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Entrevista a Pablo d'Ors

"Temos muita confusão na cabeça e no coração. O que o silêncio nos dá é clareza"

05 nov, 2019 - 11:10 • Aura Miguel

O sacerdote e escritor espanhol, membro do Conselho Pontifício da Cultura, acaba de publicar mais um livro. Em "O Amigo do Deserto", traça-se uma "metáfora da interioridade" onde o deserto é um "lugar em que o horizonte tem a amplitude que o homem merece e de que necessita".

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Que livro é este?

Este livro fala de um homem que quer entrar numa associação chamada "Amigos do deserto", que é um grupo de pessoas que fazem viagens ao deserto. Ele fica intrigado com esta associação, mas não o deixam entrar. Passa por algumas dificuldades, até que finalmente consegue ficar. Faz uma viagem ao deserto, mas não gosta nada da gente que encontra. Regressa ao seu país e dá-se conta de que tem uma grande nostalgia do deserto. E com tantos pensamentos e nostalgia, regressa uma segunda vez ao Sahara e aí descobre uma paisagem que o fascina.

E porque é que o fascina?

Porque é um espelho de si mesmo.

O que quer dizer com isto?

Quero dizer que nós somos deserto. É verdade que temos muitas coisas, muitos pensamentos, atividades, muitos valores e problemas, mas se formos tirando tudo isto, descascando essas coisas, deparamo-nos com o que somos: um espaço. Num teatro pode haver muitos cenários, decorações e personagens, mas se os tiramos, o teatro continua. Então, a pergunta que está por detrás deste livro, como de todas as novelas sérias de literatura, é: "Quem sou eu?" E aqui a resposta é: "Tu és espaço, tu és deserto."

Podemos considerar que o livro é uma espécie de parábola? Ou Pablo d'Ors esteve mesmo, fisicamente, no deserto?

Gostaria que se entendesse como uma parábola, no sentido mais estrito da palavra. Sim, visitei o deserto, mas só depois de ter escrito este livro. Aqui fala-se do deserto do Sahara mas na verdade fala-se do deserto, essencialmente, como metáfora da interioridade. Portanto, é um convite a fazer deserto, a fazer silêncio.

Portanto, mistura experiência e ficção?

Tem uma componente autofictícia, mais do que autobiográfica, no sentido em que é um livro que parte do "eu", da experiência pessoal, mas evidentemente há muita fantasia. Para mim, esta novela é épica do indivíduo, ou seja, significa uma exploração no território da identidade, com egos imaginários. A novela é isto: um ego imaginário que se chama Pawel (Paulo em checo) e em que, depois, se explora em que consiste esta pessoa.

Nos tempos de hoje, com tanto ruído, em que todos andam a correr, falar do deserto é uma provocação. Mas Pablo d'Ors criou a associação "Amigos do deserto". Isto é o resultado da sua experiência e contacto com pessoas que têm este desejo sem o saberem expressar?

No meu entender, a necessidade primordial do homem contemporâneo, do europeu médio que tem as suas necessidades básicas asseguradas, é o silêncio. Isto é, temos um problema relacionado com demasiado ruído, exterior e interior. Por isso, falar de ruído é falar de dispersão. E o nosso principal problema é estarmos em muitas coisas e em nenhuma. Há um défice de atenção. Simone Weil dizia que "amar é estar atento". Por isso, se queres saber o que amas, procura saber a que é que estás atento.

É isso que nos falta: prestar atenção?

Justamente, o que nos faz falta é a capacidade de atenção. Com este propósito nasce a associação "Amigos do deserto", que busca aprofundar e difundir a experiência da meditação, da aventura interior. Tem analogias com a associação de que fala o livro mas, evidentemente, na realidade é outra coisa.

E qual é a utilidade desta associação?

Nasce como um presente de Deus, assim o tenho vivido. É algo que não estava nos meus planos ou projetos, mas que me chegou às mãos. A associação nasce porque há muitas pessoas que têm hoje uma sede espiritual e não encontram respostas dentro das estruturas pastorais da Igreja Católica. Procuram-nas de várias maneiras, no ioga, no zen, e eu pretendo mostrar que, dentro da tradição cristã da igreja ocidental, também existem caminhos para a busca interior.

Que conselhos dá a quem tem medo do silêncio? Que resultados se conseguem?

O que o silêncio nos dá, fundamentalmente, é clareza mental, uma clareza cordial, afetiva. Habitualmente, temos muita confusão na cabeça e no coração. Então, no silêncio, paramos, escutamos, observamos e, assim, toda essa confusão e ruído vai-se, gradualmente, acalmando e isso permite-nos ver com maior clareza. Este é o primeiro fruto. O segundo fruto é a humildade, porque quando passas a ver com clareza, então podes ver-te a ti mesmo de modo claro. Assim, deixas de te autoafirmar permanentemente, como habitualmente fazemos, e passas a viver com uma atitude mais sensata, mais realista e mais modesta sobre quem tu és na vida. E uma vez que isto te dá humildade e claridade, também te dá coragem, é esse o terceiro fruto do silêncio. Ou seja, dá-te capacidade de arriscar, de apostar, de decidir, de fazer opções, de te bateres por aquilo em que acreditas. E, por último, se tens coragem, humildade e clareza, és fecundo, não és passivo, dás fruto. Por isso creio que o silêncio muda profundamente a vida das pessoas.

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