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Papa na Bênção das Velas: Maria não é maior que Cristo, nem "santinha" de favores

12 mai, 2017 - 21:41 • Aura Miguel , Eunice Lourenço

Perante milhares de fiéis, Francisco alertou para alguns perigos na devoção mariana. E desafiou os católicos a serem, como Maria, sinal de Deus que sempre perdoa.
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Papa na Bênção das Velas: Maria não é maior que Cristo, nem "santinha" de favores
Papa na Bênção das Velas: Maria não é maior que Cristo, nem "santinha" de favores


Peregrinos com Maria, mas qual Maria? – Foi esta interrogação que o Papa Francisco deixou esta sexta-feira à noite na Capelinha das Aparições, na bênção das velas. Numa saudação aos peregrinos, Francisco quis deixar claro que os cristãos deve ter devoção à mãe de Jesus, mas não a devem considerar maior nem melhor que Cristo nem uma “’santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço”.

“Com Cristo e Maria, permaneçamos em Deus. Na verdade, ‘se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele’”, disse o Papa Francisco, citando Paulo VI, o primeiro Papa a visitar o Santuário de Fátima.

Francisco mergulha numa multidão de luz
O Papa regressou ao Santuário pouco depois das 21h00 e percorreu a pé o corredor central até à Capelinha das Aparições, cumprimentando os milhares de peregrinos reunidos no local. O recinto transformou-se num mar de pequenas luzes - encabeçadas pelo terço enorme que se iluminou esta noite pela primeira vez

Mas, logo de seguida, perguntou: “Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma 'Mestra de vida espiritual', a primeira que seguiu Cristo pelo caminho 'estreito' da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora ‘inatingível’ e, consequentemente, inimitável? A 'Bendita por ter acreditado', sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma ‘Santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjectivas que A vêem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós?”

Francisco considera que os cristãos cometem uma “grande injustiça” a Deus quando dizem que os pecados são, em primeiro lugar, punidos, sem colocar a misericórdia em primeiro lugar. “Devemos antepor a misericórdia ao julgamento e, em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia. Naturalmente a misericórdia de Deus não nega a justiça, porque Jesus tomou sobre Si as consequências do nosso pecado juntamente com a justa pena. Não negou o pecado, mas pagou por nós na Cruz”, disse Francisco, lembrando que os cristãos devem pôr de lado qualquer forma de medo e temor “porque não se coadunam em quem é amado”.

“Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes”, continuou o Papa, lembrando que é essa “dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros” que tornam Maria modelo para a Igreja e para a evangelização.

“Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo”, desafiou o Papa Francisco, já no final da sua saudação, em que começou por assegurar a sua união aos peregrinos.

“Desde já desejo assegurar a quantos estais unidos comigo, aqui ou em qualquer outro lugar, que vos tenho a todos no coração. Sinto que Jesus vos confiou a mim e, a todos, abraço e confio a Jesus ‘principalmente os que mais precisarem’, como Nossa Senhora nos ensinou a rezar”, começou por dizer Francisco.

Concluiu em jeito de oração de louvor: “Tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor. Podemos dizer-Lhe: A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração”.

O Papa Francisco chegou esta sexta-feira a Portugal, sendo recebido por milhares de pessoas nas ruas e no Santuário de Fátima. A visita continua no sábado, com um encontro com o primeiro-ministro, de manhã, seguido de missa no Santuário às 10h00. Depois da missa o Papa almoça com os bispos portugueses.

A cerimónia de despedida na base aérea de Monte Real e Francisco parte novamente para Roma às 15h00.


A Renascença acompanha a viagem do Papa Francisco. Apoio Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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  • Rui M. Palmela
    14 mai, 2017 Setubal 09:04
    Oxalá que as palavras do Papa não sejam entendidas ao contrário pelos devotos marianos que pensarão agora que Maria não faz favores de baixo custo e passarão a oferecer rosas de ouro ou outras coisas mais valiosas quando se dirigirem a ela a fazer promessas...
  • Leopoldina
    13 mai, 2017 Coimbra 16:58
    Sinto uma paz imensa, porque aquilo que o papa disse bem de encontro aquilo que penso.
  • José Luz
    13 mai, 2017 Lx 01:44
    Esta frase do Papa pode dar origem a um equívoco Aqui está uma crítica indirecta à mensagem de FÁTIMA revelada pela irmã Lúcia nas suas memórias: «A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjectivas que A vêem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar (...)» Não temos de aceitar tudo o que o Papa diz, sem carácter vinculativo. Saberá o Papa o que vai na consciência dos peregrinos quando pedem a intercessão de Maria?