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Não há lugar na Síria para 2,4 milhões de crianças

14 mar, 2016 - 12:42 • Matilde Torres Pereira

E as crianças que não saíram do país como refugiadas estão cada vez mais em risco, segundo um relatório da UNICEF, que faz o balanço de cinco anos de conflito e descreve infâncias marcadas "pela perda e pela privação".
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O conflito na Síria, que dura há mais de cinco anos, já resultou em 2,4 milhões de crianças refugiadas, provocou a morte de muitas e levou ao recrutamento de crianças para o combate armado. Algumas destas crianças-soldado chegam a ter apenas sete anos, segundo o relatório da UNICEF divulgado esta segunda-feira.

Cerca de uma em cada três crianças sírias nasceram depois do início do conflito há cinco anos, o que significa que as suas vidas têm sido moldadas pela violência, pelo medo e pelas deslocações, descreve o relatório “No Place for Children” (Um local que não é para crianças). Este número inclui mais de 306 mil crianças nascidas como refugiadas desde 2011.

A UNICEF estima que mais de 80% da população infantil síria esteja a ser afectada pelo conflito.

“Na Síria, a violência tornou-se uma prática comum, atingindo casas, hospitais, escolas, centros de saúde, parques, jardins infantis e locais de culto”, afirma, no relatório, Peter Salama, director regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África. “Perto de sete milhões de crianças vivem na pobreza – uma infância marcada pela perda e pela privação.”

Este relatório da UNICEF verificou 1.500 violações graves praticadas contra crianças, incluindo mais de 60 casos de morte e mutilação resultantes do uso de explosivos em zonas de habitação. Destas crianças, mais de um terço foram mortas na escola ou a caminho da escola.

O número de refugiados nos países vizinhos da Síria cresceu dez vezes desde 2012 e metade de todos os refugiados são crianças. “Nestes cinco anos de guerra, milhões de crianças cresceram demasiado depressa e antes do tempo", declara Peter Salama. “Com a continuação do conflito, as crianças continuam à mercê de uma guerra de adultos, continuam a não ir à escola, muitas vêem-se obrigadas a trabalhar e muitas raparigas casam precocemente.”

Grupos armados recrutam crianças cada vez mais novas

Segundo o relatório, que faz o balanço do impacto dos cinco anos de guerra na vida das crianças sírias, ao início, a maioria das crianças recrutadas pelos exércitos e grupos armados eram rapazes entre os 15 e os 17 anos de idade e usados sobretudo em funções longe das linhas da frente.

Porém, nota o relatório, desde 2014, todas as partes envolvidas no conflito têm recrutado crianças muito mais novas, algumas com apenas sete anos, e frequentemente sem o consentimento dos pais. Mais de metade dos casos em 2015 envolvia crianças menores de 15 anos. Em 2014, esta percentagem era de 20%.

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A UNICEF alerta que “estas crianças recebem treino militar e participam em combates, ou são encarregadas de tarefas na linha da frente que põem a sua vida em risco, incluindo o transporte e manutenção de armas, a vigilância em postos de controlo, o tratamento e evacuação de feridos de guerra”. As partes neste conflito, aponta a organização, estão também a usar as crianças para matar em execuções ou como atiradores furtivos.

Mais de 2.1 milhões de crianças não vão à escola

Para a UNICEF, um dos maiores desafios no conflito sírio “tem sido proporcionar às crianças oportunidades de aprendizagem”.

O relatório indica que as taxas de frequência escolar atingiram níveis mínimos: mais de 2.1 milhões de crianças no interior do país e 700 mil nos países vizinhos não vão à escola.

“Não é demasiado tarde para as crianças sírias”, sublinha o director da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África. “Elas continuam a ter esperança numa vida com dignidade e oportunidades. Elas continuam a acalentar sonhos de paz e a possibilidade de os concretizar.”

A UNICEF e organizações parceiras lançaram por isso a iniciativa “No Lost Generation” (Não a uma geração perdida), que está “empenhada em restaurar a aprendizagem e proporcionar oportunidades para os jovens”.

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  • culpados!
    15 mar, 2016 Santarém 15:17
    Na Síria parece não haver lugar para ninguém, tudo está destruído e os que sobrevivem à guerra dificilmente encontrarão paz duradoura neste país para refazerem as suas vidas, fala-se alguma coisa de tudo isto mas não se fala dos responsáveis externos que despoletaram toda esta situação, agora não há responsáveis só pretendem condenar Assad por ser ditador mas quanto eu saiba o país vivia em paz antes das interferências externas na sua governação.
  • tuga
    14 mar, 2016 lisbos 15:29
    QUEM TREINOU E SUBSIDIOU O TERRORISMO COM VISTA A CHEGAR AO PETROLEO, QUE ASSUMA AS CONSEQUENCIAS DOS SEUS ACTOS!!! ASSIM A QUE SERÃO RESPONSÁVEIS E CREDÍVEIS, NÃO É POR O CÚ DE FORA E AGORA OS EUROPEUS TODOS QUE PAGUEM!!!