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33.º Encontro Nacional da Pastoral Social

"Enquanto não se tratarem as doenças mentais, não se resolve o problema dos sem-abrigo", defende psiquiatra

22 out, 2019 - 23:54 • Teresa Paula Costa

O psiquiatra António Bento, que destacou o papel social das instituições da Igreja - “fundamentais e muito importantes”, sublinha que “as pessoas em situação de sem-abrigo evidenciam um conjunto múltiplo de perdas, das quais, se calhar, a mais visível é a pobreza".

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Não é tratando da pobreza que se resolve o problema dos sem-abrigo, mas com mais investimento na doença mental. A ideia foi hoje deixada esta terça-feira em Fátima, no 33.º Encontro Nacional da Pastoral Social, pelo psiquiatra António Bento.

Defendendo que “ninguém vai para a rua por falta de dinheiro”, o médico disse à Renascença, à margem dos trabalhos, que não acredita “que a resolução seja mágica, como agora se diz, 'nível 0, vamos acabar com os sem abrigo, vamos fazer 0’”.

Admitindo que “era importante termos respostas para todos”, o médico aponta que seria preciso haver 3.800 respostas, pois “oficialmente, são cerca de 3.800” os sem-abrigo.

“As pessoas em situação de sem-abrigo evidenciam um conjunto múltiplo de perdas, das quais, se calhar, a mais visível é a pobreza, mas, depois, há muitas outras, entre as quais as mais ignoradas, aquelas de que nunca se fala, que são os problemas de saúde e as psicoses", sublinha António bento.

"Enquanto não se tratarem as doenças mentais, não se resolve o problema dos sem-abrigo, porque não se resolve com soluções sociais nem sequer habitacionais", sentencia o especialista.

Defendendo uma ação “articulada”, o psiquiatra salienta que, apesar de tudo, “estamos no bom caminho", em Portugal. "Temos os NPISAS [Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo], temos já um grau de colaboração que é muito razoável comparado com outros países da Europa, mas, se reparar na quantidade de investimento que há, só o Governo tem 131 milhões de euros no plano de ação e, depois, mais uns milhões daqui e uns milhões de acolá, para 3.800 pessoas”.

"É preciso muito dinheiro, muito investimento e, sobretudo, uma coisa que ainda nem sabemos, que é exatamente quem são estas pessoas", às quais não basta “pôr-lhes o rótulo de pobres e dar-lhes uns dinheiritos.”

Para o psiquiatra, as instituições da Igreja “são fundamentais e muito importantes”. Reconhecendo que a Igreja tem “uma função social na pobreza que é fundamental” o médico elogia, sobretudo, o objetivo “de ajudar os outros, de dar amor aos outros e dar o seu tempo pessoal e a sua dedicação”.

"Como os sem-abrigo não têm nada, tudo aquilo que se lhes der nunca é demais e pode até nem chegar", aponta António Bento, para rematar: "Aquilo que a igreja faz ou que as pessoas de boa vontade, as pessoas que genuinamente querem ajudar fazem é sempre bem vindo e é útil.”

António Bento trabalha com sem-abrigo há mais de 30 anos. Atualmente, desenvolve a sua atividade no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa que tem como valências psiquiatria de rua, consultas, internamento e um grupo psicoterapêutico aberto.

O 33.º Encontro Nacional da Pastoral Social decorre até quinta-feira em Fátima, subordinado ao tema “Trazer as periferias para o centro”.

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  • Petervlg
    23 out, 2019 Trofa 17:09
    é fácil tratar dos sem abrigo, o estado tem tantos edifícios devolutos e tanta gente nas camaras municipais, sem fazer nada, que podem tirar essas pessoas da rua pelo menos para dormir com um teto. é só com falta de vontade politica que existem sem abrigos
  • Filipe
    23 out, 2019 évora 14:01
    Só conseguem tratar as doenças mentais quando as polícias e magistrados receberem a formação devida e deixarem de tratar essa pobre gente como judeus em campos de concentração Nazi .