Opinião de Luís António Santos
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“O que nos interessa são as bombas!”

10 ago, 2019 • Opinião de Luís António Santos


A greve dos motoristas é um assunto importante, sem dúvida, mas diretos sem fim junto a bombas de gasolina não acrescentam uma grama sequer de discernimento.

A greve dos motoristas de transportes de matérias perigosas ainda não começou, mas este tem sido o tema dominante de um agosto sem incêndios na generalidade dos alinhamentos informativos do país.

Invariavelmente, tivemos, ao longo destes primeiros dez dias (em boa verdade, a coisa já se arrasta desde julho) uma torrente de informações a conta-gotas – a declaração deste sindicato, a declaração daquele sindicato, a reunião dos ministros, a declaração deste ministro, o (cada vez mais inevitável) pronunciamento do dia por parte do presidente da República e, no caso dos canais informativos de TV, a escolha de um qualquer posto de gasolina para nos dar conta das filas e para fazer perguntas aos cidadãos sobre a forma como estavam a abastecer o seu veículo (‘Não vai atestar? Mas então não está preocupada?’).

Um estudo recente, a que o Público fez referência no caderno Ípsilon do dia 6, sobre a relação entre a chamada ‘TV lixo’ e o crescimento do populismo em Itália, conclui que o fator determinante terá sido não a difusão clara de mensagens políticas de um certo tipo, mas antes o quase desaparecimento da informação, a troco de horas e horas de entretenimento.

“Os mais jovens espectadores da Mediaset (canal na origem do império mediático de Silvio Berlusconi), que viram o canal nos seus anos de formação, tornaram-se menos sofisticados cognitivamente e com menos espírito cívico do que os seus pares”, revela o trabalho publicado na revista científica, American Economic Review. Ou seja, a menor exposição a conteúdos informativos ‘complexos’ – com detalhes, com explicações, com enquadramentos – terá promovido em Itália, ao longo destes anos, o “aumento duradouro do apoio a candidatos populistas que apregoavam mensagens simples e respostas fáceis.”

No caso da nossa ‘crise dos combustíveis’ parte substancial do trabalho feito por empresas jornalísticas enquadra-se numa lógica de entretenimento. Foi, aliás, quase só isso que nos deram os média com maior presença diária nas nossas vidas – uma narrativa por episódios com micro-histórias diárias (cada uma delas com o seu micro-drama e, se possível, com um micro-climax) interligadas a uma história central.

É uma estratégia que nos é familiar – usa-se nas telenovelas e nas séries – com efeitos provados na atração de audiências, mas que está muito longe de ser a ideal para trabalho jornalístico que nos ajude a entender a realidade e a melhor viver com ela.
Na ausência dos incêndios, as ‘máquinas de produção de eventos’ viraram-se para as bombas de gasolina e nem mesmo a estação de Serviço Público parece ter conseguido escapar ao poder de atracão das ‘labaredas’.

É óbvio que o Jornalismo precisa de falar sobre o que acontece e sobre o que nos preocupa, mas é igualmente óbvio que o Jornalismo que temos (sobretudo o televisivo nos canais informativos de 24h) exorbita essa missão em nome de lógicas que estão muito ao lado do interesse público. A greve é um assunto importante, sem dúvida, mas diretos sem fim junto a bombas de gasolina não acrescentam uma grama sequer de discernimento; já falar-nos dos milhões a mais que as gasolineiras conseguiram ganhar neste período, como faz este sábado o Jornal de Notícias, é outra coisa...mas isso, pelos vistos, ‘dá menos’ do que imagens de uma escaramuça entre automobilistas em fila para abastecer.

Comentários
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  • Francisco Rodrigues
    10 ago, 2019 Porto 19:57
    Estarei a ler bem? O que é que eu leio? " ... não acrescentam uma grama... " A que grama se estará a referir o autor? Excelente artigo ??? !!! Nem li mais nenhuma linha. Já fiquei servido. É pena.
  • Cidadao
    10 ago, 2019 Lisboa 15:30
    Sim, já chateia. Até porque com os serviços mínimos decretados, e mais o que está preparado para avançar caso estes não sejam cumpridos, cabe perguntar: "Greve? Qual greve?". Há lá necessidades de corrida às bombas, ou de andar "à pêra" porque "aquele tipo passou-me à frente" ou sequer de esgotar combustível nas bombas mesmo sem a greve começar - se esgotou, foi por gestão medíocre do responsável por essa Bomba, pois a greve neste momento ainda não foi declarada. Mas claro, estamos em Portugal em plena Silly Season. Se não há incêndios, transferências bombásticas, e o Campeonato ainda não começou, a Comunicação Social tem de nos "entreter" com qualquer coisa ...
  • Joao Santos
    10 ago, 2019 Do Mundo dos vivos 14:37
    Excelente artigo de opinião que subscrevo. Lamento o clima de inquietação que estão a criar nas pessoas, transmitindo directos das bombas de combustível e dos grandes centros comerciais. Um péssimo exemplo de jornalismo que mais parece oportunismo de quem não tem mais nada a transmitir. Mostrem programas culturais, de interesse geral, bem bastão as novelas que transmitem em hora nobre que poderiam ser aproveitadas para ensinamentos do dia a dia e não de intriguista.