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Morreu D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal

24 set, 2017 - 14:53

Fez de Setúbal a sua nova casa e prometeu anunciar o “Evangelho da Justiça e da Paz”. Nos 23 anos que esteve à frente da Diocese de Setúbal, denunciou o trabalho infantil, os salários em atraso, o desemprego e a vida nas barracas. Morreu aos 90 anos.

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D. Manuel Martins, o bispo dos marginalizados
D. Manuel Martins, o bispo dos marginalizados

D. Manuel Martins faleceu este domingo, na Maia, às 14h05, "após receber a Santa Unção” e acompanhado pelos seus familiares, informou em comunicado a diocese de Setúbal.

No momento da sua ordenação episcopal, assumiu por inteiro a diocese: “Nasci Bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da justiça e da paz.”

Ao longo da sua vida, teve uma presença muito activa na área social e preocupou-se com os mais carentes e marginalizados. Durante a crise dos anos 80, D. Manuel Martins teve uma intervenção directa contra as situações de desemprego, salários em atraso, trabalho infantil e as más condições de habitação, nomeadamente o flagelo das barracas em Setúbal. Devido às denúncias que fez sobre as situações de pobreza e de fome na região de Setúbal, chegou a ser conhecido como o "bispo vermelho".

O bispo emérito de Setúbal nasceu a 20 de Janeiro de 1927, em Leça do Balio, concelho de Matosinhos. Foi ordenado sacerdote em 1951, após a formação nos seminários do Porto, seguindo-se a frequência do curso de Direito Canónico na Universidade Gregoriana, em Roma. Em 1975 é nomeado bispo da nova Diocese de Setúbal, de onde só saiu 23 anos depois, em 1998.

"Quando cheguei a Setúbal, levava uma recomendação muito importante do bispo de Porto, António Ferreira Gomes, que me disse para tentar não aparecer como colonizador, para procurar mergulhar em Setúbal, ser de Setúbal, ser Setúbal. E, felizmente, isso aconteceu-me", recordou Manuel Martins, enquanto partilhou, com a Lusa, em 2016, algumas histórias desses tempos conturbados.

Nessa conversa com a Lusa, recordou um episódio de troca de palavras com o então primeiro-ministro, Mário Soares.

"O Governo de Mário Soares dizia publicamente que em Setúbal não havia fome, que o bispo de Setúbal é que fazia fome. A comunicação social não me largava e um dia eu respondi dizendo que 'se a fome era Nafarros e Belém, podíamos dar graças a Deus porque em Portugal não havia fome'", lembrou.

Existia mesmo "fome em Setúbal", assegurou o 'bispo vermelho', que é considerado um dos principais responsáveis pela acção que a Igreja Católica continua a ter na região de Setúbal, designadamente no apoio social aos mais pobres e excluídos.

"Temos um défice de católicos a agir como políticos"
D. Manuel Martins em entrevista à Renascença em 2011: "Temos um défice de católicos a agir como políticos"

D. Manuel Martins foi presidente da Comissão Episcopal da Acção Social e Caritativa e da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo, presidente da Secção Portuguesa da Pax Christi e da Fundação SPES.

Ao longo da vida foi várias vezes distinguido pela sua acção, sendo caracterizado como uma personalidade aberta e frontal. Em Setúbal, várias autarquias designaram-no cidadão honorário, tendo sido condecorado por diversas vezes com a medalha de mérito. O seu nome foi atribuído polo de Setúbal da Universidade Moderna e à antiga Escola Secundária n.º 1, localizada na Estrada do Alentejo.

O bispo emérito foi ainda agraciado com a grã-cruz da Ordem de Cristo, durante as comemorações do 10 de Junho de 2007, em Setúbal, e com o galardão dos Direitos Humanos da Assembleia da República, a 10 de Dezembro de 2008.

Em Março deste ano, o Presidente da República Portuguesa saudou o percurso de vida de D. Manuel Martins, que completou 90 anos a 20 de Janeiro.

“Nascido em Matosinhos, no norte de Portugal, D. Manuel Martins sempre manteve a fidelidade aos princípios e valores distintivos daquela região do país: o sentido de serviço aos outros, a dedicação ao trabalho e a preocupação permanente com a justiça social”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa, num texto divulgado pela Presidência da República.

O Chefe de Estado sustentou que o antigo bispo de Setúbal coube projectar “os valores universais do humanismo cristão muito para lá dos limites da sua diocese”.

“Seria na Diocese de Setúbal que, entre 1975 e 1998, a lealdade a esses valores mais se fez sentir, tornando D. Manuel Martins uma personalidade por todos admirada quer pelo vigor e desassombro da sua palavra, quer pela energia da sua ação, quer pela sua rigorosa independência face aos poderes instituídos”, assinala o Presidente português.

Um homem que cresceu com a rádio
Um homem que cresceu com a rádio. A história da rádio conta-se por quem a viu nascer e transformar-se. D. Manuel Martins tinha 10 anos aquando da fundação da Emissora Católica. Testemunha da rádio em Portugal, o bispo emérito de Setúbal abriu a janela da memória em 2012, quando a Renascença comemorava 75 anos, para fixar os momentos em que aquela que já foi considerada a maior invenção de todos os tempos esteve presente na sua vida.

As exéquias fúnebres de D. Manuel Martins celebram-se na próxima terça-feira, dia 26 de Setembro, pelas 15h00, no Mosteiro de Leça do Balio.

O corpo estará em câmara ardente no Mosteiro, a partir de segunda-feira, 25 de Setembro, entre as 9h00 e as 24h00, e terça-feira, dia 26, entre as 9h00 e as 12h00.

A missa de sétimo dia realizar-se-á no domingo, 1 de Outubro, pelas 16h00, na Sé de Setúbal.

Comentários
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  • 26 set, 2017 PRACETA DE BUSTES 41/ 1 - CANIDELO VILA NOVA DE GAIA . 17:37
    D. MANUEL MARTINS . MORREU"" Era um Homem muito apaixonado pelas causas da Humanidade" mas além de isso, Serviu " PORTUGAL" Como Escuteira o SAUDO !! SEMPRE ALERTA PARA SERVIR !!! LOURDES FORTUNA .
  • DR XICO
    25 set, 2017 LISBOA 11:04
    Um Homem que incomodava muita gente daí a indiferença de alguns. Um lutador pelos pobres, exemplo de coragem, conotado com os comunistas? será que em Portugal só o PCP defende os pobres?? parece que sim pelo que tenho ouvido e lido, então sou comunista como D. Manuel Martins.
  • couto machado
    25 set, 2017 porto 09:13
    Sem dúvida que o senhor D. Manuel Martins, foi uma pessoa de grande mérito e alertou os poderes instituidos na rebaldaria da época, para a necessidade de atender aos mais desfavorecidos. Essa gente desprotegida não era só em Setúbal, mas sim em todo o País. Mas houve um HOMEM chamado Padre Américo que, em face da apatia e laxismo dos governantes, fez e não alertou ninguém parra fazer. A Casa do Gaiato ainda hoje é uma referência. A Obra do Gaiato mereceu sempre o maior respeito do povo. O funeral do Padre Américo, foi dos mais impressionantes testemunhos de gratidão que esta gente da Cidade do Porto lhe prestou. Paz à sua Alma.
  • David
    24 set, 2017 Setúbal 23:48
    Nunca o vi, nunca o encontrei por aqui, mas pelo que já li sobre ele, sempre foi fiel aos seus princípios e foi uma honra, para mim, andar numa escola que lhe homenageou o nome.
  • emaria
    24 set, 2017 porto 17:34
    Há homens que pela sua estatura moral e ética nao deviam partir. Nao há igual na igreja actual . Deixa saudades.
  • josé bernardo inácio
    24 set, 2017 loures 17:25
    D,MANUEL MARTINS. UM VISIONARIO DO SEU TEMPO. TAMBÉM UM HOMEM DO SECLO VINTE E TAMBÉM DO SECLO VINTE E UM. FOI UM GRANDE HOMEM, QUER PARA SETUBAL QUER PARA PORTUGAL.
  • rosinda
    24 set, 2017 palmela 17:07
    desde quando o jeronimo de sousa e religioso!
  • Francisco Jesus
    24 set, 2017 Corroios 16:49
    Grande Senhor...
  • Miguel
    24 set, 2017 lisboa 16:36
    Sempre o achei um bocadinho para o comunista... Eu sou de direita conservador e catolico conservador, também nao engraço com o papa francisco. Paz à sua alma.
  • Maria Martins
    24 set, 2017 S Mamede Infesta 16:19
    Perde-se o Homem mas fica o Exemplo.