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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​A China e a democracia

17 jul, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Para o PC chinês a democracia e o respeito pelos direitos humanos são valores meramente ocidentais.

Morreu Liu Xiaobo, intelectual chinês prémio Nobel da Paz em 2010 (prémio que não foi autorizado a receber na Noruega) e grande lutador pela democracia. O poder político de Pequim também impediu Liu Xiaobo de ir ao estrangeiro tratar o cancro que o vitimou.

As críticas internacionais à falta de respeito dos dirigentes chineses pelos direitos humanos são repudiadas por Pequim, que as considera uma intromissão inaceitável nos assuntos internos da China. Ou seja, apesar de o fulgurante crescimento económico das ultimas décadas ter enriquecido milhões de chineses, parece não haver vontade ou capacidade dessa “burguesia” para exigir direitos cívicos e políticos – ao contrário do que se passou na Revolução Francesa.

Xi Ping, secretário-geral do PC chinês e Presidente da China desde 2012, de quem muitos esperavam alguma abertura política, acabou por tornar ainda mais repressivo o regime daquele enorme país. A abertura quedou-se pela área económica, pela mão do falecido Deng Xiao Ping.

Será que a democracia política representativa não funciona fora dos países ditos ocidentais? É isso que os dirigentes do PC chinês invocam, considerando que se trata de valores estranhos à cultura chinesa. O mesmo dizem do respeito pelos direitos humanos, “uma invenção ocidental”. E têm seguidores, desde Putin a Erdogan, passando pelo “socialismo bolivariano”.

Os chineses têm razões de queixa dos ocidentais, sobretudo dos britânicos, que no séc. XIX os invadiram e humilharam. É uma das raízes do nacionalismo agressivo dos chineses. Eles também não gostam dos americanos, que protegeram Chang Kai-shek na sua luta contra os comunistas. Luta que este perdeu, refugiando-se em Taiwan (Formosa), onde entretanto floresceu uma democracia. Numa sociedade de cultura chinesa...

Mas o ressentimento não justifica tudo. A ideia de que existem traços específicos na cultura da China que afastam os alegados valores ocidentais, como o respeito pelos direitos humanos, é uma desculpa dos dirigentes do partido único chinês para manterem o monopólio do poder e a sua tirania. A não ser que se opte por um relativismo ético inaceitável, uma tentação – essa, sim, ocidental.

Comentários
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  • Rogerio
    18 jul, 2017 Lisboa 06:21
    O ocidente com todas as suas permissividades está a dar sinais de decadência e fim de regime neo imperial intromissor e promiscuo ,a ver vamos o que se sucede.
  • Miguel Botelho
    17 jul, 2017 Lisboa 18:59
    Nuno Dias, será que ainda não percebeu que Sarsfield Cabral é incapaz de criticar o modelo de democracia corrupta que existe nos Estados Unidos da América? Como também é incapaz de criticar Israel ou a Arábia Saudita. Sarsfield Cabral é hoje um comentador gasto e apagado. Só assim se percebe o lugar que recebeu aqui nesta página para escrever.
  • JP
    17 jul, 2017 Olhão 18:47
    Sr Cabral faço um apelo aos seus conhecimentos das normas internacionais. Qual o país no MUNDO verdadeiramente democrático. Portugal é um exemplo, para eleger um grupo de gente para determinados órgãos são exigidos 2/3 dos deputados e andam meses e meses neste passa culpas pois os donos disto não se entendem. Acha que isto é democracia? Eu chamaria outra coisa.
  • Nuno Dias
    17 jul, 2017 Porto 17:03
    A opinião de Francisco Sarsfield Cabral é previsível e repetitiva: é elitista, imperialista e belicista. Acredita que o seu modelo social é o melhor, é superior e que tem que o propagar pelo mundo fora. China é um país soberano, para o bem ou o mal e nós (NATO, UN, ocidente) não temos nada a ver com isso. Senão sugiro colocar a hipocrisia de lado e atacar a Arábia Saudita duma vez por todas, que é membro da UN para os direitos humanos e decapita mulheres em praça pública. Fica mais perto que a China inclusivamente!
  • António Costa
    17 jul, 2017 Cacém 13:10
    A cultura chinesa acolheu uma série de valores "ocidentais", que levaram à Revolução Chinesa liderada por Mao Tsé-Tung. Estas ideias "ocidentais", vão "falhar" tanto na Indonésia e no Paquistão. Porquê? O que tinha a China de "diferente" da Indonésia e do Paquistão? O Paquistão e a Indonésia baseiam-se nas Ideias Totalitárias do Antigo Testamento. O "Antigo Testamento" "Bom Senso Chinês" = "Ideias do Novo Testamento". O Novo Testamento, o "Respeito Pelo Outro" vai pôr em causa o "Chefe Divino". As Ideias de "Igualdade" da Revolução Francesa, são apenas resultado do "repetir" durante séculos "os homens são todos iguais perante Deus". A China do Séc. XX, ao receber as "Ideias do Socialismo", apenas recebeu as Ideias "netas" do "Bom Senso Chinês". Receberam o "Socialismo", filho do "Novo Testamento" e neto de ("AntigoTestamento" "Bom Senso Chinês"). E foi por isso que a Revolução triunfou na China e "falhou" tanto na Indonésia como no Paquistão.
  • Justus
    17 jul, 2017 Espinho 11:28
    É certo que a China tem uma cultura e valores diferentes dos nossos. Melhores ou piores? Não sei. Apenas sei que a cultura chinesa é milenar e que eu me dou bem e prefiro a cultura ocidental. Porque foi nesta que nasci, cresci e me formei. Mas não condeno nem exorcizo, como faz S. Cabral, as outras culturas. Tudo no seu lugar e nada de impor aos outros aquilo que eles não querem. E já agora, S. Cabral, a diferença entre a cultura chinesa e a ocidental não impediu o governo de P. Coelho de lhes vender as nossas melhores empresas, ou seja, grande parte do país. E logo aquele partido (PSD) que mais criticou e critica o comunismo. Afinal nem tudo é mau na China porque até servem para nos ajudar. Deixem-los em paz enquanto eles também nos deixam.