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Crónicas da América
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Investigação às ligações Trump-Rússia é a nuvem negra que paira sobre a Casa Branca

21 mar, 2017 - 09:48 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

FBI revela que tem em curso uma investigação sobre ligações suspeitas entre a “entourage” de Trump e a Rússia. Indícios fortes podem levar à nomeação de um procurador especial. Presidência ensombrada por inquérito que pode durar anos. Não houve quaisquer escutas na Trump Tower.
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A expressão é de um congressista republicano, apoiante de Donald Trump: “Há uma nuvem negra sobre as pessoas que têm a tarefa muito importante de liderar o país”.

Devin Nunes preside à Comissão de Serviços Secretos da Câmara de Representantes e, nessa qualidade, presidiu esta segunda-feira à audição naquela câmara dos directores do FBI e da NSA (National Security Agency), que ali foram depor sobre as suspeitas levantadas por Donald Trump de que teria sido escutado por Obama durante a campanha eleitoral.

Congressista de origem portuguesa, eleito pela Califórnia, Nunes reconheceu no final das quase seis horas de interrogatório aos dois directores que ficava agora a pairar um nuvem negra sobre a Casa Branca e toda a “entourage" do Presidente. E não por causa das supostas escutas na Trump Tower, mas sim porque James Comey, o director do FBI, revelou que estava em curso desde Julho do ano passado uma investigação a uma possível cooperação entre responsáveis da campanha de Trump e a Rússia para influenciar as eleições americanas.

Comey disse, sob juramento, que tinha sido autorizado pelo Departamento de Justiça, que tutela o FBI, a revelar algo que habitualmente não é revelado: a existência de uma determinada investigação. E isso porque as circunstâncias são “inabituais”: trata-se de matéria de “interesse público” e foi considerado “apropriado” proceder deste modo.

A abertura de uma investigação especial deve-se ao facto de haver indícios suficientemente fortes de que gente da campanha de Trump esteve envolvida com os russos na operação anti-Clinton.

Há muito tempo que o FBI e outras agências secretas americanas não tinham qualquer dúvida sobre a interferência russa na campanha eleitoral no sentido de favorecer Trump e prejudicar Hillary Clinton, designadamente através da revelação de e-mails incómodos para Clinton e para o Partido Democrático que os russos piratearam e forneceram à Wikileaks para que fossem divulgados.

Novo Watergate?

Essas revelações foram feitas em Outubro de 2016, a cerca de um mês das eleições, e não deixaram dúvidas a ninguém de boa fé sobre a intervenção russa no processo presidencial norte-americano.

Mas do que se trata agora – e é essa a nuvem negra que passou a pairar sobre a Casa Branca e o Presidente – é de investigar se a interferência de Moscovo teve a colaboração de membros da campanha de Trump. Esse eventual conluio ou conspiração colocaria os seus autores como responsáveis por um crime federal por cooperarem com uma potência estrangeira, que Comey e a generalidade dos congressistas classifica como “adversária” dos Estados Unidos.

A gravidade do que está em jogo pode conduzir à nomeação de um procurador especial e a uma investigação que poderá durar muitos meses ou até anos, dado tratar-se de uma operação de contra-espionagem, particularmente delicada e morosa.

Não falta já quem invoque semelhanças com os casos Watergate e Monica Lewinski. Ambos se tornaram uma ameaçadora nuvem negra sobre as presidências de Nixon e Clinton, respectivamente, acabando o Watergate por levar à resignação de Richard Nixon a meio do segundo mandato.

Por isso mesmo, Devin Nunes pediu ao director do FBI, já no final da audição, que fizesse todos os esforços para acelerar a investigação. “Quanto mais depressa chegar ao fundo disto melhor será para todos os americanos”, advertiu.

“A Russian connection”

Recorde-se que pela campanha de Trump passaram vários personagens com ligações à Rússia e aos seus dirigentes. O mais destacado foi Michael Flynn, um general na reserva que, após a eleição, foi escolhido por Trump para Conselheiro de Segurança Nacional.

Esteve no cargo apenas 24 dias e demitiu-se por ter ocultado contactos com o embaixador russo em Washington logo após o Presidente Obama ter decretado sanções a Moscovo, justamente por causa da interferência na campanha eleitoral.

Flynn era um velho conhecido dos russos, foi comentador remunerado do canal do Kremlin, Russia Today, e participou numa gala em Moscovo, onde se deslocou a expensas russas e se sentou junto de Vladimir Putin.

Outro personagem com ligações a Moscovo é Paul Manafort, que foi director de campanha de Trump durante dois meses. Entre outras funções, foi conselheiro do Presidente ucraniano Yanukovich, derrubado pelo levantamento popular da praça Maidan em 2014.

Yanukovich refugiou-se na Rússia, de quem era um protegido, mas Manafort já tinha recebido mais de 12 milhões de dólares pelos “conselhos” dados ao líder pró-Moscovo. Foi exactamente a revelação destes rendimentos, alegadamente recebidos por “baixo da mesa”, que forçou a demissão de Manafort de director da campanha de Trump no Verão do ano passado.

Carter Page era conselheiro de política externa de Trump quando se soube de um discurso que tinha feito em Moscovo muito crítico para o papel dos Estados Unidos enquanto promotor da democracia. Tinha sido consultor da Merrill Lynch na Rússia dez anos antes, mas os comentários sobre a democracia provocaram tal onda de criticismo entre a campanha de Trump que Page se demitiu em Setembro.

E já vão três casos de demissões por causa de ligações ao Kremlin. Mas se alargarmos a busca ao domínio dos negócios com a Rússia, a lista aumenta substancialmente, incluindo o próprio Presidente.

Trump organizou em Moscovo o concurso de Miss Universo, com o qual ganhou muito dinheiro, e gabou-se várias vezes de ter vendido muitas mansões a oligarcas russos. O seu filho mais velho, Donald Junior, garantiu numa conferência sobre imobiliário, em 2008, que os russos representavam uma parte “desproporcionada" das suas vendas e que “viam muito dinheiro a jorrar da Rússia”.

Rex Tillerson, o secretário de Estado, era o presidente da Exxon-Mobil antes de assumir o actual cargo e nessa qualidade tinha diversos negócios com as petrolíferas russas, incluindo projectos comuns de perfuração de poços que estão suspensos por causa das sanções decretadas a Moscovo na sequência da invasão da Ucrânia. Recebeu a Ordem da Amizade directamente das mãos de Putin.

Por esta pequena amostra se verifica que o novelo das ligações da “entourage” de Trump ao Kremlin é extenso e complexo. A investigação do FBI, em curso desde Julho, já interrogou alguns dos personagens referidos e do lado de Moscovo já veio uma ajuda involuntária.

Dois dias após a vitória de Trump, Sergei Ryabkov, ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros, assegurou que “houve contactos” entre funcionários russos e a equipa de Trump durante a campanha eleitoral.

“Obviamente, conhecemos grande parte das pessoas da sua ‘entourage’”, acrescentou Ryabkov à agência russa Interfax.

“Interferência ruidosa”

Ironicamente, só a Casa Branca parece não ter percebido a gravidade da questão. Ou então, na sua proverbial vivência no universo dos factos alternativos, começou de imediato a desvalorizar o assunto.

O porta-voz de Trump, Sean Spicer, disse no briefing diário que não tinha saído nada de novo do depoimento de Comey e que, enquanto as investigações decorrerem, continuarão a ser legítimas as desconfianças e especulações em torno da interferência russa na campanha eleitoral.

E o próprio Trump manipulou a seu bel-prazer, no Twitter, aquilo que o director do FBI disse: “A NSA e o FBI disseram no Congresso que a Rússia não influenciou o processo eleitoral”, escreveu.

Só que se reportava a uma afirmação de Comey sobre a interferência nas assembleias de voto e não na influência dos eleitores. Quer o FBI, quer a NSA, admitem que a Rússia tentou (ou pelo menos pensou em) piratear as máquinas de votação em muitos estados, mas não conseguiu.

A contagem de votos esteve a salvo de qualquer interferência manipuladora, mas não a campanha e a influência dos eleitores. Aliás, Comey foi muito claro ao caracterizar a operação russa na campanha. Disse que tinha sido “muito ruidosa” no sentido em que Moscovo não se preocupou em apagar os traços da sua intervenção e que o terá feito intencionalmente para obter um maior impacto das suas acções.

Geralmente, quando os serviços secretos de um país conseguem penetrar informaticamente em áreas sensíveis de outro e obter informação útil, esforçam-se por apagar os traços da sua pirataria. Mas não foi o caso desta vez, o que leva a concluir que pretendiam obter a máxima publicidade possível para as suas acções.

Para os dois directores presentes no Congresso, o objectivo do Kremlin foi descredibilizar o processo eleitoral americano, as instituições do país e em última análise a democracia. “Uma das lições que eles podem tirar é que foram bem sucedidos introduzindo o caos e a discordância” nas eleições, disse Comey, que se mostrou convicto de que os russos tentarão fazer o mesmo nas presidenciais de 2020 e até nas legislativas intercalares de 2018. Uma convicção partilhada pelo seu homólogo da NSA, Mike Rogers: “Prevejo que eles mantenham este nível de actividade”.

Dado o carácter público da audição, os dois directores recusaram-se a responder a muitas perguntas dos parlamentares, mas disponibilizaram-se para dar esclarecimentos mais detalhados numa sessão à porta fechada.

Trump desmentido e desautorizado

A principal expectativa desta audição, contudo, não recaía na questão da interferência russa nas eleições, mas sim na famosa acusação de Donald Trump de que o Presidente Obama tinha mandado escutar a Trump Tower durante a campanha eleitoral.

O caso já estava esclarecido na opinião pública, porque pouco depois da acusação o próprio FBI e outras agências de “intelligence” tinham dito que não havia qualquer prova de tal alegação.

Mais, considerando a gravidade da acusação ao ex-presidente, o FBI tinha incitado o Departamento de Justiça a vir a público desmentir os tweets de Trump. Algo que não aconteceu, provavelmente porque o Departamento de Justiça acabava de ficar sob o controlo da nova administração.

Mas, esta segunda-feira, James Comey e Mike Rogers tiveram oportunidade de confirmar perante o país inteiro aquilo que já se sabia.

E foram muito claros: não houve quaisquer escutas na Trump Tower; o Presidente Obama não pediu a qualquer agência secreta para fazer escutas na Trump Tower; os Presidentes não têm poder para mandar fazer escutas, esse é um processo que passa por várias instâncias e requer a aprovação final de um juiz; o FBI transmite também a posição do Departamento de Justiça neste caso, que confirma a inexistência de quaisquer escutas ou pedido para que fossem feitas; os serviços secretos ingleses não fizeram quaisquer escutas na Trump Tower; a NSA ou qualquer outra agência não pediu aos serviços secretos ingleses para fazerem escutas na Trump Tower.

Em suma, não há qualquer informação ou qualquer prova que sustente os tweets de Donald Trump, que acusou Obama de o ter escutado durante a campanha eleitoral. A desautorização do Presidente foi total e absoluta. E foi depois disto que o porta-voz da Casa Branca veio afirmar que nada tinha sido dito que alterasse a situação.

Uma táctica que já tinha sido antecipada por Trump algumas horas antes da audição no Congresso, ao escrever no Twitter que “a verdadeira notícia” são as “fugas de informação confidencial”. A isso se agarraram os republicanos na Câmara de Representantes, tentando desviar a atenção das denúncias embaraçosas ali feitas pelo FBI e pela NSA.

Quase todas as suas intervenções se focaram na questão das fugas de informação para os jornalistas, pressionando Comey para que as investigasse com rapidez e processasse os seus autores. A questão substancial do desmentido categórico ao Presidente e da gravidade da investigação em curso sobre os contactos com os russos parecia não incomodar os eleitos republicanos.

Devin Nunes, o presidente da comissão, era a única excepção a esta regra. Ele percebeu como a nuvem negra vai ficar a pairar sobre a Casa Branca e a administração Trump por tempo indeterminado. E como poderá tornar-se tão espessa que acabe por tapar o sol.

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  • JMC
    22 mar, 2017 USA 00:05
    Subscrevo plenamente o comentário escrito por "Ela." Sendo cidadão americano, acho que vai haver––no futuro imediato–– muito choro e ranger de dentes, pois o Sr. Trump é um vigarista rico cujo tempo está-se a esgotar. Logo se vê. Como todos os incompetentes , a verdade virá ao de cima.
  • Ela
    21 mar, 2017 Lisboa 13:04
    A presidência do sr. Trump não terá um fim feliz. Vai haver choro e ranger de dentes entre os seus fervorosos seguidores. E agora, como V. Exªs lidam muito mal com a liberdade de expressão e com opiniões diferentes das vossas, tenham a bondade de começar a insultar-me :-). Boa tarde e entretenham-se :-).