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Entrevista

​José Luís Nunes Martins: “Se não conseguimos falar de fé de forma simples, é porque não a entendemos”

24 nov, 2017 - 19:38 • Ângela Roque

Novo livro “Sermões num Minuto” convida à reflexão a partir da Bíblia, mas sem a referir. Não é vergonha, garante, é uma questão de simplicidade.
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As leituras das missas de domingo rodam de três em três anos: há os anos A, B e C. E a mudança de ano e de leccionário (o livro com as leituras) ocorre sempre no primeiro domingo de Advento. Este ano, a 3 de Dezembro, começa o Ano Litúrgico B. E foi com base nas leituras do ano B, mas sem as citar ou referir, que José Luís Nunes Martins e a sua mulher, Pilar Sousa Lara, escreveram “Sermões num Minuto”, um livro de meditações que vai ser apresentado este sábado, 25 de Novembro, às 18h00, na Igreja de Santo António do Estoril.

José Luís Nunes Martins, que escreve opinião na Renascença, diz que este não é um livro para ser “lido de enxurrada”. E que de nada vale aos cristãos terem um grande conhecimento teórico sobre Deus se não souberem “olhar para o lado e perceber que alguém está triste”, ou falar da sua fé de forma simples.

Este é um livro de José Luís Nunes Martins e da sua mulher, Pilar Sousa Lara, e com ilustrações de António Sousa Lara. Podemos dizer que foi um livro feito em família?

Sim. Na altura em que foi escrito ainda não éramos família, eu e a Pilar, primeiro escrevemos o livro e casámos depois, mas agora é feito em família. O ilustrador, o António Maria, é irmão da Pilar. E muito bom ilustrador.

O livro chama-se "Sermões num minuto”. A introdução explica que "devem ser lidos num minuto apenas", mas "pensados durante mais tempo". A ideia é essa? É levar as pessoas a reflectir sobre temas que podem mudar a vida?

O objectivo é esse, que os temas façam pensar. Nós tentámos condensar coisas e leituras mais complexas em textos pequenos, sucintos e provocadores nesse sentido. Ou seja, nós fazemos a primeira parte do caminho e depois cada pessoa fará a sua parte.

A introdução também diz que não pretendem "ensinar verdades, nem impor convicções"...

O título é um bocadinho paradoxal, "Sermões num Minuto". Há a ideia de que um sermão é sempre uma coisa muito longa, mas "Sermões num Minuto" significa que nós estabelecemos aqui uma quantidade de perguntas e de provocações, mas depois a pessoa fará o seu próprio caminho.

Como é que escolheram os temas e decidiram a sua sequência no livro?

Nós fomos às leituras do Ano B, do leccionário dominical, e percorremos uma a uma como se fossemos padres e não pudéssemos fazer qualquer tipo de referência bíblica. Esse foi o desafio, não identificando que estamos a seguir as leituras dominicais, o que é que diríamos? Que leitura se pode fazer desta mensagem, destes sinais que são lidos na missa dominical? E foi aqui que chegámos.

E seguem as leituras para o próximo ano litúrgico, que está prestes a começar.

Sim. Mas não quisemos que isso ficasse explícito, mas não por haver vergonha dessa fonte de inspiração. Já escrevi dois ou três livros para crentes e não crentes e as minhas crónicas na Renascença também são nesta linha. Temos que abrir as portas da Igreja de dentro para fora, ser capazes de convidar os outros a entrar, mas não esperar que eles parem à porta, que oiçam belos cânticos e que entrem. Temos que ir lá para fora com o nosso exemplo, com palavras simples, tentar explicar aquilo em que acreditamos.

O objectivo é chegar a toda a gente?

Tentar chegar a toda a gente. Tenho ideia que estes livros não são comprados por não crentes – ou que, se isso acontece, será uma percentagem mínima. Mas que haverá muitos livros destes que vão parar a casa de não crentes dados por crentes, ou seja, uma tentativa de evangelização, que não lhes chega só pela capa, pelo tema, pela publicidade; chega como uma referenciação pessoal de alguém crente que, de alguma forma, sente que pode haver aqui uma ponte para isso…

O sermão "Onde está Deus?", por exemplo, termina a sublinhar esta ideia de que "há tantos caminhos para Deus como pessoas. Há os que procuram e não querem procurar", os que "já encontraram e os que ainda estão perdidos". É quase um resumo do objectivo deste livro nesta missão evangelizadora que também tem?

Sim. Eu partilho muito da ideia de que a fé sem obras não é grande coisa. Portanto, de nada vale acharmos que sabemos muito sobre Deus, sabemos ontologia [parte da filosofia que estuda a natureza do ser, a existência e a realidade], soteriologia [estudo da salvação humana], escatologia [teoria sobre o fim do mundo e da humanidade], e não sabemos olhar para o lado e perceber que alguém está triste.

E é isto que defendo de uma forma quase terrorista em relação à Igreja Católica: é que nós devemo-nos centrar muito no nosso exemplo e na capacidade que temos de chegar aos outros. E se não conseguimos dizer a coisa de forma simples, é porque não a entendemos de forma simples, e se andamos a complicar andamos a enganar os outros e a enganarmo-nos a nós próprios.

Mas não receia que digam que isto é demasiado leve ou “light”?

Receio não tenho. O livro tem uma dinâmica curiosa, cada um dos sermões é dividido em dois, tem uma primeira parte, escrita por mim, e uma segunda parte, que é uma meditação, chamemos-lhe uma oração, escrita pela Pilar. Também as ilustrações, vistas por si só, contam uma história, é muito curioso, um desafio, um mistério tipo jogo fantástico. As ilustrações foram feitas com base quase apenas no título e na ideia original. Eu passei ao António Maria aquilo que pensava escrever e ele foi fazendo as ilustrações, de forma livre. A Pilar esperou que os meus sermões estivessem escritos e escreveu em cima deles. Ou seja, é uma provocação, é uma outra voz, há aqui um diálogo em cada sermão de duas vozes, de duas cabeças a pensar.

Não é uma “moral da história” nem um conselho que fica para o dia, mas é uma outra reflexão sobre a primeira...

Exactamente, é quase uma provocação que põe em causa o que está lá para trás e que põe em causa as eventuais questões que foram lançadas na primeira parte do texto do sermão. Por isso é que ser feito a dois foi uma ideia curiosa. É um sublinhar para a reflexão que o leitor tem de fazer sobre cada um dos sermões. Claro que as pessoas que comprarem o livro farão como bem entenderem, mas a ideia do livro é para ser lido um sermão por dia, ou um sermão por semana, e nesse sentido ele é “light”, porque não é para ser lido de enxurrada, ou pelo menos não está pensado para isso.

Comentários
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  • Maria Carolina Almei
    12 dez, 2017 Arouca 17:24
    Muito interessante... Vou comprar...
  • Lucilia Costa
    27 nov, 2017 Carcavelos 19:36
    Partilhei este artigo no FB no grupo - "Catolicos Portugueses no Facebook". É possivel responder a este comentario: "Como posso adquirir o livro? Quanto custa? Poderão enviar pelo correio após pagar pelo multibanco?"
  • jlnm
    26 nov, 2017 11:11
    Obrigado, Jorge, estará disponível em qualquer livraria! um abraço!!
  • Jorge
    26 nov, 2017 S 10:27
    Sou dos Açores. Cá, onde posso encontrar o livro? Ou, então, como posso encomenda-lo? Obrigado