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Francisco, consolo de Deus

10 mai, 2017 - 16:46 • Eunice Lourenço

O novo santo da Igreja foi uma criança alegre, que brincava com animais – mesmo as cobras, os ratos e as lagartixas. Gostava de música e de se isolar para rezar a “Jesus escondido” e consolar a Deus. Via Nossa Senhora, mas não a ouvia. Morreu com 11 anos, sem medo do Inferno, desejoso de ir para o Céu.
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Francisco e Jacinta. Quem são os novos santos da Igreja?
Francisco e Jacinta. Quem são os novos santos da Igreja?

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Olhos claros e vivos, uma carinha redonda, bochechuda, um tanto morena, boca pequena – a descrição é da mãe de Francisco Marto, um dos três videntes de Fátima. Francisco é um dos mais novos santos da Igreja Católica, a par da sua irmã Jacinta, que também será canonizada este sábado pelo Papa Francisco, em Fátima.

Vários relatos falam de um rapazinho vivo e desembaraçado, que gostava de música e de jogos; enfim, uma criança como tantas outras, bem mais alegre que a imagem do menino sério fixada nas fotografias de 1917 e nos quadros que as replicam.

Francisco nasceu a 11 de Junho de 1908 e, como era costume naquele tempo, foi rapidamente baptizado nove dias depois. Na família já existiam dois meios-irmãos, filhos de um casamento anterior da mãe – António, de 19 anos, e Manuel, de 13 – e três irmãos – José, com nove anos, Florinda, quase com seis, e João, apenas com dois. Quase dois anos depois, haverá de nascer Jacinta.

Dos seus primeiros anos há poucos relatos. Nas suas memórias, Lúcia conta que quando ela começou a pastorear, com sete anos, Francisco, um ano mais novo, pareceu ficar indiferente. Mas, passados uns tempos, pediu à mãe para que o deixasse ir com o seu rebanho.

Visões

Com oito anos, em 1916, Francisco, com a prima e a irmã, vêem um anjo por três vezes. Terá sido também por essa altura que entrou na escola primária de Fátima.

António dos Reis, que viria a ser padre, foi um dos seus colegas e deixou testemunho de um rapazinho que se distinguia dos outros pela bondade e humildade, de tal forma que o professor e alguns colegas escarneciam dele, que pouco se importava. Reis também contou que partilhavam no recreio vários jogos infantis, como o pião, o lenço, o farinha ou farelo, o eixo, o botão, as cegas… “E sempre com alegria, porque o Francisco era bom companheiro para todos”, conta o padre numa carta publicada no livro “Era uma Senhora Mais Brilhante que o Sol”.

A maioria dos relatos sobre Francisco chegou-nos pelas memórias de Lúcia, que conta o que aconteceu a 13 de Maio de 1917, um domingo. Depois de terem ido à missa, Francisco, Lúcia e Jacinta regressaram a Aljustrel, reuniram os rebanhos e foram para uma propriedade do pai de Lúcia na Cova da Iria. O dia estava claro e sem nuvens.

De repente, os três foram surpreendidos por um clarão que julgaram ser um relâmpago. Reuniram o rebanho e começaram a fugir. Mas a meio da encosta depararam com uma “luz brilhante” sobre uma pequena carrasqueira ou azinheira.

“Foi no meio dessa luz que vimos uma senhora brilhante de luz, que se apresentava erecta, mãos postas e um terço pendente da mão direita. Ficamos estupefactos com tal visão”, contou Lúcia no processo de beatificação dos seus primos.

Quando chegaram a casa, Francisco e Jacinta contaram o que se tinha passado: que tinham visto uma Senhora muito bonita que lhes tinha mandado rezar o terço todo os dias. E é a mãe deles que, num relato incluído na Documentação Crítica de Fátima (recolha dos testemunhos e documentos relacionados com a mensagem de Fátima), conta que Francisco ao início não via nada, de tal forma que disse a Lúcia que lhe atirasse uma pedra. Esta virou-se para a Senhora e perguntou : “Então vossemecê é Nossa Senhora do Céu e o Francisco não a vê?” A Senhora mandou que ele rezasse e, depois de rezar algumas Avé-Marias, começou a vê-la.

Francisco viu “uma Senhora muito bonita”, mas nunca a ouviu. Eram Lúcia e Jacinta que lhe contavam o que ouviam. Foi assim naqueles seis meses, em que a notícia rapidamente se espalhou. Também reagiu de forma diferente às visões que foram tendo. Foi, segundo Lúcia, o que menos que se impressionou com a visão do Inferno, a 13 de Julho.

Em Agosto, quando foram levados para Ourém e não puderam ir à Cova da Iria, só receava que a Senhora não voltasse a aparecer. Na prisão, conta Lúcia, “mostrou-se bastante animado e procurava animar a Jacinta”, que chorava com medo e saudades de casa. Em Setembro, quando é interrogado pelo padre Formigão, que conduziu os primeiros inquéritos eclesiásticos aos pastorinhos, Francisco volta a dizer que não ouve o que diz a Senhora, mas vê-a (e “é mais bonita que qualquer pessoa”). Em Outubro, volta a ver a Senhora, mas também São José e o Menino e viu o Sol andar à roda.

Seguem-se tempos de mais interrogatórios. Civis e eclesiásticos. “Quando se lê a Documentação Crítica de Fátima, um dos aspectos que mais impressiona é a quantidade exagerada de interrogatórios a que estas crianças foram sujeitas”, avalia Maria da Conceição Cunha, professora de Direito na Universidade Católica, na comunicação que fez no congresso “Francisco Marto, crescer para o dom”, organizado em Fátima, no centenário do nascimento deste vidente.

Nessa comunicação, com o título “Declarações das crianças: seu valor, significado e modo(s) de interrogar”, a professora cita estudos segundo os quais as crianças não têm mais tendência para mentir do que os adultos e que é mais difícil às crianças manter uma mentira durante muito tempo.

Da análise das declarações dos pastorinhos salienta “o modo simples como se exprimiram, a coerência quanto à mensagem essencial, havendo divergências quanto a pormenores, a demonstração de firmeza, coragem e, simultaneamente, discrição”. “Cremos não haver indícios de mentiras deliberadas, mas, ao invés, que as crianças terão sentido/visto algo de sobrenatural”, conclui Maria da Conceição Cunha, admitindo que, em relação a pormenores e ao contexto do que viveram, o imaginário das crianças e o seu ambiente social possam ter tido influência.

Contemplação, jogos e música

Mais do que a Senhora “bonita”, o que impressionou e comoveu Francisco foi “aquela luz que é Deus”. E que o levou a uma espiritualidade de consolação e de reparação, muito em consonância com aqueles tempos.

“A história das aparições e da vida de Francisco fala-nos de uma criança pacífica, dócil, bondosa, condescendente, com sentido de humor, brincalhão, de fácil relação e amizade, atento e perspicaz, reservado, destemido, contemplativo, sincero, transparente, delicado”, lê-se numa comunicação do padre e mestre em teologia Emanuel Matos Silva feita no congresso de 2009.

No texto, o teólogo salienta a confiança de Francisco em Deus. “Francisco intuiu cedo a atracção da sua afectividade espiritual pela consolação. Consolado, mimado por Deus nas aparições do anjo e de Nossa Senhora, não podia ficar mero espectador de amor tão desmedido. A sua espiritualidade da consolação é uma resposta a Deus que maximamente o consolava”, lê-se na comunicação do padre Manuel Morujão no mesmo congresso.

Esse mesmo rapazinho, que se comove com Deus e o quer consolar, prefere ficar na Igreja, junto do sacrário, a rezar a “Jesus escondido” a ir à escola onde o professor o apelida de falso vidente. Mas, ao mesmo tempo, também é capaz de se deslumbrar com as peças de um automóvel e continua a gostar de brincar com animais, mesmo as cobras, os ratos e as lagartixas.

Foto: Santuário de Fátima

“A sua infantilidade é, ao mesmo tempo, facto de verosimilhança para uns e facto de inverosimilhança para outros. Os inquiridores dos vários processos constatam a alegria com que estão juntos e brincam”, assinala Maria Luísa Malato Borralho, professora da Faculdade de Letras do Porto no texto “Literatura, infância e dom: um livro chamado Francisco Marto”.

Outro gosto de Francisco é a música. “Tocava pífaro, gostava de preencher o silêncio dos montes com a sua música. Fazer música activa um conjunto de preciosas e estruturantes dimensões do ser humano, entre elas a de uma abertura para o universo imaterial e transcendente”, analisa o maestro Paulo Lameiro, enquanto o padre e professor catedrático Arnaldo de Pinho fala de Francisco como “um seduzido pela transcendência”, lembrando as teses do teólogo Karl Rahner sobre a infância como a idade adequada para tratar da filiação divina.

As crianças “sentem Deus como Mozart sentia continuamente melodias interiores. Sem esforço, sem interrupções, quase sem se dar conta”, disse D. António Marto, na abertura daquele congresso.

Morrer para crescer

Se a natureza, a música e os animais enquadram a vida espiritual de Francisco, também a morte faz parte dessa espiritualidade.

No fim de 1918, Francisco adoeceu. Era a “pneumónica”, essa epidemia de gripe que juntou mais morte à morte que a I Guerra Mundial já trazia à Europa. Todos adoeceram na casa da família Marto, excepto o pai. Entre períodos de cama e pequenas melhoras, Francisco ainda chegou a voltar à Cova da Iria, mas não voltou a ter saúde.

Queixava-se à mãe de não conseguir rezar o terço todo e tinha pena de não ir à Igreja rezar ao pé do seu “Jesus escondido”. Quando Lúcia lhe perguntou se sofria, respondeu: “Bastante, mas não importa. Sofro para consolar a Nosso Senhor; e, depois, daqui a pouco, vou para o Céu.”

As crianças e os adultos gostavam de o visitar, quando já não conseguia levantar-se, porque diziam que ao pé dele sentiam uma grande paz.

Foto: Santuário de Fátima

O Céu era a sua meta e a morte a forma de lá chegar. “Acaba por ver na morte, antes de mais, uma abertura à transcendência e ao convívio com a divindade. Momento de passagem a que aspira ferverosamente e que a doença e a perspectiva de uma morte prematura não refreiam. Muito pelo contrário, o sofrimento terá constituído para ele o prenúncio do que almejava para além”, considera o professor e investigador Adalberto Dias de Carvalho, da Universidade do Porto. Conclui: Francisco é “alguém que morre para crescer espiritualmente”.

Francisco Marto morreu na noite de 4 de Abril de 1919, ainda antes de completar os 11 anos. Na véspera tinha comungado.

Como se lê na “Enciclopédia de Fátima”, coordenada por Carlos Azevedo e Luciano Cristino, foi sepultado no dia seguinte, no cemitério público de Fátima. Mas, como o terreno não era da família, passados uns anos, foi usado para outros corpos. Por isso, quando os seus restos mortais foram exumados, em 1952, houve alguma dificuldade em identificar as ossadas. Foi o seu pai que acabou por as identificar pelas contas do terço que Francisco levava nas mãos.”


O QUE OUTROS DISSERAM SOBRE FRANCISCO

“O Francisco tinha os olhos clarinhos, mais vivos que os meus quando era nova ; carinha redonda, bochechuda, um tanto morena, boca pequena, lábios breves”. Mãe de Francisco

“Carapuço enterrado na cabeça, jaleca muito curta, colete deixando ver a camisa, as calças justas, enfim, um homem em miniatura. Bela cara de rapaz! Olhar vivo e cara agarotada. Com ar desempenado, quando respondia às perguntas”. Descrição de Francisco, não atribuída, citada na “Enciclopédia de Fátima”

“Já então o Francisco se distinguia dos outros pela sua bondade e humildade, virtudes estas que entre os seus companheiros, levados por um professor sem formação cristã, humanamente o faziam sofrer. Muito atrasado ainda na instrução, devia ainda andar na primeira classe; o professor e os companheiros gostavam de o escarnecer, tanto mais quanto é certo que ele, ocupado já por pensamentos mais elevados que o anjo lhe fizera nascer na alma, pouco se importava com a instrução intelectual recebida naquela escola. Lembro-me de ter jogado com ele e outros diversos jogos infantis – o pião, o lenço, o farinha ou farelo, o eixo, o botão, as cegas … E sempre com alegria, porque o Francisco era bom companheiro para todos.” Padre António dos Reis, natural de Boleiros, colega de escola de Francisco

“Na terceira aparição [a 13 de Julho], o Francisco pareceu ser o que menos se impressionou com a vista do Inferno, embora lhe causasse também uma sensação bastante grande. O que mais o impressionava ou absorvia era Deus, a Santíssima Trindade, nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma. Depois dizia: ‘Nós estávamos a arder, naquela luz que é Deus e não nos queimávamos'”. Irmã Lúcia, na Quarta Memória

“Era uma criança de dez a doze anos, trajando à moda do campo, bastante alegre e despreocupada ao que parecia. Convidámos o pequeno a acompanhar-nos, ao que ele se prontificou logo, saltando sorridente para o automóvel que nos conduzia. Fizemos-lhe várias perguntas, mas ele sorria mais do que falava, mostrando-se muito deslumbrado com as várias peças do automóvel.” Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos, advogado e oficial do Registo Civil no concelho de Vila Nova de Ourém.

“Até às aparições, não notava nele virtudes especiais, a não ser a sua índole boa e o seu carácter pacífico e uma certa propensão para a piedade. Depois das aparições, notei que as suas virtudes se iam acentuando em vários aspectos. Mas só depois da sua morte, à medida que eu fui crescendo, é que me apercebi melhor de muitas das suas qualidades.” Irmã Lúcia, no Tribunal eclesiástico de Coimbra, 9 de Julho de 1955


O QUE FRANCISCO MARTO DISSE:

“Gostei muito de ver o Anjo. Gostei mais de ver Nossa Senhora. Mas do que gostei mais foi de ver Deus naquela luz que Nossa Senhora nos metia no peito. Oh, como é Deus! Isso sim nós não podemos dizer.”

“Eu sentia que Deus estava em mim, mas não sabia como era.”

“Gosto mais de rezar sozinho para pensar e para consolar Nosso Senhor que está tão triste.”

“Tu [para Lúcia] vai à escola que eu fico aqui na Igreja, junto de Jesus escondido.”

“Esta gente fica tão contente só por lhe dizermos que Nossa Senhora mandou rezar o terço e que aprendesses a ler. O que seria se soubessem o que ela nos mostrou em Deus.”

“Nossa Senhora disse que íamos ter muito que sofrer. Não me importo. O que eu quero é ir para o Céu!”

“Sofro para consolar a Nosso Senhora e depois daqui a pouco vou para o Céu.”

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