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Opinião

D. António Francisco dos Santos, um grande pastor da Igreja

13 set, 2017 • D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa


Veio falar comigo, hesitante em aceitar o cargo. Estava feliz e realizado em Aveiro e tinha receio de não ser capaz. Foi capaz e capacíssimo, precisamente no essencial, de ser um pastor próximo e amigo de todos e cada um dos seus.

A morte súbita de D. António Francisco dos Santos dói-me particularmente. Éramos amigos há muito, nascemos no mesmo ano, trabalhámos os dois em seminários, ele em Lamego e eu em Lisboa, fomos bispos em mais do que uma diocese e sucessivamente numa delas - o Porto. Percursos tão próximos aproximaram-nos na vida e agora também na morte, ainda que eu por cá continue.

Conversámos muitas vezes e sobre muita coisa, sobretudo da vida da Igreja, do serviço sacerdotal e episcopal, de temas do país e do mundo. A afinidade foi grande, como continua a ser. É a partir dela que digo o que se segue:

Ser bispo, nas atuais circunstâncias, é um trabalho complexo e quase inabarcável para quem o exerce. Não se está acima de nada nem de ninguém, muito pelo contrário, mas sim no centro de tudo ou quase tudo, no que à igreja se refere e mesmo além da vida da Igreja. A pressão é grande, inclusive a mediática, e as estruturas intermédias quase se desfazem, pois sempre se espera que quem está no centro responda imediatamente seja sobre o que for, por mais inesperado ou periférico que possa ser.

O estilo corrente é de contraste, o dia a dia atropela-se e a solicitação é forte ou latente. Para mais, tratando-se de acompanhar e conjugar a vida eclesial, os contornos são menos precisos, menos passíveis de avaliação e decisão rápida. São sempre realidades anímicas, mesmo na mais comezinha das coisas.

D. António Francisco dos Santos era uma excelente pessoa e um grande pastor da Igreja. Usamos esta designação referida a Cristo “pastor”, como se apresenta no Evangelho. O bom pastor que «dá a sua vida pelas ovelhas» (Jo 10, 11). Assim a deu também o bispo do Porto, praticamente sem descanso e nas circunstâncias que acima esbocei.

Lembro-me de quando veio falar comigo, hesitante em aceitar o cargo. Estava feliz e realizado em Aveiro e tinha receio de não ser capaz. Foi capaz e capacíssimo, precisamente no essencial, de ser um pastor próximo e amigo de todos e cada um dos seus. Não lhe faltaram dificuldades, mas nenhuma lhe endureceu o espírito nem o trato. Sábio e bondoso, assim permaneceu e assim nos fica, como memória exemplar.

Fisicamente, o coração pode parar. Espiritualmente, isto é, realmente, continua connosco no coração de Deus.

Muito obrigado, caríssimo irmão e amigo!

Comentários
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  • João Galhardo
    14 set, 2017 Lisboa 22:34
    É triste perceber como o regime da Renascença continua a censurar os comentários que não gosta. Ou seja, o espírito da inquisição continua bem vivo na Renascença.