimensão do Rio Ave. Num clube doutra dimensão, é muito mais fácil, porque estão mais vezes nestas decisões e um clube como o Rio Ave não está. Vou continuar a trabalhar para conseguir lá chegar", assegura.

O outro objetivo é a seleção nacional. Este está mais distante, uma vez que, aos 36 anos, a hipótese de ser chamado por Fernando Santos é quase inexistente. Tarantini reconhece que, para ser opção, teria de ter chegado a um clube grande:

"Sei que o facto de ter jogado a este nível no Rio Ave nunca me permitiu ser uma opção para a seleção nacional. Sinto que talvez ficasse a faltar um subir de patamar para outro nível, para outro clube e, aí sim, fica depois a mágoa de nunca ter representado a seleção nacional."

E depois do adeus, um novo olá

Chegar aos 300 jogos no campeonato é sinal de muitas coisas boas, "mas por outro lado também é mau sinal". "Quer dizer que a seguir sou eu que vou sair", brinca Tarantini, nesta entrevista a Bola Branca.

O capitão Rio Ave é dos jogadores que melhor se acautelam para o momento em que decidem terminar a carreira. Em 2016, lançou o projeto "A Minha Causa", que visava alertar para a importância de preparar o pós-carreira de atleta profissional. Tarantini sabe que, em breve, os planos também se aplicarão a ele. No entanto, a dúvida persiste sobre aquilo que fará quando deixar o título de jogador para trás.

"Não posso apagar todos estes anos que tenho como jogador de futebol. Eu tenho formação em educação física, mas não é do meu interesse ser professor de educação física. O futebol já faz parte da minha vida. Não posso agora passar uma borracha sobre este trajeto no futebol. Vou continuar, sem dúvida, no futebol e tenho feito, dentro dos possíveis, por conseguir precaver-me para o que vem aí", afirma.

Ser treinador é "a opção mais válida", por esta altura. Um dos "culpados" pela escolha é Nuno Espírito Santo, atual treinador do Wolverhampton, que levou o Rio Ave às finais de ambas as taças, na época 2013/14.

"Felizmente, nos últimos tempos, o Rio Ave tem tido bons treinadores, que me põem a pensar: ‘e se, e se, e se’. Isso é a dúvida, porque eu sou um jogador que gosta de perceber o jogo. Admito que muito disso foi a seguir à entrada de Nuno Espírito Santo no Rio Ave, porque me permitiu conhecer melhor o jogo. A partir daí, todos os treinadores que tivemos colocaram outros problemas e outras dificuldades e tenho bebido muito daquilo que colocam no campo", explica Tarantini.

Apesar da vontade de passar das quatro linhas para o banco de suplentes, Tarantini tem noção de que "a vida de treinador é bem mais difícil que a de jogador e as oportunidades cada vez são mais escassas":

"Estamos perante um futebol em constante mudança em que os resultados são, sem dúvida, muito fortes, para quem quer fazer carreira. É preciso também entendê-la bem e saber aquele passo que for dado."

Uma festa para o futuro professor doutor

Por agora, enquanto as chuteiras não são guardadas, em definitivo, no cacifo, Tarantini preocupa-se mais em terminar os estudos.

Exemplo pouco comum entre os jogadores de futebol, o médio tem no currículo duas licenciaturas e um mestrado. Em breve, espera acrescentar um doutoramento. "Comecei em 2017, já estou na reta final", conta o capitão do Rio Ave à Renascença, com orgulho.

"Sem dúvida, e já disse publicamente, que um dos grandes objetivos até terminar a carreira é concluir o doutoramento. Não tem sido fácil, admito, até porque é um trabalho muito solitário, mas irei, como tenho feito até aqui, cumprir com aquilo que prometi", afiança.

Até lá, mais marcos esperam o jogador que há mais tempo atua na mesma equipa, na I Liga. O primeiro são os 300 jogos no campeonato. Tarantini não tem celebração especial preparada, mas conta com o Rio Ave para assinalar a data. Com alguém que acumula marcas importantes com cada novo ano que joga, é difícil organizar festas surpresa.

"A celebração tenho mais preparada quando faço os golos. Sei que vou fazer [os 300 jogos] e que é uma data especial. O Rio Ave tem marcado sempre essas datas com uma cerimónia especial e, assim sendo, acredito que estes 300 jogos vão ser marcados também por essa pequena cerimónia que indica esse belo número redondo", prevê Tarantini.

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