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“O homem sempre a usou e a mulher sempre a quis usar”. O que é?

06 abr, 2017 - 15:48 • Olímpia Mairos

A secular capa de honras mirandesa estava estritamente ligada ao universo masculino. Agora, já há uma capa para mulheres.

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Palmira Falcão, artesã de Sendim, Miranda do Douro, há muito que se dedica à elaboração dos trajes tradicionais confeccionados em pardo, burel e linho, assentes na cultura tradicional do Planalto Mirandês, território que abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso, no distrito Bragança.

É pelas suas mãos que surge a primeira capa de honras Mirandesa para mulheres. Até aqui, a capa de honras, peça do vestuário tradicional mirandês, era uma exclusividade dos homens e dos “mais abastados”.

“A ideia surgiu porque terá de haver igualdade de géneros”, explica Palmira Falcão, considerando que, se “agora as mulheres também usam calças, andam de bicicleta, andam de carro…, também têm direito a ter uma capa de honras”.

A nova criação de Palmira exigiu tempo e criatividade.

“Tive que trabalhar noite e dia e tive que lhe fazer a abertura dos braços para a mulher ficar mais livre, mais ágil, porque a mulher mirandesa é trabalhadeira”, conta a artesã que se dedica ao fabrico de diversas peças de vestuário, tendo sempre como origem a capa de honras.

As encomendas estão a surgir “um pouco de todo o lado”, acreditando a artesã que a inovação será um sucesso no “mundo feminino” até porque - diz - “está toda a gente a gostar”.

Admirada com o “engenho da artesã” e rendida ao novo vestuário está Teresa Subtil, habitante de Miranda do Douro.

Palmira Falcão “já fazia capas maravilhosas e criou esta para que seja realmente a capa da mulher mirandesa, porque o homem sempre a usou e a mulher sempre a quis usar”, diz.

“É uma obra de arte. A mulher também tem a sua honra e gosta de usar a capa em dias festivos, e sempre que haja qualquer evento ou boda”, entende Teresa Subtil, sublinhando que “a capa mirandesa tem sempre jeito e deve merecer destaque”, pois trata-se de uma veste “rica do ponto de vista tradicional e cultural”.

Para António Rodrigues Mourinho, estudioso da cultura tradicional Mirandesa, o surgimento de uma capa de honras para mulheres “não vem alterar a história do traje tradicional”.

O investigador não acredita que a nova capa “venha a ter a solenidade da capa de honras masculina, por se tratar de uma peça de vestuário inteiramente ligada ao quotidiano dos agricultores, pastores e homens de negócios mais abastados”, e, em jeito de conclusão, remata afirmando que “como vivemos em democracia, temos de aceitar a igualdade de género”.

As origens

Segundo o investigador António Rodrigues Mourinho, a capa de honras mirandesa tem origem na região espanhola de Leão e "remontará aos séculos IX ou X, tendo origem na 'capa de chiba' que, traduzido do espanhol para português, quer dizer 'capa de cabra'".

Sobre "esta peça 'sui generis' só há dois documentos conhecidos que referem este tipo de capa e são datados de 1819 e 1828”, diz.

Há também quem defenda que a capa de honras mirandesa poderá ter surgido da capa pluvial de Arperjes, usada nos mosteiros das Terras de Leão (Espanha).

A Capa de honras Mirandesa tinha como finalidade proteger do frio os guardadores de gado, e assumiu, nos tempos modernos, outra função social, sendo usada em cerimónias protocolares ou actos de importância relevante, embora seja usual oferecer uma capa de honras a pessoas distintas que visitam o município de Miranda do Douro.

A capa de honras é uma peça com grande valor etnográfico. Implica um trabalho minucioso por parte do artesão, devido à sua grande complexidade, e é confeccionada com lã de ovelha, depois de fiada, urdida, tecida e pisoada (burel).

O valor da capa de honras mede-se ou avalia-se pelo seu feitio e pelos dias que o artesão demora a confeccioná-la. As pessoas mais ricas e nobres eram consideradas honradas ao ter o privilégio de usar uma capa mais trabalhada e que demorava mais tempo a fazer.

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  • silvia grazina
    06 abr, 2017 s.d. rana 16:35
    Como transmontana que sou, e nascida nesta linda e mui nobre cidade de Miranda do Douro, concordo em que as mulheres usem tambem estas capas, para nao cair no esquecimento o melhor que temos do nosso artesanato mirandes