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Anderlecht

O treinador tirou-me o lugar. Josué Sá conta como foi ser treinado por Kompany

25 out, 2019 - 11:30 • Inês Braga Sampaio

O central português teve Vincent Kompany como treinador-jogador, no Anderlecht. No final, o ex-Manchester City escolheu-se para titular e Josué Sá foi emprestado ao Huesca. Em entrevista à Renascença, Josué admite que a experiência foi "estranha".

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Josué Sá competiu por um lugar com o treinador - e perdeu. O Anderlecht contratou Vincent Kompany para ser jogador-treinador e o ex-Manchester City reclamou para si um lugar no eixo da defesa, relegando o central português para um empréstimo ao Huesca. Em entrevista à Renascença, Josué Sá confessa que ter o belga como colega e treinador foi uma experiência algo constrangedora.

"Para ser sincero, foi um pouco estranho. O Kompany nunca criou uma barreira entre ele e os jogadores e tornou as coisas o mais naturais possível, mas era como que, 'OK, mas dentro do campo, se tu errares, o teu erro tem o mesmo valor que o meu, eu também tenho o direito de falar para ti como falo para outro colega meu'. Mas acaba por ser estranho, porque estás a lidar com o treinador. Nós tínhamos tudo muito bem esclarecido, daquilo que era o treinador, o treinador adjunto que estava no banco nos jogos em que o Kompany estava a jogar. Mas é estranho estar ali o treinador ao lado", reconhece.

A certa altura, Josué Sá teve "uma conversa sincera" com Kompany e explicou-lhe que esperava "ter um papel de destaque" no Anderlecht. A resposta que recebeu foi negativa, porque o treinador planeava apostar em si próprio.

"Ele disse-me que não me podia garantir minutos, que ele estava para jogar e achava que ia jogar muitos jogos, e que tinha ido buscar um rapaz ao Manchester City em que ele acreditava bastante, um jovem, que é o Philippe Sandler. E que a decisão ia cair sobre eles, pelo menos neste início de época. Eu vi que o meu espaço ali era muito reduzido e tomei uma decisão", explica.

Foto: Anderlecht

Como competir com uma lenda?

Josué Sá acredita que teria lugar no plantel do Anderlecht, apesar de reconhecer que qualquer treinador poria Kompany a jogar, pela lenda que é, especialmente na Bélgica. Por isso, não condena que o próprio Kompany o tenha feito.

"Competir com ele seria sempre difícil, ainda é um excelente jogador. Se pusesse lá outro treinador, ia escolhê-lo sempre a ele, pela experiência e pela qualidade que tem. Não estamos a falar de um jogador qualquer que vai disputar um lugar connosco. Nós sabíamos da importância que ele tinha na equipa e ainda estava em forma e provou-o em todos os treinos e jogos-treino que fez. A questão estranha, para mim, era ser o treinador-jogador", ressalva o central português.

Além da estranheza de jogar ao lado do treinador, Josué Sá aponta um dado que prejudica o próprio Kompany: "Apesar da experiência dele, é sempre muito mais difícil ver o jogo de dentro do que de fora. Às vezes, dentro de campo, temos uma visão e, depois, vemos de fora e há outra completamente diferente daquilo que está a ser o próprio jogo. Ele vive um bocado essa dificuldade, hoje em dia."

No final, "a decisão de sair foi mútua", porque Kompany não ia apostar em Josué e porque o português não se identificava com o projeto do Anderlecht:

"Eu sempre me habituei que os jovens, para jogarem, tinham de provar, tal como os mais velhos. Eu tive de provar a minha qualidade para jogar na equipa do Vitória de Guimarães. E senti que, no Anderlecht, estavam a apostar nos jovens só pela idade. Este é mais novo, se calhar tem a mesma qualidade, joga. Porque é mais novo. Eu não me identifiquei com esse projeto."

Já sem Josué, que "aprendeu muito com ele", Kompany tem sido contestado, o que até levou o Anderlecht a contratar o ex-Sporting Franky Vercauteren para apoiar o jogador-treinador. Josué não acredita, contudo, que o insucesso do histórico clube belga se deva a Kompany ou à diluição de fronteiras entre treinador e jogadores.

Foto: Anderlecht

Huesca devolve o sorriso a Josué

Enquanto o Anderlecht "arde", Josué Sá vai gozando de sucesso em Espanha, a jogar um futebol "que se adequa às suas características" e após uma das adaptações mais fáceis da carreira.

"Preferi ir para um projeto onde me valorizassem e onde eu me pudesse valorizar enquanto jogador. Aquilo que me seduziu mais foi o projeto do Huesca, a ambição de subir de divisão, a maneira como me falaram, como necessitavam de mim para jogar, que era aquilo de que precisava. Queria vir para uma liga com visibilidade, para jogar regularmente e recuperar o terreno que perdi na Turquia [cedência ao Kasimpasa, na última época]. Não podia estar mais contente com a decisão que tomei, porque o futebol espanhol, mesmo a II Liga, é fantástico. É outro ambiente", regozija.

O Huesca está na zona do "play off" de promoção à La Liga, a dois pontos do segundo lugar, que dá a subida automática.

Josué confia que é possível atingir para o Huesca regressar ao principal escalão, uma época depois da descida.

"Acredito muito. Claro que esta Liga é muito competitiva, é muito difícil. Há um grupo de oito, nove, dez equipas que realmente podem aspirar a subir, pelas equipas que constroem, pelos investimentos que fazem. Agora, todos os fins de semana há três resultados possíveis, a realidade é essa. Com o trabalho e com aquilo que eu vejo da nossa equipa, acho que é possível. Temos é um longo caminho pela frente e temos de fazer as coisas bem, mas acredito sim", afiança.

Foto: Twitter do Huesca

Futuro imprevisível, mas risonho

Josué Sá está a gostar da experiência e até admite, caso o clube suba à La Liga, continuar no Huesca. Contudo, lembra que, no futebol, "nunca sabemos o dia de amanhã".

"Que estou muito feliz neste momento e estou muito feliz com a decisão que tomei, sim. Acho que vou querer continuar aqui em Espanha, seguramente, e se o Huesca quiser continuar comigo e quiser exercer a opção, acho que não vou ficar chateado com isso", brinca.

Josué quer, para já, "que esta época corra bem e para o ano poder tomar uma boa decisão". "Seja ficar aqui em Espanha, seja noutro clube qualquer, espero que esta época seja uma boa mola, porque me sinto bem. Acho que agora estou na plenitude das minhas capacidades enquanto defesa-central, conheço bem o jogo e sinto que estou preparado para o próximo nível", assegura.

O próximo nível pode, até, ser um grande português. Josué "gostaria de ter essa oportunidade", agora ou mais tarde. Porém sabe que a sua carreira "tomou outro rumo", por agora:

"Obviamente, quando somos miúdos, sonhamos sempre em representar um grande em Portugal e eu não sou diferente, sempre vi isso no meu horizonte. Agora, a minha carreira tomou outro rumo e eu estou concentrado naquilo que é, realisticamente, fazer uma boa época aqui, se possível subir de divisão, que era algo incrível, e depois o que o mercado nos traz é sempre imprevisível, nós nunca sabemos o que é que vem, o que não vem. Depois, é decidir o melhor possível."

Foto: Anderlecht

A seleção e o destino final desejado

Outro sonho de menino que Josué tem é representar a seleção, embora "não veja isso num futuro próximo".

"Acho que tenho ainda um longo caminho a percorrer, para poder chegar a esse patamar. Ainda tenho várias barreiras para ultrapassar. Mas, por exemplo, se eu conseguisse fazer aqui uma boa época e subíssemos de divisão e eu conseguisse chegar à I Liga espanhola, seja no Huesca ou noutro clube qualquer, aí sim, claro. Representar a seleção é um sonho de qualquer miúdo português e isso esteve sempre na minha cabeça", assume.

Outro desejo que Josué Sá tem bem presente, e sobre o qual já confidenciou com a pessoa que lhe é mais próxima, é um regresso ao Vitória de Guimarães, clube que o lançou no futebol profissional e que representou durante oito anos:

"Já falei diversas vezes com a minha mulher que, se houvesse a possibilidade de voltar e acabar a carreira no Vitória, um clube que me diz muito e que me diz tanto, eu gostaria. Agora, a nossa carreira é muito imprevisível. O que é que eu preciso, o que é que eu vou precisar, se vou ficar aqui em Espanha, se não vou. Neste momento, falta-me este ano e mais outro de contrato. Nós não sabemos nunca onde vamos estar."

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  • Nelo Night
    27 out, 2019 15:55
    Muito bom artigo