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Tomada de Posse do Presidente da República

​OUPA! Quem são os jovens do Cerco que vão actuar para Marcelo?

08 mar, 2016 - 14:53 • Marília Freitas

Começou como uma residência artística, aproximou miúdos de bairro de músicos famosos, resultou em espectáculo com casa cheia no Rivoli e agora até vai materializar-se num estúdio de gravação no meio do bairro. Porque "a música é uma arma", diz o mentor André Tentugal. O OUPA! é hip-hop "made in" Cerco e foi escolhido por Marcelo para integrar o roteiro da tomada de posse e dos primeiros dias de Presidência, no Porto.

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Excerto do documentário "Cercados", filmado no bairro do Cerco
Excerto do documentário "Cercados"

VÍDEO DOCUMENTÁRIO Legenda: Do projecto resultou também um documentário realizado por André Tentugal

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"Sejam todos bem-vindos a este canto da cidade". A música assume a forma de um convite a uma visita ao Cerco. Surge pela voz de Joca, Drunk Nigga, Ruubi, Kest, Raune Fenix, Ricardinho, Lendária Treze e Black Mama (nomes artísticos), oito jovens do bairro que integram o projecto OUPA!, uma residência artística promovida pela Câmara do Porto.

O projecto, que durou quatro meses e culminou num concerto no teatro Rivoli, contou com vários formadores de renome, entre os quais a "rapper" Capicua e o músico e realizador André Tentugal.

O objectivo era potenciar o talento musical dos jovens e a sua capacidade de transmitir mensagens através da música. "A música para eles é uma arma e uma forma de comunicar aquilo que sentem, a realidade deles”, afirma André Tentugal, em conversa com a Renascença.

O músico dos We Trust recorda o dia em que chegou ao bairro. “Confesso que ia com algum receio e alguns preconceitos. O bairro é um pouco afastado da cidade, os acessos não são propriamente fáceis, há vários atalhos. E lembro-me de ver um grupo de ciganos que, pelo que percebi depois, costuma estar lá a meio de um desses atalhos a ver quem passa e a observar quem são os estranhos que estão a invadir ali o território.”

Mas rapidamente começou a sentir-se confortável no Cerco, conta agora. Criou laços de amizade com os jovens do projecto e percorreu o bairro de câmara na mão para gravar o documentário que também resultou desta residência artística. “Nalgumas casas as condições eram bastante fracas. Vi alguma miséria, pobreza, algum abandono. Mas fomos sempre muito bem recebidos, com muita generosidade”, relata.

“Do Cerco ao centro” é uma das músicas que fala do bairro. O "videoclip" é assinado por André Tentugal e Vasco Mendes

"Queremos levar a mensagem de que neste bairro não é só marginalidade e droga, também há talento e pessoas com força de vontade para fazer coisas. E há músicos, como se vê", disse Jorge Saraiva (Joca), em Julho de 2015, quando a Renascença visitou o projecto.

“Nós somos olhados de lado, porque dizem 'são do bairro, são asneirentos, são marginais'. E nós, através da música, queremos mostrar que não é só isso, que temos o nosso lado bom e que isto não é só o que as pessoas pensam”, argumenta Jorge.

Nessa altura, a residência artística estava a chegar ao fim e os oito jovens preparavam-se para subir ao palco do Rivoli.

Durante quatro meses, foram acompanhados por uma equipa de psicólogos e artistas. Aprenderam a escrever letras, compor músicas, misturar os sons e até a promover os trabalhos na internet.

O rap contra o preconceito. Jovens do bairro do Cerco actuam no Rivoli
Veja a reportagem da Renascença nos ensaios com Capicua e outros músicos

O Rivoli encheu e, desde então, foram várias as actuações do OUPA! em iniciativas culturais da cidade. O projecto cresceu, ganhou autonomia e prepara-se para montar um estúdio de gravação no bairro.

Agora, os oito jovens vão actuar para o novo Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa visita o Bairro do Cerco esta sexta-feira, no último de três dias das cerimónias de tomada de posse, que tem lugar a 9 de Março.

André Tentugal reconhece a importância destas iniciativas “para desmistificar e tentar destruir os preconceitos em relação a quem vive no bairro”, mas preferia que já não fossem necessários. “Citando um dos miúdos do projecto, que disse uma frase muito inteligente, 'o ideal é não haver este tipo de projectos, porque seria sinal que algum dia eles teriam resultado'.

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