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Paul Theroux. "O futuro será baseado na liberdade de observar e escrever a verdade"

15 set, 2019 - 11:37 • José Pedro Frazão

Foi um dos destaques do primeiro dia do Encontro "O Futuro do Planeta" da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O escritor norte-americano fez a defesa da liberdade de imprensa e da capacidade de aprender com os povos de todo o planeta.

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Apresentou-se em Lisboa como alguém que esteve onde a maioria não esteve, no passado. Escritor de viagens, professor, amigo de V.S. Naipul, caminhante por rostos e paisagens de todo o planeta, Paul Theroux folheou em palco o mundo que conheceu fora da vista das passadeiras vermelhas, como assinalou diversas vezes.

No primeiro dia do Encontro "O Futuro do Planeta", em Lisboa, organizado pelas Fundações Oceano Azul e Francisco Manuel dos Santos, Theroux lembrou aqueles que tentam prever o futuro em romances ou em meros prognósticos clínicos.

"Vivi no Malawi. A pessoa mais importante não era o primeiro-ministro, mas o médico local. Tinha o poder da profecia. A pessoa mais respeitada é sempre aquela que vê o futuro", revelou o autor de “O Velho Expresso da Patagónia” e “O Grande Bazar Ferroviário”.

Lembrando como desde sempre a ficção tentou desenhar um futuro carregado de tecnologia e medos, Theroux recordou o seu próprio "O-Zone" de 1987 onde havia perímetros definidos para pessoas em zonas seguras e a previsão de um grande desastre nuclear. "Mas não pudemos prever que Nova Iorque seria atacada por aviões. Quem o imaginaria?"

Trump, Orwell e os jornais

A liberdade de prever o futuro, criando livros ou perspetivando desafios, foi reclamada por Paul Theroux como um direito essencial para os humanos. "As pessoas ainda falam de 1984 como se fosse o futuro", prosseguiu o autor norte-americano para articular de forma mais clara os problemas do presente. Partindo para o desafio de observar a realidade e relatar a verdade, Theroux conclui que "Trump é Orwelliano" ao atacar a imprensa num gesto de totalitarismo. Para podermos ser livres "devemos ver as coisas como elas são, mas não pela passadeira vermelha" e não podemos prever o futuro, mas certamente conseguimos "aproveitar com precisão o presente", na citação de V.S.Naipul trazida ao palco por Paul Theroux.

Elogiando o encontro promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos – "estamos aqui porque estamos preocupados, juntamo-nos como os cristãos antigos" – Theroux associou a reflexão sobre o planeta à liberdade de imprensa.

"O mais importante será falar a verdade, escrevê-la, disseminá-la na internet, transmiti-la. O importante no futuro será ver as coisas como elas são. observar e reportar a verdade. Se algo sair deste evento será a possibilidade de publicar a verdade. E conhecer pessoas com experiência, que conhecem o problema", conclui Theroux.

Os animais, nós e eles

Nas horas seguintes, o ecologista e ornitólogo Carl Safina revelou os processos emocionais "dos outros com quem partilhamos este planeta", lembrando que os seres humanos não são os únicos na Terra que procuram afetos, estabelecem laços familiares, expressam curiosidade ou até dançam ao longo da vida.

"Não é científico dizer que um animal tem cansaço ou fome e negar-lhe o sentimento de 'alegria'. Tudo isso dá cabo das nossas narrativas de sermos os únicos que podemos ter esse sentimento", afirmou o autor de diversas séries sobre o mundo animal. Ao longo da sua apresentação, Carl Safina foi desfiando imagens que expõem os danos causados pelo homem sobretudo nos oceanos. "Fazemos-lhes – aos animais – tanto mal que me pergunto como é que eles não nos fazem igualmente mal? Somos o ser mais cruel e ao mesmo tempo compassivo deste planeta", sublinhou o conservacionista.

A relação difícil do ser humano com as restantes espécies que habitam o planeta leva Safina a invocar a infância e a ingenuidade dos primeiros dias de vida de um bebé. Usando imagens captadas em maternidades, o ecologista mostra como "gostamos de pintar arvores e animais para o bebé, não pintamos telemóveis". E se a questão inicial derivar da dúvida sobre se os animais amam o homem, Safina reponde com a pergunta ao contrário. "A questão é se o coração e a alma humana têm a capacidade de os autorizar a existir neste milagre que partilhamos chamado planeta Terra", rematou o ecologista na conferência que deu lugar ao resto do programa marcado por debates em torno da água no planeta e dos trabalhos de oceanografia em particular nos Açores.

O segundo dia do encontro "O Futuro do Planeta" inclui debates sobre a agenda internacional da sustentabilidade, o futuro dos oceanos, produção e consumo sustentável e encerra com intervenções do antigo Secretário de Estado norte-americano John Kerry e a exploradora Sylvia Earle.

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